Clássicos com ares modernos

Com um currículo que inclui traduções diretas de autores do porte de Homero, Aristófanes, Sófocles, Eurípedes e Ésquilo, Trajano Vieira representa um novo modo de reverenciar os gregos

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

23 Julho 2011 | 00h00

Trajano Vieira decidiu estudar letras na USP porque se encantou com a vanguarda russa do início do século passado e concluiu a graduação admirador da produção grega de mais de 2.500 anos atrás. Na dúvida, completou o curso nos dois idiomas. Nos gregos Trajano se especializou e deles se tornou tradutor. Passou a lecionar letras clássicas na Unicamp e verteu Sófocles, Eurípedes e Ésquilo. Do futurismo russo, manteve a paixão por Vladimir Maiakovski e Paul Klebnikov, que hoje se dá ao luxo de traduzir apenas para consumo próprio.

Ou seja, o que prevaleceu daqueles primeiros quatro anos na universidade foi o mergulho no clássico, mas o moderno é indissociável da história do paulistano. Foi com tal olhar que trabalhou, por um ano ininterrupto, na tradução da Odisseia de Homero, lançada há pouco em edição bilíngue, pela Editora 34. São quase todas modernas as influências que cita ao discorrer sobre seu ofício - Ezra Pound e Stéphane Mallarmé dividindo espaço com um quase onipresente Haroldo de Campos, de quem Trajano foi seguidor, amigo e até professor.

Até na aparência, por coincidência, a soma de clássico e moderno chama a atenção. Ao receber a reportagem do Sabático no apartamento em que vive com a mulher, a artista plástica Luciana Suzuki, em Pinheiros, ele usa um estiloso tênis azul com faixas vermelhas, em contraste com sóbria combinação de calça jeans escura e polo azul marinho de manga longa. Aos 51, Trajano parece mais jovem do que pode pensar quem conheça seu histórico - este soma uma bolsa na Fundação Guggenheim (2001), um estágio na Universidade de Chicago (2006) e outro na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris (2009-2010) -, mas ele vê isso como sintoma da renovação nos quadros de professores universitários nas últimas décadas. "Já sou um dos senhores no meio das letras clássicas", argumenta, buscando modéstia. Mas lembra de ocasião em que, convidado a uma conferência, precisou pegar táxi do aeroporto ao hotel, porque o responsável por buscá-lo desistiu depois de não encontrar nenhum senhor de mais idade.

Era bem mais novo quando a ideia de sua mais recente tradução começou a tomar forma. Ainda na graduação, conheceu Haroldo de Campos (1919-2003) numa aula de João Alexandre Barbosa e se aproximou do poeta. Guarda dessa época um exemplar de Deus e o Diabo no Fausto de Goethe (Perspectiva, 1981), que Campos dedica aos "lazeres entre o grego e o russo". Anos mais tarde, já professor na Unicamp, recebeu do concretista o convite inusitado: o veterano queria retomar com ele aulas de grego que havia abandonado no passado. De aluno a professor, o rapaz impressionou-se com a habilidade do outro para o idioma, e o que era para ser aula acabou virando supervisão da tradução feita por Campos para a Ilíada, lançada em 1999.

"Durou dez anos. A gente se encontrava toda semana e se falava todo dia. Uma vez ele me ligou quando eu saía da Unicamp. Comecei a falar em Campinas, entrei no carro, pus o celular no viva voz e seguimos falando até eu entrar em casa, em São Paulo", lembra o professor, sobre diálogos que envolviam descobertas bibliográficas e estudos sobre Homero. Ao terminar e publicar o volume, Haroldo de Campos manifestou a intenção de realizar, dessa vez em parceria com Trajano, conforme ele diz, a Odisseia, a continuação daquele texto inaugural da literatura ocidental. Isso foi poucos anos antes de Haroldo morrer, e o projeto ficou no plano das ideias.

Na década seguinte à publicação da Ilíada de Haroldo, Trajano publicou traduções de obras como Édipo Rei e Édipo Colono, de Sófocles, e As Bacantes e Medeia, de Eurípedes. "Trabalhar com Odisseia ficou na minha cabeça, nada muito programado. Sou bastante disciplinado no trabalho, mas gosto de permitir que autores clássicos "decidam" quando devem ser traduzidos. Eu me permito esses devaneios", tenta explicar.

Quando ameaçou entrar no texto, empacou. Homero - se são os autores quem decidem a hora de ser traduzidos - não queria deixá-lo trabalhar na obra. "Não sei dizer quantas vezes refiz a tradução dos 20 ou 30 primeiros versos", diz. Para a frase inicial, encontrou solução bem diferente da dos anteriores tradutores da Odisseia no Brasil, Odorico Mendes (1799-1864) e Carlos Alberto Nunes (1897-1990), que usaram para o personagem Ulisses o adjetivo "astucioso" - Trajano optou por um "multiversátil".

Para Antonio Medina Rodrigues, professor aposentado da USP, a palavra "multiversátil", e outras longas como ela ao longo da tradução, atravancaram o resultado. "Você vê que falta balancê", define. O professor Christian Werner, atuante na mesma instituição, defende a opção de Trajano como a melhor nesse caso. "É um termo altamente poético em grego. No texto homérico, esse adjetivo é usado só para dois personagens, Hermes e Odisseu (Ulisses)." Werner faz, no entanto, ressalvas ao ritmo alcançado - ele também tem tradução da obra pronta, à espera de publicação pela Cosac Naify, e optou por chamar Ulisses de "muitas-vias". O professor aposentado Francisco Achcar ainda não leu a Odisseia de Trajano, mas defende as opções em geral feitas pelo ex-colega de Unicamp. "A maioria das traduções de grego e de latim são realizadas por classicistas alheios à literatura moderna, incapazes de praticar uma linguagem literária contemporânea. Gente que conhece a língua e pronto", diz.

Comédia. Estilo diferente Trajano escolheu para a recente Lisístrata e Tesmoforiantes, de Aristófanes, que publicou pela Perspectiva. Comédias não costumavam fazer parte do repertório do tradutor. "É uma coisa estranhíssima, a paródia permanente, as intenções vocabulares, palavras de baixo calão." Expressões como "fim da picada" e "pés na bunda" (que virou "bés na punda" no dialeto de personagens espartanas) dão aspecto atual à peça do século 4 a.C., cuja investida foi um dos "devaneios" que Trajano teve enquanto estudava Medeia em Paris, dois anos atrás. Fica faltando, para o currículo do tradutor, a "permissão" do poeta clássico Píndaro. "Tento traduzir há anos, mas não consigo." Uma das primeiras paixões de Trajano no grego, o autor de Odes Triunfais segue, ele diz, intransponível.

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