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Censura como brecha para a criação

Mo Yan diz que injetar imaginação em temas difíceis é desafio para escritores

John Freeman , O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2012 | 03h13

Na entrevista a seguir, concedida em abril, durante a Feira do Livro de Londres, o escritor chinês Mo Yan fala de seu processo criativo, de censura, da presença das mulheres em seus livros e discute a China atual.

Muitos de seus romances estão ambientados em uma cidade ficcional baseada em sua cidade natal, Gaomi, de certa forma similar ao sul americano de Faulkner. O que faz com que o senhor retorne sempre a essa comunidade imaginada?

Quando comecei a escrever, o ambiente estava lá e era muito real e as histórias seguiam minha experiência pessoal. Mas com o aumento de livros meus publicados, essa experiência cotidiana foi se esgotando e precisei adicionar um pouco de imaginação ou mesmo de fantasia aqui e ali.

Parte de seu trabalho nos lembra de Günter Grass, William Faulkner e Gabriel García Márquez. Textos desses autores estavam disponíveis na China em que o senhor cresceu? Pode falar um pouco dessas influências?

Quando eu comecei a escrever, o ano era 1981, então eu não tinha lido nada de García Márquez ou Faulkner. Foi em 1984 que li pela primeira vez seus trabalhos e, sem dúvida, esses escritores tiveram enorme influência na minha criação. No fundo, minha experiência de vida era muito similar à deles, mas isso eu só descobri depois. Se eu tivesse lido eles antes, já teria escrito uma obra-prima como a deles.

Romances do início da carreira, como Sorgo Vermelho, parecem ser mais abertamente históricos, enquanto recentemente seus livros se mudaram para uma perspectiva mais contemporânea, no que diz respeito a cenários e temas. Esta foi uma escolha consciente?

Quando escrevi Sorgo Vermelho, tinha menos de 30 anos, então era muito jovem. Naquele momento, minha vida estava repleta de fatores românticos, no que diz respeito a meus ancestrais. Eu estava escrevendo sobre suas vidas, mas não conhecia muito deles, então injetava doses de imaginação naqueles personagens. Quando escrevi Cansado de Viver, Farto da Morte, já tinha 40 anos. Minha vida era diferente. A crueldade de nosso tempo limita o mundo romântico que um dia senti e vivi.

O senhor escreve frequentemente no dialeto Shandong. É frustrante perceber que algumas expressões talvez não se mantenham nas traduções para o inglês ou consegue contornar isso trabalhando ao lado de tradutores como Howard Goldblatt?

Realmente usei muitos dialetos, expressões idiomáticas e trocadilhos em meus primeiros livros porque, naquele momento, jamais imaginaria ter meus textos traduzidos para outros idiomas. Mas não consigo não usar dialetos e trocadilhos porque a linguagem idiomática é vívida, expressiva e é também parte quintessencial da linguagem particular de um escritor. Então, por um lado, posso fazer ajustes, mas, de outro, espero que meus tradutores, durante o trabalho, possam ecoar meus trocadilhos em outra língua.

Muitos de seus livros têm mulheres fortes como personagens centrais. O senhor se considera um feminista?

Antes de mais nada, admiro e respeito as mulheres. Elas são muito nobres. As experiências e dificuldades que elas são capazes de enfrentar são muito maiores do que as dos homens. Quando nos deparamos com grandes desastres, mulheres sempre são mais bravas que os homens - acho que é porque elas também são mães. A força que nasce disso é algo que não podemos imaginar. Em meus livros, tento me colocar na situação de uma mulher e interpretar este mundo a partir da perspectiva feminina. Mas a questão final é: não sou uma mulher, sou um homem. E o mundo que interpretei em meus livros, como sendo o de uma mulher, podem não ser bem recebidos pelas mulheres. E não há nada que se possa fazer. Admiro as mulheres, mas sou um homem.

Evitar a censura é uma questão de sutileza? Até que ponto os caminhos abertos pelo realismo mágico permitem a um escritor expressar suas preocupações mais profundas sem recorrer à polêmica?

Sim, com certeza. Muitas facetas da literatura têm potenciais políticos. Por exemplo, em nossa vida pode haver temas difíceis e sensíveis nos quais não gostaríamos que tocassem. Nesse momento, um escritor pode injetar a própria imaginação para isolar os temas do mundo real ou talvez exagerar situações, fazendo-as audaciosas, vívidas e com assinaturas do mundo real. Então, acredito que limitações e censuras são ótimas para a criação literária.

Seu último livro traduzido para o inglês, curtas memórias chamadas Democracia, narra o fim de uma era na China de sua experiência como criança e jovem. Há tons melancólicos na narrativa, o que para o Ocidente soa surpreendente. Acreditamos que o progresso sempre significa melhoria, mas no livro algo parece se perder. Este é um julgamento justo?

Sim, o livro que você menciona está cheio de experiências pessoais e de minha vida cotidiana, mas também apresenta algo que é imaginado. A melancolia de que você fala é de verdade bastante presente, porque o livro fala de um homem de 40 anos pensando no passado, em uma juventude que já se foi. Por exemplo, quando você era jovem provavelmente se apaixonou por alguma jovem moça que, hoje, é uma senhora casada com outro homem - e essa memória se torna triste. Nos últimos 30 anos, testemunhamos uma China passando por um progresso dramático, seja no que diz respeito à condição de vida, seja nos níveis intelectuais e espirituais de nossos cidadãos; o progresso é visível mas, obviamente, há muitas coisas com as quais não estamos satisfeitos. De fato, a China cresceu, mas o crescimento levanta muitas questões, ambientais, por exemplo, ou o declínio em padrões morais. Então, a melancolia de que você fala tem duas razões: eu percebo que minha juventude já se foi e, em segundo lugar, me preocupo com o status quo da China, em especial as coisas com as quais não estou satisfeito. / TRADUÇÃO DE JOÃO LUIZ SAMPAIO

John Freeman é editor da 'Granta' inglesa. A entrevista foi publicada originalmente no site da revista

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