Chile 672 abre a 17.ª edição do Cine Ceará

Competição começa com filme dos argentinos Pablo Bardouil e Franco Verdoia

Agencia Estado

07 Junho 2012 | 03h38

Depois de uma primeira noite tumultuada, com protestos estudantis contra a poluição de um rio e troca de rolos do filme de abertura (A Ilha da Morte, de Wolney Oliveira), o Cine Ceará deu início no sábado à sua mostra competitiva. Dois longas foram apresentados - o argentino Chile 672, de Pablo Bardouil e Franco Verdoia, e o português Body Rice, de Hugo Vieira da Silva. Filmes com qualidades e problemas, é o que se pode dizer. Chile 672 é o endereço em Buenos Aires de um edifício de classe média-baixa, microcosmo de uma Argentina ainda em crise, pouco adaptada à carência econômica das últimas décadas. Nem por isso pretende ser um filme "social", no sentido estrito. Quatro personagens estruturam o relato - uma emigrante italiana cheia de sensualidade; um motorista que mantém relação pedófila com a criança que leva à escola; uma atriz de meia-idade que deseja voltar à profissão; uma mocinha reprimida, com sérios conflitos com sua sexualidade. Esses personagens se articulam a outros. O motorista pedófilo à sua mulher, que se sente abandonada. A italiana, aos homens que a desejam e à sua própria família na Itália. E todos a uma síndica moralista, que comanda a campanha para expulsar do condomínio a estrangeira de "má vida". O filme exibe no começo tons de comédia e evolui para a tragédia, em tom de um Nelson Rodrigues portenho. É incisivo em seu recorte da mentalidade pequeno-burguesa, ao mostrar que quanto mais moralista se apresenta uma sociedade, mais carcomida parece estar de fato. Franco Verdoia, um dos diretores, disse que a intenção foi fazer um filme para o público, e, embora satírico, pretende que fale para uma platéia mais ampla. "Uma das críticas que se fazem ao cinema argentino de hoje é que se preocupa demais com a forma em detrimento da história a ser contada. Vai bem em festivais e junto à crítica mas não comove tanto o público", diz. Mais interessante do ponto de vista formal, porém mais árduo para o espectador, é o português Body Rice, trabalho que fica na fronteira entre o documental e a ficção. Fala de uma situação real - desde 1980, instituições alemãs enviam adolescentes problemáticos para um projeto de reintegração no Alentejo, ao sul de Portugal. Body Rice é um trabalho de grande elaboração visual e sonora, aparentado, talvez, para quem gosta de comparações, ao de Juventude em Marcha, de Pedro Costa. Trata-se de um cinema tátil, que procura, nem tanto relatar uma história propriamente dita, mas criar uma atmosfera. E qual? A daqueles jovens desgarrados, ocupados em raves, baladas, sexo e consumo de drogas. O local não se parece em nada a um centro de reabilitação, mas a um local de curtição. E, sobretudo, de desespero existencial. A câmera, às vezes parada sobre os personagens, outra em lentos planos-seqüência, a fotografia fria; o trabalho não apenas com a trilha sonora, mas sobretudo com os ruídos. Essa construção cria uma atmosfera sufocante, e muito envolvente, embora exigente para com o espectador. Mas é uma maneira muito original como a forma do filme enfrenta e conforma o seu conteúdo. Original e bem trabalhada. O repórter viajou a convite da organização do festival

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