Clara Carvalho estreia na direção com peça 'Os Órfãos'

O terror pode surgir quando menos se espera. Ameaçar o que parecia mais seguro e protegido. "Os Órfãos" - peça do britânico Dennis Kelly, em cartaz no Teatro Nair Bello - examina a violência que irrompe, sem aviso prévio, dentro de uma modelar casa de classe média. Primeira incursão da atriz Clara Carvalho na direção, a montagem flagra uma noite aparentemente prosaica na rotina de um casal. Estão jantando à mesa, escolhem uma canção para tocar, abrem um vinho. Aproveitam a ausência do filho pequeno, que passeia na casa da avó.

AE, Agência Estado

15 Outubro 2012 | 10h05

Todo esse idílico quadro, porém, irá ruir diante do espectador. Em meio ao jantar, o irmão da protagonista surgirá na sala com uma camisa manchada de sangue. Eis o único acontecimento da trama. A partir daí, será apenas pelo manejo das palavras que o dramaturgo conduzirá o suspense instaurado. "Existe uma violência absurda na obra, que vai sendo revelada só pela linguagem", observa a diretora. "Algo que lembra um pouco o estilo de (Harold) Pinter."

Aos 42 anos, Dennis Kelly é também roteirista de TV. Para a rede BBC, escreveu séries como "Pulling", um sitcom sobre a rotina de três amigas solteiras. No teatro, sua tônica é diferente. Ainda que seus diálogos guardem laivos de humor, o dramaturgo costuma vasculhar sem melindres temas contundentes. Em suas peças mais conhecidas, "Osama The Hero" (2005) e "Love and Money" (2006), a violência é o traço dominante, a irmanar tanto aspectos políticos quanto privados da vida contemporânea.

"Os Órfãos" foi escrita em 2009 e arrebatou as atenções do Festival de Edimburgo naquele ano. Em sua temática, a obra talvez lembre um pouco outras criações concebidas depois do 11 de Setembro. Tal qual em "Sábado", o belo romance de Ian McEwan, a peça também evidencia quão frágil e precária é a "ilha" de conforto na qual a classe média julga viver. A diferença de Kelly está na maneira de flagrar essa fragilidade: seco, duro, sem muita compaixão por seus personagens. "Ele brinca com suspensões e silêncios. Cria um texto ao mesmo tempo bruto e sofisticado", opina Clara.

Por algum tempo, a protagonista Helen (Isabella Lemos) acreditou que fosse possível resguardar a felicidade doméstica da brutalidade do mundo. Por algum tempo, mas não para sempre. Quando entra em casa ensanguentado, seu irmão Liam (Renaldo Taunay) trará consigo todo o lado negro que ela tanto se esforçou por manter à parte.

Ao encontrar um menino esfaqueado na rua, Liam teria parado para socorrê-lo. Essa é a primeira versão apresentada. História que irá se esgarçar gradativamente. Ao propor que chamem a polícia, Danny (Marcelo Pacífico), o marido de Helen, instaura o dilema moral que atravessará o espetáculo. Liam não socorreu um menino ferido. Foi ele mesmo o agressor. A vítima também não era propriamente um menino, mas um homem, pai de família, imigrante árabe. No afã de proteger o irmão, Helen enreda o marido em uma rede de chantagens. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

OS ÓRFÃOS

Teatro Nair Bello (Rua Frei Caneca, 569). Tel. (011) 3472-2414. 6ª, 21h30; sáb., 21h; dom., 19h. R$ 20/R$ 30. Até 9/12.

Mais conteúdo sobre:
teatro Os Órfãos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.