Benoit Tessier/Reuters
Benoit Tessier/Reuters

Carl Barât se apresenta em São Paulo

Músico líder da banda inglesa The Libertines faz show único no Beco, localizado na Rua Augusta

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2012 | 03h09

Em 2003, uma nova banda de rock britânica (de novo) conquistava o mundo com um som garageiro, sujo, versos de furiosa emergência e dois frontmen belos e terríveis: Carl Barât (guitarra e vocais) e Pete Doherty (guitarra e vocais). A amizade entre os dois terminou em barraco. Pete Doherty (que o mundo veio a conhecer depois em inúmeras passagens por tribunais ingleses e pelo amor bandido com a top model Kate Moss) chegou a ser preso por furtar objetos do apartamento do parceiro para vender e comprar drogas.

Juntos, eles pareciam indestrutíveis. Mas a vida tanto junta quanto separa, e o esfarrapado Doherty recomeçou a vida no grupo Babyshambles. Carl Barât, após se arriscar num grupo batizado como Dirty Little Things ("Nós também nos separamos. Diferenças demais. Como Marlene Dietrich, eu quero ficar sozinho", afirmou), está na estrada com um show solo. Que desembarca amanhã à noite em São Paulo, no Beco 203 (Rua Augusta, 609, Consolação, tel. 2339-0351, R$ 80).

Threepenny memoir, The Lives of a Libertine, as memórias precoces de Barât, lançadas em 2011, contam histórias divertidas sobre essa sua aventura libertina. Já no começo do livro, Barât lembra que, quando estavam no auge do sucesso, The Libertines foram à festa dos NME Awards, em Londres. Nos bastidores, deram de cara com Madonna, que sorriu e disse: "Hey, The Strokes!"

Madonna estava correta: The Libertines só fez sentido para um mundo muito restrito de viciados em rock'n'roll. "The Libertines pulverizou minhas inseguranças, fez com que eu me sentisse como se fosse o Rei do Mundo, realizou meus sonhos e turbinou minhas esperanças", conta Barât.

Em entrevista ao Estado, já num hotel em São Paulo, ontem, Barât afirmou trazer "grandes lembranças" do Brasil, "lembranças de verde e amarelo, caras fechadas, pinga e Brahma e de tocar guitarra na rua uma noite". Diz que todas as histórias contadas em sua biografia são verdadeiras, e que ainda há muitas outras inéditas.

Em 2003, antes de um show, Pete Doherty estava muito pilhado (seu estado quase natural) e disse a Barât que pressentia que algo ia acontecer naquela noite. "Era como sua namorada dizendo que queria ter um papo sério com você certa noite; você sabia que algo bom não podia ser", lembrou.

Carl Ashley Raphael Barât nasceu em 6 de junho de 1978 em Basingstoke, na Inglaterra, descendente de franceses, russos e poloneses. Também é ator. Na infância, viveu em Whitchurch, Hampshire, até que seus pais se separaram. Passou a viver entre a rotina de um (o pai trabalhava numa fábrica de armamentos) e outro (a mãe era egressa da contracultura, e integrava grupos pacifistas, como a Campanha pelo Desarmamento Nuclear).

"Cresci em torno da música e era muito aberto a todos os tipos de estilos. Ouvi Django Reinhardt como adolescente e também outras coisinhas. É bom estar de volta a essas coisas e a esses estilos na composição", disse. Ele viveu tempos numa comunidade em que a mãe vivia, em Somerset. Tem uma irmã, Lucie Barât, que atuou no filme Troy, de 2004, e atualmente é cantora na banda The Fay Wrays.

"Depois de viver um bom tempo em Whitchurch, fui estudar teatro em Londres, na Brunel University", lembra Barât. Ele conheceu primeiro a irmã de Doherty, Amy-Jo Doherty. "Minha cabeça estava morando em Oxford nos anos 1930, como se vivesse num romance de Evelyn Waugh."

Foi quando conheceu o aspirante a poeta Pete Doherty, que amava Smiths e Morrissey e não tocava guitarra muito bem, sem sua própria definição. Barât, por sua vez, tocava piano terrivelmente em troca de algumas Guinness, e ambos se juntaram para sessões de poesia musicada num lugar chamado Foundry, na Old Street.

"Toco bateria numa banda, mas não sou um cientista do rock. Não suporto essa coisa cool de rock stars, de poses e caras. Nós fazemos música e cada um respeita a individualidade do outro. Trabalhamos duro, mas temos prazer em viver", disse certa vez o baterista dos Libertines, Gary Powell.

Os Libertines chegaram a fazer uma reunião no verão passado, em Londres. Sobre um provável retorno do grupo, sempre muito especulado, Barât diz apenas: "Foi o último show de um futuro visível. O fechamento derradeiro do primeiro capítulo dos Libertines. Talvez haja um outro capítulo esperando para ser visto". Não é muito animador, mas Pete Doherty foi bem mais conclusivo. Doherty convidou Barât para sua exposição de pinturas em Camden, Londres, e já acertaram composições novas.

"Ele levou embora algumas das minhas coisas para colocar uns riffs em cima daquilo", explicou Doherty ao NME. "Ele disse que tivera algumas ideias, mas tava ruim de letras. Então eu dei a ele meu diário." O resultado pode ser algumas canções novíssimas em breve.

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