Jonas Gustavsson/The Washington Post
Jonas Gustavsson/The Washington Post

Carolina Herrera passa o comando da sua grife para Wes Gordon

Padroeira da elegância nova-iorquina, estilista venezuelana fez seu último desfile em NY

Robin Givhan, THE WASHINGTON POST

14 Fevereiro 2018 | 21h43

No salão térreo do Museu de Arte Moderna de Nova York não havia nada de especial em termos de obras de arte ou ousadias arquitetônicas. A parede de vidro, é verdade, deixava entrar as luzes resplandecentes da cidade, o que já é um espetáculo. E o suave Cole Porter que se ouvia ao fundo, entre murmúrios de admiração e o espocar de champanhe, dava à tarde de segunda, 12, um glamour atemporal.

+++ Estilista Carolina Herrera deixa direção criativa de sua marca

Era o final do desfile da coleção de outono de 2018 de Carolina Herrera. Garçons deslizavam entre o público com bandejas de prata. Quando todas as modelos terminaram de desfilar e os aplausos cessaram, era hora de brindar a um fim e a um começo. Após mais de 30 anos, Carolina Herrera estava se afastando da produção para assumir o papel de embaixatriz de sua grife. O comando passava para o estilista Wes Gordon.

+++ NYFW: Duas grandes grifes anunciam a saída de seus diretores criativos

Gordon cresceu em Atlanta e foi estagiário de Oscar de la Renta e Tom Ford antes de lançar a própria grife, marcada por uma sensibilidade romântica e feminina. Ele não é um designer hipster. É mais alguém que tateou no formalismo comportado da moderna alta sociedade do sul. No ano passado, afastou-se de sua etiqueta para assessorar Carolina Herrera. A derradeira coleção sob o comando de Herrera foi principalmente uma homenagem a um discreto glamour que, embora ainda admirado, tem andado em falta. 

+++ Carolina Herrera lança livro para celebrar os 35 anos de carreira

O desfile começou com uma revoada das blusas brancas e saias negras características de Herrera, seguida de vestidos de seda turquesa, laranja, rosa. Mas, como a grife é mais conhecida por seus vestidos de coquetel e de noite, a coleção estava cheia de criações etéreas nas cores rosa e cinza, camadas de tule e corpetes brancos bordados e até um smoking, muito brilhante, fúcsia e vermelho. 

+++ Após rejeição de colegas, Carolina Herrera diz que aceita vestir primeira-dama dos EUA

Herrera sempre primou pelos vestidos de noite sensuais e elegantes, sem ceder a decotes exagerados ou a transparências que nada deixam à imaginação. “Alguns estilistas acham que o nu ou o quase nu é algo muito moderno e acreditam que com vestidos assim vão conquistar o público jovem”, afirmou Herrera em entrevista ao Washington Post em 2015. “Na vida, porém, é preciso um pouco de mistério.”

Herrera lamenta a tendência de algumas celebridades a usar trajes excessivamente provocativos para chamar a atenção. “São supostos ícones da moda, mas estão longe dela”, garantiu. “Isso se tornou uma obsessão.”

Assim, quando ela propõe um vestido negro bordado com graciosos desenhos de garças, está segura de que a mulher que o usar estará vestida com bom gosto. O vestido apenas sugere o que existe nas sombras da elegância. Seu tule não é transparente, é em camadas. Seus vestidos sem alça são bem assentados no torso.

A finale incluiu um grupo de modelos com saias brancas bem definidas e longas blusas coloridas seguras por um cinto largo. É um traje de soirée típico de Herrera. Dizer que a estilista vai se tornar uma embaixatriz da grife é descrever um pouco o que ela sempre foi. A marca reflete sua sensibilidade pessoal, o estilo de uma mulher nascida na riqueza na Venezuela e casada na nobreza espanhola. Herrera tem a postura de uma dançarina, um estilo que afasta banalidades e um raciocínio agudo e irreverente que atinge o interlocutor como um raio.

Suas roupas exalam sofisticação e riqueza. Elas atraem uma variedade de clientes que vão de Renee Zellweger a Michelle Obama (que usou um vestido de noite da grife em um jantar oficial em homenagem à França) e Laura Bush, que escolheu um traje Herrera para uma das festas de comemoração da posse do marido em 2005.

Depois que a última modelo desfilou, sob os acordes de I’ll Be Seeing You, Herrera apareceu para ser aplaudida de pé, numa ovação interminável. Sua equipe de produção juntou-se a ela usando aventais brancos de trabalho. Herrera vestia uma charmosa blusa branca e calças negras.

Wes Gordon saudou-a com reverência e ofereceu-lhe um enorme buquê de rosas vermelhas. A plateia aplaudiu com mais entusiasmo ainda. Câmeras de celulares ilumiraram o salão. As luzes de Manhattan cintilaram a distância.

A sensibilidade de designer de Herrera evoca uma Manhattan de longos e alegres almoços, de coquetéis congregando bon vivants e de jantares formais. De certo modo, essa versão da cidade sempre carregou um pouco de fantasia, ou, no mínimo uma verdade peculiar. Mas Carolina Herrera conseguiu convencer os nova-iorquinos de que tal cidade não apenas era real, mas pertencia a

eles./TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Mais conteúdo sobre:
Carolina Herrera

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.