Câncer, formicida e leite condensado

À sentença shakespeariana que o mundo é palco e todos somos atores, pode-se acrescentar que os papéis recebidos e escolhidos, comprados ou obtidos por mérito ou eleições, devem ser honrados. No julgamento do mensalão, eu pensava assistir a um ...E o Vento Levou, mas estou testemunhando uma narrativa de Machado de Assis. O mesmo sentimento cerca as eleições, cujo resultado vai ser formicida para uns e leite condensado para outros. Mas eu não tenho dúvida de que estamos vivendo um momento de consolidação da igualdade. Há uma virada em curso.

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2012 | 03h16

-II-

Ele pensava nisso quando se descobriu com um câncer no pulmão. A doença, explicou o médico, atingira o pulmão direito e também o esquerdo simultânea e fulminantemente. A gravidade do caso veio na forma de uma daquelas palavras de raiz grega incompreensíveis e deu um estranho toque de normalidade para o anormal. Os pulmões iam tergiversar, pedir vistas e, em 90 dias!, parar. Como é que o meu corpo, este corpo fiel que eu tanto amei, vira-se contra mim? Em 20 minutos e 500 reais, passei de monstro saudável a doente com três meses de vida. E o pior é que, fora uma tossinha boba, nada sentia. Mais ainda: o leite condensado com o qual sua saudosa mãe resolvia todos os problemas não funcionava. Leite condensado parava choro, mas não curava câncer. Calculou e viu que ele jamais saberia o desfecho do mensalão e da eleição.

Saiu do consultório focado na morte prevista. Esse oposto da vida. A vida termina, é claro, mas não se sabe quando. Era bizarro viver sabendo a data da morte. De agora em diante, a última vez seria companheira. Até o cafezinho ou um humilde aperto de mão poderia ser um grande gesto. Diante da vida em processo de liquidação, chorou com pena de si mesmo. Mas tramou uma vingança - um golpe para golpear a vida que o havia traído.

Fez um enorme empréstimo consignado que o governo facultava aos professores das escolas federais. Sendo professor e celibatário, tinha um belo cadastro. Um burocrático gerente fez-lhe um aporte de 2 milhões de reais a serem pagos, como disse sorrindo, "a perder de vista..." Jamais serei julgado ou condenado, ria ele pela primeira vez depois do diagnóstico.

- III -

Vamos encontrá-lo agora numa viagem por três cidades do exterior, onde passeia como um vagabundo, morando nos melhores hotéis e comendo nos restaurantes mais caros. Oxford (onde havia sido um estudante pobre), Londres (onde raramente se distraía entre suas pesquisas sobre a antiestrutura das ordens estruturais) e Paris, onde entretinha longas conversas com um colega famoso, cuja condescendência ele tomava por cordialidade. A visita a esses lugares como um homem rico, datado pela morte, trazia-lhe de volta um passado envolto em estudo e no tempo que gastara para, mesquinhamente, demolir o trabalho dos seus colegas mais estabelecidos. Movia-o mais a inveja do que o avanço científico, constatou bebericando com indiferença uma taça do melhor champanhe. E nos jantares com os velhos professores e ex-colegas, percebeu como as mais sólidas teorias se desfaziam não apenas no ar, mas na perspectiva da morte pré-julgada.

Numa visita ao Instituto onde havia obtido o diploma, encontra uma ex-colega. Saem para um almoço planejado para ser frugal, mas que se transformou num tórrido banquete carnal e espiritual. Seguiram para um cruzeiro no qual faziam amor e discutiam os problemas mais sérios do seu próprio trabalho: as antiestruturas que, vistas de longe, se transformam em estruturas; e, em seguida, em processos. E os processos que, vistos de perto, gravitavam em torno de duras e, às vezes, turgescentes estruturas, retomando o ponto inicial.

No balanço do navio e da gangorra do amor, a doença era esquecida e o julgamento da morte dava lugar à vida que, imprevisível, retornava. Os sintomas mais graves jamais surgiram. Foram-se os três meses e ele estava mais forte do que nunca.

Recebi notícias dele nesses dias. Está excitado (falar na eleição) com o julgamento do mensalão que acompanha religiosamente. Mas não sabe como vai dar conta da dívida. Estou dividido pelo amor e pela dívida, diz inseguro. Agora, era a morte quem lhe deva uma rasteira. Sofria a angústia da normalidade dos que não sabem quando vão morrer e têm dívidas incomensuráveis com bancos, com pessoas, com rotinas e com o mundo.

Atormentado, comprou uma lata de leite condensado (que, como dizia sua mãe, resolvia tudo no Brasil) e um pote de formicida (que também faz o mesmo). Em casa, pôs lado a lado o doce e o veneno.

- IV -

Nesse exato momento toca o telefone despertando-me da história. Era um jornalista solicitando uma entrevista. Coisa simples, professor: estamos fazendo uma matéria isenta sobre o mensalão e queremos saber a sua opinião antropológica sobre a propensão brasileira para o roubo público. Marquei a entrevista para o fim do dia. Afinal, nada mais ordinário do que responder a essas questões triviais que os jornalistas fazem o tempo todo.

Tentei retomar o meu personagem dividido entre o leite condensado e a formicida, mas havia perdido o contato mediúnico. E, sem ele, o herói simplesmente se desvaneceu da minha mente. De modo que não tenho como terminar a crônica.

Sugestões são mais do que bem-vindas, pois se minha mediunidade literária foi subitamente suspensa, rogo a Deus, e à realidade, que ela não tenha acabado.

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