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Bye, bye, ‘Downton’

O prazer culpado de se refugiar num passado que sirva de amortecedor para o presente

Lúcia Guimarães

- Atualizado:11 Janeiro 2016 | 02h 00

“Quem ainda pode ter um submordomo?”, pergunta, consternado, Lord Grantham?

“Quem, de fato”, responde o mordomo Mr. Carson.

O diálogo no episódio de abertura da sexta e última temporada de Downton Abbey, que está no ano de 1925, ilustra o dilema do protagonista cuja nobreza de intenções, seu criador não deixa dúvidas, sobrevive à decadência da nobreza de títulos. Durante seis temporadas, Downton Abbey foi exibida primeiro na Grã-Bretanha e resistiu às revelações instantâneas da trama na rede social, mantendo alto índice audiência nos Estados Unidos, onde a temporada final estreou no dia 3 de janeiro.

A Inglaterra já exportou dramas de época, mas nada se compara ao fenômeno de Downton Abbey, que chegou a ter uma audiência mundial de 120 milhões e foi exibida em mais de 200 países e regiões. A estreia norte-americana foi precedida de uma blitz publicitária digna de Guerra nas Estrelas. O príncipe Andrew gravou mensagem exaltando a série, num vídeo promocional que contava, entre outros, com Anthony Hopkins e o rapper Sean Combs. Sabe-se que Michelle Obama pediu sessão privada de episódios inéditos na Casa Branca.

É difícil estabelecer a importância do empurrão norte-americano para consagrar Downton Abbey, mas a PBS, a rede pública aqui, já está sentindo saudades do empurrão financeiro que recebeu com a estreia, em 2010. Estava em curso a recessão pós-crash de 2008, quando as instituições culturais sem fins lucrativos passavam o chapéu e cancelavam produções. Forte em documentários, jornalismo de profundidade, séries sobre a natureza e artes, a PBS não tinha grande sucesso na área de dramaturgia. E veio o furacão do telenovelão Downton com a fórmula upstairs, downstairs – a vida da nobreza do campo que mora em cima e seus criados no subsolo.

A população de mordomos na Inglaterra, que não passava de algumas centenas há uma década, explodiu para dez mil em 2014. E uma conhecida escola londrina de formação de Mr. Carsons mal dá conta de atender pedidos da safra do dinheiro novo, oligarcas russos, árabes e capitalistas chineses. Não surpreende que os chineses preferem seus mordomos com aparência britânica.

Muito se indagou sobre o motivo do sucesso de Downton Abbey entre públicos tão diversos. Uma grande recessão provoca nostalgia. As mudanças sísmicas trazidas pela globalização e o desaparecimento de empregos como resultado de novas tecnologias trouxeram enorme ansiedade e confusão sobre hierarquias. Em Downton Abbey, todo personagem tem um papel e um lugar bem definidos na sociedade. E a trama é rica em dilemas sobre a dor da mudança e as incertezas, no caso do período eduardiano, trazidas pela guerra, doenças e urbanização. Donald Trump dominou o ano político nos Estados Unidos, mentindo para aplacar a nostalgia. Seu slogan é “Vamos fazer a América voltar a ser grande.”

O sucesso de Downton Abbey na Inglaterra fez contraponto com críticas a seu criador Julian Fellowes. Ele é um membro conservador do Parlamento e entusiasta da monarquia. Sua mulher, Emma, foi vítima do mesmo impedimento de linha sucessória que abriu a trama da série: o tio de Emma, o último Conde de Kitchener, morreu sem filhos em 2011, e, por ser mulher, ela não pôde herdar o título de nobreza. Fellowes disse, numa entrevista ao jornal Guardian, que Downton Abbey tem uma decência característica da alma britânica representada pela monarquia. O que pode ajudar a explicar o encanto pela série entre os plebeus liberais norte-americanos. Em Downton Abbey, os desafios ao sistema de classe são provas de caráter e tenacidade que a aristocracia deve vencer para mostrar seu valor e proteger os que vivem no subsolo.

Mas o roteiro afiado, o elenco estupendo, a beleza dos cenários e figurinos parecem ter blindado a série da polarização típica de bate-bocas na mídia digital. Quem não sente o prazer culpado de se refugiar num passado que sirva de amortecedor para o presente?

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