Bienal de Veneza traz a arte do presente e favela carioca

Brasileiros são destaque da mostra com trabalho de moradores do Morrinho

Agencia Estado

14 Junho 2007 | 18h01

Veneza está tomada de pôsteres em vermelho com os dizeres Pensa con I Sensi, Senti con la Mente (Pense com os Sentidos, Sinta com a Mente), título da 52.ª Bienal Internacional de Arte de Veneza, inaugurada para o público no domingo e que ficará em cartaz até 21 de novembro. Mas, segundo o The Times, de Londres, se alguém for a essa cidade italiana por conta desta edição do grande evento, que ocupa há mais de 110 anos os Giardini (com os pavilhões nacionais) e o Arsenale (um grande galpão onde funcionava um arsenal militar), a obra mais imperdível e que mais se encaixa com o tema da Bienal é uma apresentada entre suas atrações paralelas: a videoinstalação do americano Bill Viola, intitulada In Ocean Without a Shore (No Oceano sem Margem). Abrigada em um ambiente escuro da Igreja de San Gallo, a obra é formada por três painéis colocados sobre os altares onde é projetada uma figura que paira como uma miragem. Usando alta tecnologia, Viola encontra uma linguagem visual para expressar com tamanha clareza coisas que todos reconhecemos, mas que raramente experimentamos. Como escreve Carol Vogel, do The New York Times, apesar de muitas pinturas, instalações e vídeos da mostra principal da 52ª Bienal de Veneza no Pavilhão Itália, com curadoria do americano Robert Storr, tratarem do sublime, do espiritual e do desconhecido, alguns dos trabalhos - diferentemente do de Bill Viola - parecem um tanto inocentes, como o vídeo do japonês Tabaimo, que mostra uma grande mão arrumando uma casa de bonecas. Até que uma lula gigante destrói a cena idílica. Segundo a jornalista, são realmente os trabalhos dos mais velhos contemporâneos, como as pinturas de Sigmar Polke - escuras e abstratas - ou de Robert Ryman e Ellsworth Kelly, os mais enigmáticos. Brasileiros Dentre os participantes brasileiros desta Bienal, a instalação dos integrantes do Projeto Morrinho, todos eles moradores da favela do Morrinho, no Rio de Janeiro, é das mais comentadas. Eles fizeram uma reconstituição da favela carioca em 300 metros quadrados, com uma escala 20 vezes menor do que a realidade. Artistas e críticos, enfim, a elite artística internacional, em visitas prévias da mostra, se viu maravilhada com a oportunidade de ver tão de perto a maquete da favela com seus barracos coloridos e até um campo de futebol. "Nunca pensei que isso fosse arte. Vejo isso como um jogo", diz Maycon Souza de Oliveira, integrante do projeto há quase uma década - e ele diz se sentir incomodado com o título de "artista". Assim como para os outros integrantes do projeto, Maycon acredita que tudo começou com um jogo, como a construção de uma casa de bonecas para recriar a vida que eles observam ao seu redor. A artista carioca Paula Trope, que há anos vem fazendo trabalhos com o grupo, tem toda uma pesquisa de forte vertente social em que faz fotografias com uma câmera pinhole dos meninos e das maquetes que eles realizam - ela apresentou esse trabalho, que tem uma forte relação e inversão de escalas, no ano passado na 27ª Bienal de São Paulo. Paula também está entre os participantes desta 52ª Bienal de Veneza convidados por Storr. Além da série "Sem Simpatia", com as fotografias, ela exibe imagens do Morro dos Macacos e do Complexo do Alemão no Rio. As fotos refletem uma guerra não declarada, com imagens de jovens moradores do local em meio a um cenário de pobreza e violência. Arte e política - Afinal, como não poderia deixar de ser apesar de o casamento entre arte e política ser antigo, este ano, na Bienal de Veneza, os lembretes de morte e guerra estão em todos os lugares. "Há um senso de fragilidade e a guerra é apenas uma das forças destrutivas", afirmou Robert Storr à imprensa. "Eu não tentei passar nenhuma mensagem, mas, como Bruce Nauman, eu quis dizer: ‘Por favor, prestem atenção’", completou o curador fazendo referências aos escritos de Please Pay Attention Please presentes na obra do artista americano. Dessa maneira, o primeiro salão da mostra traz trabalhos sobre guerra e política mundial. O argentino León Ferrari, com suas obras centradas na crítica à Igreja e à guerra, é representado, entre outras criações, pela escultura A Civilização Ocidental e Cristã, que mostra Jesus de braços abertos sobre uma réplica de avião militar norte-americano e mísseis. Já Emily Prince criou um gigantesco mapa dos Estados Unidos com desenhos em tamanho 3x4 de soldados norte-americanos mortos no Iraque e no Afeganistão desde 2004 e o italiano Paolo Canevari mostra o vídeo "Bouncing Skull", em que um menino faz embaixadas com um crânio humano com um prédio destruído por um bombardeio ao fundo - a obra foi filmada dentro de um quartel general do exército iugoslavo no bombardeio de Belgrado em 1999. Também a americana Jenny Holzer, conhecida por suas obras em néon - geralmente com comentários sociais -, apresenta, na verdade, pinturas feitas em silk-screen baseadas em documentos militares da Base de Guantánamo - entre eles, a autópsia de um morto iraquiano.

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