'Bordados', o Sex and the City do Oriente Médio

Iraniana Marjane Satrapi ('Persépolis') revela com humor e ironia os segredos dos ‘tricôs’ de sua avó e amigas

Flávia Guerra, de O Estado de S. Paulo,

27 Fevereiro 2010 | 06h00

"É o Sex and the City do Oriente Médio. Extravagante, explícito e engraçado!", disse Kelley Know, da Time Out London, sobre Embroideries, de Marjane Satrapi. A afirmação tem lá sua verdade. Afinal, Embroideries (que ao pé da letra significa ‘bordados’, como o livro será chamado no Brasil quando for lançado em um mês pela Companhia das Letras) traz um grupo de mulheres conversando sobre homens, relacionamentos e, claro, sexo.

 

Mas há em Bordados algo que o faz mais interessante que a série que transformou o ‘papo calcinha’ em assunto de primeira ordem. Além da assinatura da iraniana Marjane Satrapi, Bordados abre as portas de um universo que até pouco tempo era completo mistério: a sexualidade no Oriente. E a maior descoberta que se faz ao folhear as páginas de Bordados é que mulher é tudo igual. Só muda de país. Ou quase. Nas páginas e nos desenhos de Bordados descortinam-se os tabus, desejos e ousadias de um grupo de amigas da avó de Marjane. Entre um chá e outro, elas revelam que até perdem a virgindade antes do casamento, mas não perdem o humor jamais. O que fazer diante de uma avó viciada em ópio ("O doutor me mandou tomar porque disse que era bom para minhas dores", justificava a avó), que adora falar da vida dos outros ("É o ventilador do coração") e reúne as amigas para ‘ventilar’ a alma após as refeições? "Aproveitar, aprender e rir muito", concluiu a jovem Marjane bem cedo e muito antes de, nos anos 70, ser mandada pelos pais a estudar na Europa.

 

Bordados é a continuação de um projeto que começou com Persépolis, em que Marjane contou e desenhou as sensações de ser uma garota de família liberal de esquerda em um país onde andar com os cabelos à mostra é considerado contravenção. O livro fez tanto sucesso que virou filme premiado. Agora em Bordados, Marjane dá ao leitor o direito de ser uma mosquinha capaz de ouvir histórias de como a avó da autora ‘ensinou’ uma amiga a ‘disfarçar’ a virgindade perdida cortando-se com uma gilete na primeira noite com o marido. "Não deu certo. Em vez de se cortar, ela acabou cortando os testículos dele", conta a avó. "Ela poderia ter feito um ‘full embroidery’", argumentam as amigas. Aí é que entra a piada com o título original. Full Embroidery (bordado completo) é também como é chamada a himenoplastia (cirurgia que ‘devolve’ a virgindade’). Só essa passagem faria Carrie Bradshaw corar.

 

"Ela não faz nada demais além de publicar histórias que todas ouviram de suas avós", disse uma leitora iraniana em Londres. Este ‘nada demais’ é que é o ‘a mais’. As histórias de tantas outras avós mundo afora estiveram sempre ali, esperando ser escritas. Marjane rompeu a inércia e o fez. Numa época em que o mundo ainda está em luto pela morte de Neda Soltan, baleada em um protesto no Irã em junho de 2009, rir ainda é o melhor remédio e a melhor forma de acordar para a beleza de um país que sofre, mas não se cala.

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