Bob Sousa/Divulgação
Bob Sousa/Divulgação

Cia. Club Noir mostra novo espetáculo inspirado em Marguerite Duras

Peça 'Amante', estrelada por Caco Ciocler, está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil

GUILHERME CONTE - O Estado de S.Paulo,

22 Maio 2012 | 03h11

Pedaços de corpos começam a ser encontrados em malas deixadas em vagões de trens, em diversos lugares da França. A investigação policial logo descobre um fato no mínimo curioso: os fragmentos faziam parte do mesmo corpo, e todos os trens partiram da mesma cidade. Só que a cabeça nunca foi encontrada.

Foi a cobertura desse crime brutal que inspirou Marguerite Duras (1914-1996) a escrever A Amante Inglesa, romance que publicou em 1967 e algum tempo depois verteria para o teatro. A peça original consistia na sucessão dos depoimentos da assassina e de seu marido. É quando descobrimos que a vítima era amante dele. Uma jovem surda-muda, colega de trabalho.

Amante, que a Cia. Club Noir estreou no sábado no Centro Cultural Banco do Brasil, foi livremente inspirada na peça de Duras. O dramaturgo e diretor Roberto Alvim conta que escreveu sob o impacto da leitura do original. "Li o texto e escrevi esta nossa versão. Depois nem voltei mais a ele, nem reli. Esta obra é o resultado do que ficou em mim daquela leitura."

A estrutura convencional e cartesiana do texto de Duras ganhou, nas mãos de Alvim, uma feição completamente nova. O espetáculo é construído por saltos no tempo e no espaço, personagens que se completam e se apropriam de frases uns dos outros, solilóquios que se entrelaçam em uma atmosfera que sugere um não lugar.

Juliana Galdino interpreta a assassina, Caco Ciocler vive o marido e Bruno Ribeiro, o investigador. As cenas prescindem de movimentos ou gestos; o rigor cênico de Alvim concentra nas palavras, e na maneira como são ditas, a potência do texto. É preciso ver e, sobretudo, ouvir, com extrema atenção. É no detalhe quase sussurrado que são erigidas, pouco a pouco, as peças desse quebra-cabeça. As cenas se sucedem como pinturas.

Alvim conta que a intenção era justamente fazer com que as lacunas dessem ao público a autonomia para que cada um construísse seus próprios sentidos. "Esta não é uma história sobre um crime. O que nos move é a investigação da própria alma humana", diz, sintetizando aí um dos faróis que norteiam a produção e a pesquisa da companhia.

Em um mundo cada vez mais marcado pela busca de explicações - as prateleiras das livrarias estão cheias de livros cuja intenção é "desvendar" os motivos de tudo, da falência de um casamento às razões do estresse no trabalho -, é na direção da essência que a Club Noir dirige seu olhar.

"O que nos interessa aqui é o inconsciente, onde mostramos quem realmente somos", afirma Alvim. A quebra da linearidade narrativa e a austera economia de movimentos leva, no limite, ao questionamento do que realmente se necessita, hoje, para contar uma história. Que sentidos são possíveis de serem construídos no mundo de hoje?

Impossível não vincular uma história como esta aos fenômenos midiáticos formados a cada crime bárbaro que, de tempos em tempos, acontece aqui ou no resto do mundo. "Reconhecemos nesses assassinos uma sombra que existe em todos nós, impulsos primários", avalia Alvim. "E, quando investimos violentamente sobre essas pessoas, na tentativa de destruí-las, são as nossas próprias sombras que temos como alvo."

Em tempos nebulosos como os que vivemos, trabalhos como o da Club Noir se fazem mais do que necessários, como alguns dos últimos bastiões de resistência. Em vez de ter a pretensão de oferecer respostas, Alvim e sua trupe têm seu valor em justamente levantar questões. Quando tentam nos vender certezas forjadas e embaladas, cabe às vozes do teatro perguntar: a verdade realmente existe?

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