Carnaval europeu

Meia de lã, calça de veludo, blusa térmica, malha de cashmere, casacão impermeável...

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2018 | 03h30

Os jornais assombravam a jovem com os alertas acerca da onda de frio que se aproximava do velho continente. Ela tentava se habituar aos intermináveis meses de inverno, mas, no fundo, sabia que nunca lidaria bem com aquilo. Notícias avisavam que naquela sexta-feira as estações de metrô permaneceriam abertas durante a madrugada para abrigar os moradores de rua, em virtude da violenta queda dos ponteiros dos termômetros. 

Ironia do destino, aquela era a sua tão amada sexta-feira de carnaval. Logo ela! Logo ela que sempre gostou tanto do som da bateria, do cheiro de cerveja pelas ruas, dos desfiles das escolas no sambódromo, dos blocos e de toda aquela bagunça. Ela, que se vangloriava de continuar se fantasiando todo ano, mesmo depois de adulta... Ela, ali, naquele cenário tão pouco carnavalesco.

Acordou no fatídico dia com ainda mais medo do frio. Tinha ligado todos os aquecedores da casa, confirmado a vedação de todas as janelas e deixado o roupão de flanela bem ao lado da cama para não correr nenhum tipo de risco. Levantou-se, calçou as pantufas e foi olhar para a janela. Estava sol, o que aprendeu que era um sinal de que o frio estava mesmo cortante. Nunca entendeu bem como pode fazer mais frio nos dias de sol no que nos chuvosos, mas já tinha entendido que era assim mesmo.

Encostou a mão magra no vidro da janela e, ao senti-lo tão gelado, cogitou trabalhar em casa para não ter que encarar o vento na rua. A furadeira da obra no andar de cima trouxe logo o recado de que aquela não era uma opção viável. Então entrou no banho quente e, na sequência deu início ao longo processo de agasalhamento de uma pessoa cujo termostato interno será eternamente tropical.

Enfiou-se dentro de uma meia-calça de lã que subia pela barriga até chegar mais alto do que o umbigo. Por cima da meia-calça, colocou a calça grossa de veludo canelado que comprou nas promoções de inverno no ano anterior, que não era lá muito bonita, mas que parecia ser mesmo quentinha. Já era um bom começo.

Vestiu sua blusa de manga comprida térmica – que não funcionava muito bem, mas que ela jurava ter um excelente efeito psicológico – e por cima colocou a bela malha de cashmere que ganhou da sogra no Natal. Não teve dúvidas acerca da necessidade de acrescentar uma segunda malha por cima e o cachecol de lã roxo, feito pela avó, ao redor do pescoço.

Procurou no armário o seu agasalho impermeável grosso, que ia até o joelho e tinha um capuz rodeado de pele falsa. Deixou-o pendurado junto à porta de saída. Escolheu sua melhor bota e, dentro dela, colocou uma maravilhosa palmilha de pelo de ovelha que descobriu ser uma grande aliada no inverno. Mas antes de calçar as botas, julgou pertinente colocar mais um par de meias de lã nos pés, sobre a meia-calça que já lá estava. Colocou uma faixa nos cabelos para proteger as orelhas.

Lembrou-se do gorro cor de café com leite que estava no armário, bem como das luvas cor de caramelo que harmonizavam tão bem com ele. Colocou-os na bolsa. Percebeu que já havia esgotado todos os seus recursos de amenização do pânico invernal. Encarou a porta de saída, desligou os aquecedores e foi.

Ela era: meia-calça, meia de lã, calça de veludo, blusa térmica, malha de cashmere, malha de lã, casacão impermeável, cachecol, faixa, gorro, luva, palmilhas de pelo de ovelha, botas forradas. E os europeus na rua eram: calça jeans, tênis, casaco e, esporadicamente, um cachecol.

Percebeu que aquele seu modelito era um tanto quanto parecido com uma fantasia de esquimó com gripe agasalhado pela mãe superprotetora. Reparou que despertava nos europeus aquele olhar surpreso e curioso que ela julgou que apenas a ala das baianas fosse capaz de provocar. Pensou melhor e concluiu que seu carnaval, no fundo, não estava assim tão mal.

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