Roland Schlager/EFE
Roland Schlager/EFE

Célebre no mundo, Hobsbawn era um 'maldito' na França

Dificuldades na publicação de 'A Era dos Extremos' escancararam a aversão da intelligentsia francesa ao historiador britânico, mal-amado por ter se mantido fiel ao marxismo

Andrei Netto - CORRESPONDENTE / PARIS,

01 Outubro 2012 | 13h28

O mundo perdeu nesta segunda-feira, 01, um dos maiores intelectuais de seu tempo - e quiçá de todos os tempos. Mas quem na França se informa pela grande imprensa em língua francesa correria o risco de não tomar conhecimento da notícia de seu desaparecimento. Em sua morte, Eric Hobsbawn foi tratado como em vida - como um maldito, sobre o qual pouca ou nenhuma atenção deve ser dispensada.

A história da ruptura entre a intelligentsia francesa e o pensador marxista foi escancarada ao longo dos anos 90, quando da publicação seu mais célebre livro, A Era dos Extremos. Sua grande síntese do breve século 20 foi um sucesso mundial, escrito em inglês britânico, publicado de imediato nos Estados Unidos e, a seguir, em todo o mundo - em alemão, espanhol, português, italiano, chinês, japonês, árabe, russo. Como Hobsbawn bem lembraria, seu trabalho foi reconhecido e ganhou conversão “a todas as línguas oficiais da União Europeia, salvo uma”. Ganhou ainda versões “nas línguas dos antigos Estados comunistas da Europa central e oriental”, em polonês, em tcheco, em romeno, esloveno, em albanês.

Só então, graças à iniciativa de um editor belga e do jornal Le Monde Diplomatique, da França - publicação identificada com a esquerda -, a tradução para a língua de Rousseau enfim aconteceu.

Hobsbawn não demonstrava mágoa, mas ao longo dos anos 90 questionou com tenacidade a opção dos editores franceses, grandes ou pequenos, pela não edição do livro. O historiador não engoliu as desculpas mercadológicas sem fundamento - que recebeu - o livro vendia bem em todo o mundo -, muito menos o silêncio do editor que publicara os três precedentes volumes de sua obra, todos sobre a história do século 19. As recusas o interpelavam, a ponto de ele evocar explicações em um artigo publicado em setembro de 1999 pelo Monde Diplomatique.

As respostas que encontrou foram diversas. Talvez por modéstia e por grandeza de espírito decidiu aceitar as supostas “restrições orçamentárias” evocadas pelos editores de ciências humanas. Mas cogitou ainda outras duas hipóteses: o nascimento do que chamou de “antimarxismo raivoso” entre os intelectuais franceses e a recusa da comunidade editorial de “conter essa tendência”.  

A melhor explicação para a indiferença, porém, talvez tenha sido dada - por ironia - por uma revista universitária americana. Dizia a publicação: “O apego, mesmo distante, à causa revolucionária, Eric Hobsbawn o cultiva certamente como um ponto de orgulho, uma fidelidade orgulhosa, uma reação ao tempo”. Então os autores completavam: “Mas, na França, e neste momento, é difícil de engolir”.

Até que se prove o contrário, a soberba da intelligentsia francesa - cuja decadência é por vezes tão bem lembrada mundo afora - imperou nesta segunda-feira, 01. Foi necessário que Pierre Laurent, um intelectual de esquerda, ex-editor do jornal comunista L’Humanité e atual secretário-geral do PCF, viesse a público para que uma homenagem à altura do autor, enfim, se fizesse ouvir. “Os progressistas perdem um dos seus”, lembrou Laurent. “Todos aqueles que se interessam pela história do século 20 perdem um grande espírito, um pensamento-mundo.”

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