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Cartunista Glauco e seu filho são assassinados em Osasco

Fabiana Marchezi e Solange Spigliatti, do estadao.com.br

12 Março 2010 | 08h 25

Segundo o advogado da família, bandidos pareciam estar drogados; testemunha reconheceu um dos suspeitos

SÃO PAULO - O cartunista Glauco Villas-Boas, de 53 anos, e seu filho, Raoni Ornellas Pires Villas-Boas, de 25 anos, morreram na madrugada desta sexta-feira, 12, após serem baleados durante uma suposta tentativa de assalto na residência do cartunista, na Estrada Portugal, no Jardim Três Montanhas, em Osasco.

 

Os dois homens que invadiram a casa estavam transtornados e aparentemente drogados, segundo informações do advogado da família Ricardo Handro. Os suspeitos estavam armados e invadiram a residência por volta da 0h30, e renderam a filha, a mulher e o cartunista. Após negociações, Glauco saiu com os bandidos e foi surpreendido por seu filho Raoni, que chegava da faculdade. Ao se deparar com seu pai, já ensanguentado por conta de uma coronhada, Raoni tentou negociar com os indivíduos, que acabaram disparando quatro tiros em cada um.

 

De acordo com o advogado, a esposa e a filha do cartunista ficaram machucadas por conta de pancadas na cabeça e no rosto e estão em estado de choque. Glauco e Raoni chegaram a ser levados para o Hospital Albert Sabin, na Lapa, na zona oeste de São Paulo.

 

A família aguarda a liberação do corpo pelo Instituto Médico-Legal (IML) de Osasco para marcar o velório e o enterro do cartunista. Segundo o advogado, a família pede que o velório seja reservado. Já o enterro será liberado.

 

Suspeitos

 

Segundo o advogado, o cunhado de Glauco testemunhou o assassinato e reconheceu um dos autores dos disparos.

 

De acordo com o boletim de ocorrência, registrado no 1ºDP de Osasco por um policial militar, três suspeitos chegaram em um Gol e fizeram os disparos contra Glauco e seu filho. A polícia está à procura de um homem, de 24 anos, reconhecido pela testemunha, segundo a Secretaria.

 

História

 

Glauco Villas-Boas, paranaense de Jandaia do Sul, começou a carreira de cartunista ainda na década de 70, meio por acaso. Na época, ele tinha se mudado para Ribeirão Preto e iria prestar vestibular para Engenharia.

 

Veja tambem:

link Site oficial do cartunista Glauco

 

No entanto, no meio do caminho acabou conhecendo o jornalista José Hamilton Ribeiro que adorou o seu trabalho e o contratou para fazer tiras no Diário da Manhã, de Ribeirão Preto. Foi o início de "Rei Magro e Dragolino", que contava as histórias do personagem Dragolino e de um rei. Eles viviam numa era hippie, cheia de loucuras.

 

Pouco depois, em 1977 e 1978, Glauco foi premiado no Salão Internacional de Humor de Piracicaba, e passou a ter algumas tiras publicadas na Folha de S. Paulo. Em 1984, quando a Folha começou a dedicar mais espaço aos cartunistas brasileiros, o paranaense foi chamado para publicar seu trabalho com mais frequência no jornal.

 

Criador de personagens como "Geraldão", "Netão", "Dona Marta", "Ficadinha" e tantos outros, Glauco aliava um humor ácido com a caricatura, herança trazida da época em que fazia desenhos de todo mundo, do professor aos amigos mais próximos. Fiel ao traço peculiar, Glauco desenhava com nanquim no papel e só usava o computador para colorir suas tiras.

 

Desde 2000, o cartunista mantinha os personagens "Ficadinha", que saía aos sábados, e "Netão", publicado às terças e quintas. Seus quadrinhos também eram republicados pelas editoras Opera Graphica e L&PM. Durante sua carreira, Glauco também fez parte da equipe de redatores dos programas TV Pirata e TV Colosso, da Rede Globo.

 

 

Los Três amigos

 

Um dos trabalhos mais marcantes do cartunista foi Los Três Amigos. Criado em 1991 por Glauco, Angeli e Laerte, a tirinha narrava as aventuras de um trio de amigos no Velho México. Os personagens eram caricaturas dos próprios autores e se chamavam Angel Villa, Laerton e Glauquito. Mais tarde, em 1994, surge um quarto amigo, inspirado no cartunista Adão Iturrusgarai.

 

Publicado pelo suplemento FolhaTeen, o trabalho nasceu de uma ideia de Angeli que, após assistir à comédia Three Amigos!, de John Landis, ele decidiu fazer uma capa comemorativa para a revista Chiclete com Banana - em que amigos estavam vestidos como mexicanos.

 

Abordando temas como drogas, sexo e violência, além de satirizar a política e a realidade social do País, os quadrinhos Los Três Amigos fizeram sucesso, pois inovaram o estilo gráfico da época. A publicação na Folha de S. Paulo durou até 5 de fevereiro de 2001.

 

Em 2009, foi lançado o curta-metragem de animação Los 3 Amigos, baseado no trabalho já criado pelos cartunistas e dirigido por Daniel Messias.

 

Santo Daime

 

Além dos quadrinhos, Glauco também tinha um lado místico. O cartunista era líder da igreja Céu de Maria, ligada ao Santo Daime, e acreditava no potencial de cura da ayahuasca - bebida feita de cipó e usada em cerimônias inspiradas em rituais praticados por índios da Floresta Amazônica.

 

Ele dizia que o daime tinha sido importante em seu trabalho de cartunista, dando-lhe disciplina no traço, e também ajudando em sua saúde.

 

Esse seu lado mais zen, no entanto, serviu de chacota para Laerte e Angeli. O último, inclusive, chegou a criar um personagem inspirado em Glauco, quando este seguia o guru indiano Rajneesh. Era o Rhalah Rikota.

 

 

 

Texto atualizado ás 16h11.