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Casarão do Chá é restaurado após anos de abandono

Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo

31 Maio 2014 | 13h 00

Exemplar da arquitetura oriental em São Paulo, tombado pelo patrimônio histórico, ficou três décadas sem cuidados oficiais

Durante mais de 30 anos, um edifício tombado pelas três instâncias do patrimônio histórico – nacional estadual e municipal – ficou capengando numa estrada no meio do campo, em Mogi das Cruzes. O insofismável Casarão do Chá, antiga fábrica de chá preto erguida durante a Segunda Guerra Mundial, em 1942, por um carpinteiro autodidata japonês, significava um desafio duplo para os restauradores: era quase impossível achar outro mestre carpinteiro que conhecesse a técnica em que foi erguido, e os que ainda conheciam não tinham mais idade nem saúde suficiente para encarar a parada de reencaixar sua trama (sua estrutura é feita de madeira, sem uso de pregos). Tiveram de ir ao Japão atrás de um jovem profissional que dominasse a arte.

Nilton Fukuda/Estadão
Casarão do Chá é restaurado após anos de abandono

Neste dia 1.º de junho, após 16 anos de obras, o Casarão do Chá renasce totalmente restaurado, com toda sua peculiar mistura de brejeirice e ousadia construtiva, sua rara organicidade entre madeira e taipa de pilão – o que inclui até mesmo um pórtico palaciano, típico dos grandes templos japoneses. O carpinteiro que o ergueu, Kazuo Hanaoka, teve um AVC e morreu em 1950, aos 50 anos, e hoje, mesmo seus filhos guardam poucas lembranças de seus métodos de trabalho.

“Havia plantas de tudo que fazia, mas ele memorizava e destruía. Dizia que era para não ter seu trabalho copiado”, afirma Carulos Hanaoka, de 71 anos, o filho caçula do carpinteiro, hoje representante comercial. Ele diz que, na época da construção, eles moravam no campo, e o pai se ausentava durante vários dias, às vezes meses, para trabalhar em suas obras. “Muitas vezes, ele entrava no bosque, olhava uma árvore, observava seus galhos e já sabia como ia ser usado tudo aquilo na construção”, disse ainda Hanaoka.

Para muita gente, o restauro é o resultado do trabalho de uma vida profissional inteira. É o caso da arquiteta Ana Maria Sandim, da Universidade de Mogi das Cruzes, que era estudante de arquitetura e estagiária quando começou a visitá-lo para acompanhar o levantamento técnico. Isso já tem 30 anos.

Ana Maria extrapolou em muito a mera consultoria técnica. Por exemplo: o telhado do casarão, do tipo irimoya, também tinha sido destruído em 1996, quando começou o restauro. Era uma cobertura feita de telhas da Vila Suissa, mas uma telha especial, feita de uma mistura de barro e esterco. A arquiteta teve de sair pelas imediações procurando um equivalente. Encontrou a própria telha original, mas ela cobria dezenas de galinheiros dentro de uma granja da região. O granjeiro concordou em destelhar seus galinheiros, as telhas foram lavadas e agora estão de volta ao Casarão do Chá.

Quanto à estrutura, a coisa só começou a andar mesmo quando foi trazido um mestre marceneiro do Japão, Tetsuya Nakao, para trabalhar no restauro. Nakao foi a Mogi em 2006 (chegou a viver seis meses na cidade). Marceneiro na província Mie-ken, é um estudioso das técnicas tradicionais da construção da carpintaria japonesa e especialista na construção e restauração de templos budistas e xintoístas no Japão. Sua habilidade foi fundamental – no processo de restauro, descobriu-se até mesmo um novo forno no chão, que estava cimentado.

Hercília Teiko, de 78 anos, trabalhou na fábrica de chá original. Tinha 11 anos na época. Ela se lembra de buscar as folhas de chá preto no campo a pé, em uma cesta, e a colheita ia sendo anotada em um painel – o pagamento era pela quantidade de cestas colhidas. “Toda minha família trabalhou aqui. Eu vinha depois da escola, e a gente costumava brincar no local, era muito divertido”, conta.

“A comunidade japonesa é muito individualista. É muito difícil convencer o pessoal de uma ação coletiva”, diz o ceramista Akinori Nakatani. Foi ele o personagem-chave que deu vida nova ao Casarão. Tomou para si (e engajou toda sua família na empreitada) a tarefa de encontrar uma forma de devolver o prédio e sua história à comunidade. Criou a Associação Casarão do Chá, sem fins lucrativos, e encabeçou toda a luta, que incluiu reuniões com o município, Estado e União.

Nilton Fukuda/Estadão
Casarão do Chá é restaurado após anos de abandono

A família Nakatani chegou a amassar o barro que está nas paredes de taipa do novo casarão. Também foram eles que saíram pelas cidades da região convidando os expositores que farão a feirinha de artesanato que reinaugurará a preciosidade. Visitaram autoridades, jornais e patrocinadores, até que conseguiram que a empresa Gerdau concordasse em financiar a obra.

O Casarão do Chá fica num lugar que parece não pertencer a essa época. Encravado entre plantações, restos de Mata Atlântica e antigos casarios de fazendas, na via conhecida como Estrada do Nagao (a uns 10 km da cidade de Mogi das Cruzes), ele ocupa um platô ao lado de um charco, numa paisagem de raro equilíbrio. O prédio, com sua mistura de tradição e enxerto caboclo, era, até pouco tempo, a maior evidência construída do encontro cultural entre o Japão e o Brasil.

“Na circunstância atual, em que os descendentes se tornam cada vez mais brasileiros, faz-se necessário preservar esses valores culturais que poderão ser, um dia, referenciais à reflexão da sua própria identidade”, afirma também Nakatani.