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Caça às bruxas

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Sérgio Augusto

A morte de Jacques Rivette, em 29 de janeiro, aos 87 anos, me pegou no meio de uma releitura das cartas de Dalton Trumbo, o bravo e esplêndido roteirista que a má consciência de Hollywood, felizmente, não se cansa de reverenciar. A mais nova celebração, o filme Trumbo - Lista Negra, fiel retrato da perseguição que lhe moveu o macarthismo entre 1942 e 1962, estreou entre nós justo na véspera da morte do cineasta francês. Meu coração balançou: seguir com as cartas ou reler as críticas de Rivette nos Cahiers du Cinéma e rever seus filmes, para eventualmente dedicar-lhe esta coluna? 

Minha edição em pocket da correspondência de Trumbo, Additional Dialogue (Diálogo Adicional), com letras miúdas, 44 anos de manuseio e já sem a capa original, não convida à leitura, mas o livro é um dos documentos mais fascinantes sobre a caça às bruxas a partir do final dos anos 1940, que foi quando teve início em Hollywood o que Lillian Hellman, uma de suas vítimas, batizou de “scoundrel time”, a temporada dos canalhas. Saiu quase integralmente de suas páginas o roteiro de Trumbo - Lista Negra. 

Na primeira brecha que abri para Rivette, revendo no YouTube seu primeiro longa, Paris Nous Appartient (1961), acabei de volta às bruxas. Um dos principais personagens do filme chama-se Philip Kaufman e é um roteirista americano que se exila em Paris após cair na lista negra de Hollywood. 

Teria sido Rivette o primeiro cineasta a abordar o macarthismo num filme de ficção? Não me lembro de outro. Rivette, o assumido Saint-Just do núcleo duro da Nouvelle Vague, foi mesmo um pioneiro. 

Aliás, dos líderes daquela revolução cinematográfica, só Godard continua vivo - e ainda filmando, aos 85. Truffaut, não Godard, foi o Robespierre da turma. Até Rivette pensava assim. Para ele, Godard foi um sucedâneo de Camille Desmoulins, o exaltado jacobino, cupincha de Robespierre até que a radicalização política os separou, como um dia, aliás, separaria Godard e Truffaut. 

Digressiono. Mas como hoje é carnaval e tudo é permitido, vamos logo à segunda digressão.

Numa solitária noite de novembro de 1976, entro num cinema de Honolulu para assistir a The Front, e às cenas tantas sou tomado por um delírio borgesiano. A trama do filme, aqui lançado como Testa de Ferro Por Acaso, recria em clave tragicômica o modus operandi utilizado por Trumbo e outros roteiristas para driblar a lista negra e não morrer de fome, com Woody Allen no papel de um “laranja” (ou front) de escritores banidos de Hollywood. O delírio se deu no momento em que um astro cômico de televisão interpretado por Zero Mostel, posto no olho da rua por não colaborar com o Comitê de Investigações sobre Atividades Antiamericanas (Huac, na sigla em inglês), atira-se de uma janela do hotel Plaza de Nova York. 

O suicídio é visualizado elipticamente. O filme não mostra o comediante despencando e muito menos se estatelando na calçada da 5.ª Avenida. Só eu vi isto - na minha imaginação, claro: Mostel despencando e se estatelando a poucos metros de Katie Norosky, a militante política encarnada por Barbra Streisand em Nosso Amor de Ontem (The Way We Were). Pelos meus cálculos, Katie distribuía panfletos contra a caça às bruxas diante do Plaza na mesma época, 1953, em que Hecky Brown (este o nome do personagem de Mostel) se jogou lá de cima. Podiam ter-se encontrado, pois não? Antes de sequer conhecer Borges de nome, eu já sofria dessa tendência a misturar ou acoplar situações de diferentes filmes que me pareçam similares e contíguas. Rende um bom jogo de salão para cinéfilos dotados de boa memória. 

Pelo menos 12 vítimas do macarthismo não resistiram às pressões e se suicidaram. Uma delas, o ator Philip Loeb, serviu de modelo para o personagem de Mostel. Cinco outras figuras do show business morreram de enfarte na fase de depoimentos ao Comitê, entre as quais o ator John Garfield. 

Por falar em Mostel, seu depoimento foi um pequeno show de histrionismo. “Para qual estúdio o senhor trabalha?”, perguntou-lhe um inquisidor. Mostel: “18th Century Fox”. E, antes que a bancada do Comitê se recuperasse do espanto, acrescentou: “Vá lá, 19th Century Fox”. Ao ser dispensado, o ator, com aquela cara cínica que Jeová lhe deu, agradeceu o Comitê por tê-lo trazido de volta à notoriedade e, em especial, à televisão, de onde fora afastado havia cinco anos, por motivos políticos. 

Foi uma grande sacada fazer de Young At Heart a canção-tema de Testa de Ferro Por Acaso. Sua primeira estrofe dá a chave do filme: “Fairy tales can come true...” (Contos de fada podem acontecer de verdade). Um investigado pelo Comitê não só recusar-se a dar com a língua nos dentes, mas também mandar seus integrantes tomarem naquele lugar, como faz o “laranja” interpretado por Woody Allen, só mesmo num conto de fadas. Em 1953, o macarthismo exercia sua usurpada autoridade a pleno vapor. 

Na vida real, apenas um depoente, que eu saiba, ousou xingar o Comitê. Mas, àquela altura, 1968, os caçadores de bruxas já não falavam tão grosso - e a estudantada agitava nas ruas. Chamava-se Tom Hayden o autor da proeza. Agitador estudantil e ativista político, mais tarde marido de Jane Fonda e senador, Hayden aprontara uma tremenda arruaça na convenção do Partido Democrata, em Chicago, e acabou preso como subversivo. Convidado a depor, reagiu com um altissonante “shit!” (merda) ao comentário de um dos torquemadas à sua frente. Melhor ainda foi a resposta que deu sobre sua “intenção de destruir o atual sistema democrático americano”. Com a calma dos que sabem ter a razão do seu lado, replicou: “Não acredito no atual sistema democrático americano. Vocês o destruíram com comitês como este”.

Muita gente boa e com as costas largas arrepiou carreira, arriou as calças ou fingiu-se de morta para não enfrentar aquele dragão da maldade, afinal desmoralizado, quem diria, por um produtor de filmes B (Frank King), o cineasta Otto Preminger e o ator Kirk Douglas. Em janeiro de 1957, Trumbo enviou uma carta veemente sobre os danos causados pela caça às bruxas e a necessidade de que intelectuais de peso e com alguma ligação com o cinema aderissem à luta contra o macarthismo. Enviou uma cópia a Hemingway, Faulkner, John Steinbeck, William Saroyan, Thornton Wilder e Tennessee Williams. Nenhum deles lhe respondeu.

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