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Biblioteca invisível

Quantos de vocês já leram Artur Corvelo, Tazio Bazakbai, Robert de Passavent e Luiz Fontaine de Souza? 

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Sérgio Augusto

23 Janeiro 2016 | 02h00

Não se avexem, desdouro algum. Mesmo Jorge Luis Borges e Otto Maria Carpeaux, que pareciam ter lido tudo, conheciam os citados apenas de nome, referência e, quando muito, reputação. 

Artur Corvelo foi um poeta luso, sequioso de prestígio literário, que sonhava com ver os versos que compilara em Esmaltes e Joias encadernados com capa cor de rosa e expostos nas vitrines das livrarias lisboetas. Só passou a existir depois que Eça de Queiroz lhe deu vida em A Capital. Ou seja, um bardo imaginário.

Tazio Bazakbai tampouco existiu de verdade. Possivelmente romancista, é um dos autores listados por Italo Calvino em Se Um Viajante Numa Noite de Inverno, junto com Ukko Ahti, Ermes Marana, e outros igualmente fictícios. 

De Robert de Passavent sabemos mais. Escreveu um romance (La Barre Fixe), mas cujos conteúdo e data de publicação seu inventor, André Gide, nos sonega em Diário dos Moedeiros Falsos.

Embora haja entre nós uma família Fontaine de Souza, o supracitado Luiz é uma invenção do chileno Roberto Bolaño, que em sua antologia La Literatura Nazi en América o arrolou como o único escritor brasileiro convertido ao nacional-socialismo. (Não foi, mas deixa isso pra lá.) Luiz, que se notabilizou por refutar em ensaios as ideias de Hegel, Marx e Feuerbach, sobreviveu à repressão do Estado Novo. Louquinho da silva (ou de souza, como queiram), curtia o crepúsculo na praia do Leblon ao dar seu último suspiro, em 1977, com a idade do século.

Eça inventou ainda um naturalista chamado Shlock, autor de um estudo sobre a expressão fisionômica dos lagartos, isso em A Relíquia. Calvino, bem mais chegado à metaliteratura que Eça, enfiou em O Barão nas Árvores um sujeito chamado Côme Laverse du Rondeau, que no final do século 18 redigiu o projeto de Constituição de uma cidade, cujo título parecia mais extenso que o texto que se lhe seguia. Gide se refere a um tal de Julius de Baraglioul e seu romance L’Air des Cimes, ambos fictícios, nas páginas de Os Porões do Vaticano, mas ficou por aí. Ao contrário de Bolaño, que tão somente no estonteante 2666 introduziu duas celebridades literárias de mentira: Benno von Archimboldi (autor de 21 romances) e o russo Ephraïm Ivanov, assassinado em 1938 a mando de Stalin.

Topar com fantasmas literários desse gênero - autores que nunca nasceram e livros que nunca foram escritos (“livros que só se abrem dentro de outros livros”, na clássica definição de Max Beerbohm) - sempre me diverte e excita a curiosidade e a imaginação. Já fiquei em dúvida sobre a real existência de vários autores mencionados por Enrique Vila-Matas em seus romances especulares e de parcerias por ele engendradas com ensaístas reais, como, por exemplo, a dupla Werner Littbarski-Valéry Larbaud, em sua (dele, Vila-Matas) História Abreviada da Literatura Portátil. 

Dandismo literário? Diletantismo? Que seja. A metaliteratura é uma dimensão salutar que nos permite escapar do realismo corriqueiro, uma piscadela para os leitores abertos à aventura e ao sherlockismo literário. 

Não lamento desconhecer os poemas do eciano Artur Corvelo - e digo o mesmo dos versos do bizarro Opodeldoque inventado por Poe (v. Vida Literária de Fulano-de-Tal), sempre iniciados com uma pomposa referência à “cólera de Aquiles” -, mas gostaria de ao menos poder dar uma espiada na saga (Trem do Ural) que, segundo Bolaño, pôs Ephraïm Ivanov na lista negra do regime soviético.

Também adoraria ver de que jeito Elizabeth Costello recontou o Ulisses de Joyce do ponto de vista de Molly Bloom, mas a velhinha australiana fantasiada por J.M. Coetzee só pode ser lida dentro de outro livro, a exemplo do Quixote de Pierre Menard e dos falsos romances policiais do irlandês Herbert Quain delirados por Borges, dos “eclipses literários” de Robert Derain a que só Vila-Matas teve acesso, da análise cinematográfica de David Zimmer e dos filmes de Hector Mann mencionados por Paul Auster em O Livro das Ilusões, e das peças de Clare Quilty a que Vladimir Nabokov se refere em Lolita. 

Não me apetece a leitura daqueles ensaios científicos inventados por Umberto Eco em O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault - e aqui abro exceção ao apócrifo ensaio O Fator Coruja e a Derridância, creditado a Jacques Derrida pelo arquierudito intelectual bolonhês -, ampliando minha deferência ao tratado sobre o nariz aludido por Laurence Sterne em A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, ao estudo sobre “o emburrecimento da inteligência”, atribuído a um tal de Alfred Attendu (que o argentino Juan Rodolfo Wilcock relaciona em seu inacreditável A Sinagoga dos Iconoclastas), e à tese sobre “a emotividade genital dos poetas líricos”, publicada pelo Dr. D’Escarbagnas em 1900, mas integralmente pensada pelo simbolista francês Marcel Schwob, não por acaso conhecido, inclusive no Brasil, por um livro intitulado Vidas Imaginárias.

Para outro francês, François Rabelais, reivindicam a invenção da referência a livros (e autores) imaginários, cujos primeiros exemplares estariam arquivados na biblioteca da abadia de Saint-Victor, paraíso bibliófilo descrito em Pantagruel, já lá se vão 484 anos. Com todo respeito a Sterne, Poe, Anatole France, Henry James, históricos adeptos dessa lúdica forma literária em abismo (expressão, de resto, criada por Gide), seu mais obstinado e brilhante praticante foi, a exemplo de Blaise Cendrars, Georges Perec e Raymond Queneau, um contemporâneo nosso: Borges, por supuesto. Basta ler os relatos de Ficções e O Aleph para saber por quê. 

Há pouco mais de 60 anos, John Webster Spargo publicou um ensaio sobre livros e bibliotecas imaginárias que jamais esteve ao meu alcance, embora dele ainda sobreviva um raro volume em capa dura, à venda na Amazon por U$ 35. Em 1997, Jacques Geoffroy lançou obra similar, por ocasião de uma exposição montada na biblioteca municipal de Dole, na França. Os franceses têm orgasmo com inventários desse tipo. Cendrars ruminou, por longo período, um hipotético Manual da Biblioteca de Livros Jamais Publicados Nem Sequer Escritos. Recentemente, Stéphane Mahieu catalogou um impressionante acervo de livros imaginários, La Bibliothèque Invisible (Éditions du Sandre), que talvez seja o mais completo e atualizado de que se tem notícia. 

Seus verbetes vão de Cada Um a Seu Modo (a peça dentro da peça Seis Personagens em Busca de Um Autor, de Pirandello) a Zenobia, peça de Shakespeare dada como perdida e há quase 30 anos “descoberta” pelo autor de ficção científica Jack McDevitt. Apesar de ter apenas 160 páginas, ocupa mais espaço na estante e na mesinha de cabeceira do que todas as obras nelas relacionadas.

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