Brasil expõe sua arte na 11.ª Quadrienal de Praga

Nelson Rodrigues e Niemeyer serão no evento que reúne criadores de 52 países

Agencia Estado

14 Junho 2007 | 17h58

Imagine o que será para espectadores do Leste Europeu ver e ouvir a comédia As Aves, do grego Aristófanes, numa versão teatral cuja trama foi transformada em samba-enredo e será apresentada no sambódromo do Rio. Bem, o que eles vão ver, na 11.ª Quadrienal de Praga - a mais importante mostra de cenografia e arquitetura cênica que começa nesta quinta na capital da República Checa - será uma maquete mecânica em movimento, pela qual vão desfilar os carros alegóricos que ‘contam e cantam’ As Aves. A história criada pelo dramaturgo grego narra a tentativa de construção de uma cidade ideal, sem corrupção. A cenografia carnavalesca de As Aves, produzida por alunos do Espaço Cenográfico, criado por J.C. Serroni, será apresentada na seção Scenofest, criada ano passado, quando escolas cenográficas de 42 países mostraram suas versões de cenário para montagens de Rei Lear. "Foi muito interessante aquela diversidade de visões de jovens estudantes das mais diferentes parte do mundo sobre uma mesma peça", lembra Serroni. Diante do sucesso, a Scenofest terá uma nova edição este ano, desta vez com cenografias para a comédia grega, da qual participa o Brasil, e não só com a criação dos estudantes do Espaço Cenográfico, mas também de outras escolas, como a Unirio. Criada sob inspiração da Bienal de São Paulo há 40 anos, a Quadrienal de Praga vai reunir 52 países nesta sua 11ª edição que só termina no dia 24. Com curadoria do ator Antonio Grassi, ex-presidente da Funarte, o Brasil promete forte presença, mais uma vez, nos três tradicionais módulos da mostra: cenografia, arquitetura cênica e escolas de cenografia. De todas as edições, o País só não participou de uma, em 1983; curiosamente porém, mesmo naquele ano, o arquiteto Oscar Niemeyer ganhou uma medalha de prata pelo projeto do Centro Cultural Le Havre. Homenagem a Niemeyer No primeiro módulo, cenografia, também conhecido como Nacional, o tema desta edição será Nelson Rodrigues. Daniela Thomas assina a ambientação do stand de cenografia do Brasil. "Será um espaço repleto de frases do dramaturgo, em português e inglês", diz Grassi. Dentro do stand, o público vai conferir desenhos, cartazes e maquetes dos cenários de diversas montagens, desde Vestido de Noiva, de Ziembinski, e espetáculos de Antunes Filho até Toda Nudez do Grupo Armazém, A Serpente, com cenário de André Cortez. "Ainda no stand nacional, três grandes telas de plasma vão exibir imagens de espetáculos como Meu Destino É Pecar, da Cia. dos Atores; A Vida como Ela É, de Luiz Arthur Nunes, e Boca de Ouro, de Zé Celso, entre outros", afirma Grassi. Ele conta ter ficado impressionado com as imagens mandadas pelo Oficina. Como se sabe, José Celso Martinez Corrêa gravou em DVDs vários espetáculos, usando diversas câmeras, em busca de uma outra linguagem, nem teatro, nem televisão, nem cinema, mas um híbrido de tudo isso. "Pelo que vi, cerca de meia hora de filmagens, acho que Zé Celso conseguiu", comenta Grassi. Se a escolha de Nelson Rodrigues como tema certamente vai contribuir para ampliar o conhecimento de sua obra no mundo, o homenageado no módulo arquitetura cênica, Oscar Niemeyer, já conta com amplo reconhecimento internacional. Quatro teatros por ele construídos estarão expostos em forma de maquetes, desenhos e fotografias. Três deles estão no Brasil e têm diferentes estilos, assim descritos pelo arquiteto Robson Jorge Gonçalves da Silva, no caprichado catálogo desta edição. Mostras de escolas "Ondas suaves e harmoniosas compõem o Teatro Popular, em Niterói (RJ); surpreendentes volumes no Teatro Raul Cortez, em Caxias (RJ)e linhas retas, simples e elegantes no Teatro Ibirapuera (SP)", diz Grassi. O quarto edifício assinado pelo centenário artista é o Centro Cultural de Avilés, na Espanha. Mas a julgar pelo que dizem Grassi e Serroni, as atenções se voltam, cada vez mais, para a mostra das escolas. Neste ano, nada menos do que sete delas, com coordenação da arquiteta e cenógrafa Lidia Kosovski, terão trabalhos expostos em Praga: ECA/USP, Espaço Cenográfico e Unicamp, de São Paulo; UniRio e Escola de Belas Artes da UFRJ, do Rio; Escola de Teatro da Universidade Federal do Pará e Escola Técnica da Universidade Federal do Paraná. "Pedimos que fossem criadas cenografias para peças de Nelson Rodrigues. A qualidade dos participantes foi tão surpreendente que fizemos uma exposição no Rio, no Palácio Capanema, com 54 trabalhos. Agora, 20 deles estarão expostos em Praga." Na versão de As Aves, a ser apresentada no domingo, o público será convidado a sambar por dez alunos, com seus figurinos de aves carnavalizados, que decidiram investir na viagem. "Se der, vamos distribuir umas caipirinhas", brinca Serroni.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.