Bom de ver & de ler

Baita fotógrafo, Ricardo Chaves resolveu pôr em palavras suas deliciosas memórias

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2017 | 02h00

Eu já sabia que Ricardo Chaves é um baita fotógrafo, em especial quando se trata de uma reportagem, dos melhores com que tive a sorte de cruzar em décadas de jornalismo - mas não fazia ideia de que o Kadão é um craque, também, do texto bom de ler. Falha minha, uma vez mais: muito antes de ter nas mãos um exemplar de A Força do Tempo - Histórias de um Repórter Fotográfico Brasileiro, bastaria ter pensado no que aconteceria se baixasse ao papel o papo gostoso deste irresistível contador de histórias. 

Bastaria ter me lembrado, antes de mais nada, das jornadas que encaramos juntos, madrugada adentro, na redação da IstoÉ - revista que, aliás, chegou a ser então a mais vendida do Brasil, num sentido ao menos, pois em apenas cinco anos, de 1983 a 1988, teve três donos. 

A primeira transação - peço licença para alargar o parêntese rememorativo -, de porteira fechada, nos pegou de surpresa. Como esquecer a estupefação unânime, até mesmo do calejado Zuenir Ventura, chefe da sucursal carioca, na reunião em que nossa venda nos foi comunicada? Daquele episódio me ficou a memória de algo sem precedentes, que eu saiba, na imprensa brasileira: durante quase um mês, entre a saída de um dono e a efetiva chegada do outro, deu-se um vácuo em que a IstoÉ, virtualmente acéfala, foi tocada pelo redator-chefe da antiga administração, Ricardo Setti, sob cujo comando, no início de 1984, pudemos fazer uma revista bem mais próxima daquilo com que sonhávamos. Isto era! 

Na segunda venda, em meados de 1988, eu já não estava ali: tinha, pouco antes, batido asas em direção à sucursal paulistana do Jornal do Brasil, levado pelo mesmo Setti. O solavanco na IstoÉ, daquela vez, foi cruento, com demissões que custariam ao antigo proprietário um vagalhão de processos trabalhistas. A um dos vitoriosos na Justiça chegou-se a propor, como parte da indenização, uma frota de Fords Santana da empresa, o que levou o camarada a rebater: e eu sou doido de comprar um carro usado de vocês?

Não me lembro se àquela altura ainda estava por ali o Ricardo Chaves, com quem já cruzara, de raspão, na primeira das duas encarnações que tive na Veja (ou, como gostam de dizer alguns, “em” Veja) no final da década de 70, eu na sede, em São Paulo, ele na sucursal carioca. Uma convivência mais estreita, para mim preciosa, teria que esperar por aqueles anos de IstoÉ, aonde o Kadão chegou, se não me engano, pelas mãos do editor de fotografia, nosso amigo João Farkas, de quem iria mais adiante herdar o comando.

 

Um flash daqueles tempos: alguém, creio que o Farkas, teve a ideia de salvar da cesta de lixo as pontas dos filmes que chegavam da revelação, contendo imagens involuntárias, pois feitas pelo fotógrafo apenas para se certificar de que o rolo recém-instalado na câmera se desenrolaria nos conformes. Quem diria que tais disparos, feitos a esmo, quase sempre em direção ao solo, haveriam de resultar, não raro, em imagens intrigantes, enigmáticas, que no mais das vezes nem os próprios autores seriam capazes de reconhecer, belas ao ponto de merecerem uma exposição? 

Alta madrugada, todos nós estremunhados, passava às vezes pela redação o nosso diretor, o boa-praça Mário Alberto de Almeida, quase sempre egresso de alguma fina mesa, apenas para botar um olho no fechamento. “Mário está conosco e não fecha!”, bradei um dia ao vê-lo vagar entre as mesas, confiante em que o capo, na sua bonomia, haveria de relevar a minha irreverência. A maratona, pelo menos uma vez por semana, costumava desaguar na manhã seguinte, de tal forma que um dia, vendo-me chegar em casa quase na hora do almoço, meu filho, nos seus 6, 7 anos, sintetizou à maravilha: “Pai, por que ontem você chegou hoje?”.

Foi nos meus anos de IstoÉ que vim a conhecer o gaúcho Kadão, e a ele me afeiçoar em regime de vitaliciedade, num convívio a que não faltavam churrascos sob sua batuta. Mais editor do que repórter, bem raras foram, infelizmente, as ocasiões em que pude atuar com ele em dobradinha. Tem dessas perversões a carreira jornalística, na qual, em troca de salário mais encorpado, tantos se veem tentados a pôr de lado o objeto da paixão primordial que os levou àquele ofício - a reportagem, garantia de contato direto com pessoas, coisas, lugares, acontecimentos -, e trocam a poeira da aventura pela assepsia das redações, nas quais o trato com a realidade será sempre em segunda mão.

 

De um dos poucos momentos em que fui à luta com o Kadão, guardei lembrança a vários títulos preciosa, o registro não apenas fotográfico de uma noite em que a apuração para uma reportagem de capa sobre João Cabral de Melo Neto nos levou, com Otto Lara Resende, à legendária cobertura de Rubem Braga, em Ipanema, para, entre goles do melhor uísque, saber mais a respeito do poeta, íntimo dos dois escritores. 

Mas o assunto, aqui, era o livro do Ricardo Chaves, o grande Kadão, e eis que acabei esgarçando o fio do meu papo. A ele voltarei, prometo, e sem tardança. Por ora, já que você teve a paciência de vir comigo até este parágrafo, por favor espiche um pouco mais a sua generosidade, e considere o que foi dito acima como aquelas pontas de filme na velha redação da IstoÉ. Quem sabe também neste falatório tem coisa que se possa aproveitar? 

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