Boni diz o que mudaria na televisão de hoje

Para ele, a programação deve misturar as novas mídias, como internet e iPhone

Cristina Padiglione, O Estado de Paulo

11 Agosto 2010 | 06h00

'Quando digo que a televisão vai mudar, digo 30 anos, talvez. A tecnologia é rápida, o conteúdo evolui lentamente', diz Boni. Foto: Claylton de Souza/AE

 

Dos 60 anos que a televisão brasileira há de completar em 18 de setembro, ele conta 58 dedicados ao tubo - os últimos 7, como acionista da Rede Vanguarda, afiliada da Globo no Vale do Paraíba, com estúdios e torres de transmissão em Taubaté e São José dos Campos. Alcance: 53 municípios. O cartão de visitas de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, no entanto, ainda é aquele que faz de Boni um dos principais pilares, senão o principal, na construção do tal padrão Globo de qualidade.

Em entrevista concedida ao Estado no estúdio da TV Estadão, Boni contou que tem vontade de fazer um canal de jornalismo em São Paulo. Sabe que a Globo não voltará a registrar os 60 pontos de audiência que marcava no seu tempo, mas permite-se analisar itens a serem ajustados na programação atual. "Não entendo essa mania de programas de comédia de situação, todos iguais, para dar 16, 17% de audiência", diz. Eis um resumo da nossa prosa.

 

 

A TV no Brasil chega aos 60 anos e a Vanguarda completa 7 anos nas suas mãos. É possível se divertir, sendo dono?

Muito, porque na Vanguarda a gente faz o que quer. Não só na parte tecnológica. O próprio jornalismo nosso não está preso aos padrões que nós mesmos criamos há muitos anos. É uma certa liberdade de regras que foram estabelecidas por mim mesmo, né?

 

Pois é. O Tiago Leifert, tão celebrado como âncora do Central da Copa, por romper com teleprompter, veio da Vanguarda, não?

Começou totalmente na Vanguarda. Neste período de 7 anos da TV Vanguarda, nós entregamos à Rede Globo sete profissionais. A função da regional é experimentar. A responsabilidade de colocar no ar e não dar certo é menor, então, é um bom laboratório.

 

Você encabeçou a formação da TV em rede no Brasil e está descobrindo o valor da transmissão regional. Como é esse processo?

É emocionante. Fui a Caraguatatuba, visitar a prefeitura, as escolas, e fui recebido com banda de música. Falo com 40 milhões de pessoas, daqui a pouco estou falando com 15: me deu um negócio que não consegui falar, fiquei nervoso. Eu estava tão próximo das pessoas que não sabia se fazia um pronunciamento, um discurso ou se batia um papo e pegava na mão delas.

 

Você cobiça mais espaço, expandir suas retransmissoras?

A Globo tem uma política de determinar áreas de cobertura, nós estamos dentro da área de cobertura determinada para a Vanguarda. Mas ainda pretendo fazer alguma coisa na televisão além da TV regional, estou com muita vontade.

 

O quê?

Ah, começar outra rede. Tenho muita paixão pelo jornalismo. Eu imaginava que talvez a gente pudesse fazer, fora da TV Globo, uma rede de jornalismo em São Paulo. Numa cidade com 18 a 20 milhões de habitantes, acho que cabe uma estação local muito forte, com grande cobertura de jornalismo, uma estação não tipo Globo News, mas presente na rua. O pessoal da Mix tem vontade de fazer, a própria Abril sonha em ter uma coisa assim. Tem que pensar quanto custa e se o mercado é capaz de tornar esse projeto viável. Por enquanto é só sonho.

 

A Globo tem sofrido uma evasão de audiência, pulverizada entre outras mídias e emissoras. Isso é irreversível ou a Globo um dia pode voltar a dar 60 pontos?

Não, 60 pontos é difícil, esse processo é irreversível, mas tanto confio na TV Globo que sou afiliado da Globo. Se estamos investindo na Vanguarda, sem visar ao lucro, é porque acreditamos nesse processo. Mas ela (Globo) cresceu muito em produção, a produção de hoje é significativamente melhor do que no passado, mas o conteúdo nosso foi melhor. Nós tivemos a oportunidade de usar gente de fora da televisão. Se você não trouxer uma contribuição intelectual de fora, a TV vai se repetindo e hoje ela está muito repetitiva. Tem que vir da literatura, do cinema. Com a greve dos roteiristas nos Estados Unidos, eles tiveram de buscar gente nova. Hoje, acredito que a qualidade da TV americana em séries seja superior à do cinema. Não adianta criar novos autores treinando com autores existentes, porque eles vão aprender a fazer aquilo já está sendo feito.

 

Essa fórmula de novela + jornal + novela é algo inconteste, que nunca vai acabar?

Não sei se a novela vai continuar, ou se vai continuar da maneira como é. Sei que o jornalismo vai continuar, a informação vai continuar. Não sei se a novela passará a ser um produto que você vai adquirir. Mas a grade da TV tem de mudar. A hora que mudar a TV, isso não vai funcionar mais. E quando falo mudar, não vai mudar amanhã cedo, talvez em 30 anos. A tecnologia é rápida e o conteúdo evolui lentamente.

 

No que você mexeria?

Eu reduziria o volume de produção, traria contribuição de fora e procuraria desenvolver outros formatos brasileiros e não ficar preso a formatos americanos. Eu tinha um desafio lá de fazer uma coisa nova por ano. Renovar a programação não é trocar de cenário no jornal, nem botar lá uma alavancazinha para o Jô Soares subir de um andar para outro que não chega a lugar nenhum, é ver conteúdo. Eu admito que às vezes, quando você fracassa, está dando um passo para a frente. É preciso fazer isso, não só a Globo, como todo mundo. Não consigo entender, agora, essa mania da Globo de programas de comédia, todos comédias de situação, todos iguais. Temos poucos autores na TV, ainda mais em humor, uma coisa muito difícil de se fazer. Depois vai olhar a audiência, dá 16, 17%.

 

Qual é o futuro da TV?

O futuro da televisão é o video on demand, é ver o que quiser, onde quiser, quando quiser ver. A TV tem de estar preparada para a isso, com gerenciadores de programação, onde você pode misturar essas coisas todas, internet, televisão, iPhone, e pode usar a televisão na hora que você quiser ou para assistir a eventos. Onde é que vai se fortalecer a televisão aberta? Em cima de eventos que sejam transmitidos ao vivo. Shows, futebol, todas essas coisas.

 

Em livro recente sobre Anos Rebeldes, Gilberto Braga conta que Roberto Marinho tentou suspender a minissérie O Pagador de Promessas e você o convenceu a cortar "só" quatro capítulos. Como era negociar com ele?

Doutor Roberto era uma pessoa muito inteligente, mas ele tinha interesses muito claros. Ele tinha, do ponto de vista político, medo de que o Brasil virasse uma Cuba, ele tinha esse pavor. E quando alguma coisa atingia o negócio dele, ele reclamava. O Dias colocou no Pagador de Promessas a questão que ele já tinha abordado em O Espigão: o mercado imobiliário como predador. E o doutor Roberto era um homem de mercado imobiliário. Então, nós tínhamos de convencer o doutor Roberto de que já tínhamos feito O Espigão e ele estava reclamando de uma coisa que já tinha acontecido. E ele acabou fazendo um editorial no Globo dizendo que o Dias Gomes havia traído sua própria história. Mas ele era perfeitamente razoável. Doutor Roberto só interferia quando alguém se sentia incomodado ou quando ele se sentia incomodado, mas sempre com critério.

Uma frase que rege sua vida?

Sempre olhar para a frente, nunca olhar para trás.

 

Mais conteúdo sobre:
Boi TV

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.