Budismo e trumpismo

Para qualquer lado que olhamos há um retrocesso em curso ou planejado

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2017 | 02h00

Passei 30 minutos de olhos fechados num quarto escurecido antes de escrever esta coluna. Mas não adiantou. Como se sabe, os benefícios da meditação não são sentidos em uma primeira vez. Quero testar a tese do novo livro do escritor americano Robert Wright sobre o poder da meditação. Em Por que o Budismo é Verdade: A Ciência e Filosofia da Meditação e Iluminação, Wright endossa o budismo não como religião, mas como uma forma de filosofia e psicoterapia. Ele acredita que ensinamentos milenares do budismo estão sendo confirmados pela psicologia evolucionária. Como agnóstica e alérgica a psicobaboseiras, como alguém que fica estressada ao ouvir música New Age, resisti inicialmente aos argumentos de Wright. Devo esclarecer, ele é um autor respeitado e não um vendedor de biotônico.

Mas tenho que admitir, como a maioria dos que vivem neste país, estou mentalmente esgotada. Do momento em que a obra no edifício próximo me acorda, seis vezes por semana, até minha decisão de desligar um canal a cabo de notícias, no fim da noite, os dias consistem em sobressaltos. E não falo só da dieta diária de notícias estarrecedoras como os detalhes que levaram ao indiciamento do ex-assessor de Segurança Nacional, Michael Flynn, na sexta-feira, ou o temor de uma guerra iniciada por um tuíte. Falo do desmonte sistemático do país onde pisei pela primeira vez ainda adolescente e muito do que se passa é pouco noticiado no exterior. Para qualquer lado que olhamos há um retrocesso em curso ou planejado: perda iminente de acesso de milhões ao seguro saúde; autorização para igrejas injetarem dinheiro em campanhas políticas; sabotagem do arranjo fiscal responsável pela educação pública que ajudou a tornar os EUA a potência dominante do pós-guerra. A lista é longa e, graças à neurociência, sabemos que o cérebro tem uma capacidade limitada de processar múltiplas fontes de ultraje. Aliás, uma expressão corrente em artigos sobre a psique americana em 2017 é “fadiga de indignação”.

De volta a Robert Wright: ele tem argumentado que a reação ao presidente se torna improdutiva e, movida a altas doses de raiva, alimenta sua base, os 26% da população que votaram no homem que fez do ressentimento sua bandeira. A reação a algo que merece atenção urgente, como a perda do seguro saúde, multiplicada exponencialmente pela rede social, se torna indignação recreativa. É a raiva como a junk food do cérebro.

Aí entra o budismo agnóstico sugerido pelo autor. Ele acredita que a meditação com mindfulness, este termo tão em voga, é uma prática para examinar os motivos de nossos sentimentos extremos numa era de extremismo. Ele lembra que tanto o budismo, há dois mil anos, quanto a psicologia evolucionária estabeleceram que nossa visão da realidade é distorcida. Distorções de percepção foram fatores na continuação de espécies. O problema da raiva, escreve Wright, é que ela tinha uma função evolucionária diferente quando o homem estava caçando e vivendo em cavernas. A raiva hoje não tem mais a mesma função de sobrevivência, é uma expressão social de punição, uma descarga de baixo valor nutritivo. Se você xinga o motorista que lhe deu uma fechada, seu grupo social não vai ficar sabendo e seu status não muda.

Nunca vi tantos grupos sentindo medo como este ano. Sejam os 800 mil imigrantes que chegaram aqui crianças e podem ser deportados, sejam os muçulmanos e judeus cujas mesquitas e sinagogas são alvos de crimes de ódio, sejam os jovens negros assustados com a negação de violência policial pelo novo governo, há uma onda de ansiedade nacional. Não sei se vou ter sucesso seguindo a sugestão de Wright para meditar. Mas acredito nele quando diz, “uma mente em paz pode ser uma mente temível.”

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