Bem mais do que mulher pelada

Num mundo em que “empregado” virou “colaborador”, sem que o uso de jargão corporativo signifique um real a mais no contracheque, colaboradores já não são demitidos, são “desligados”. Revistas e jornais já não fecham, nem simplesmente acabam, como vinha acontecendo desde o surgimento da imprensa: agora são “descontinuados”. Não será surpresa, aliás, se o eufemismo se estender um dia às relações amorosas e conjugais, para dizer que fulana e fulano não se separaram, apenas “descontinuaram” seu namoro ou casamento. Se a descontinuação não der certo, diremos que fulana e fulano revitalizaram seu empreendimento afetivo.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

24 Novembro 2015 | 02h00

Ainda não chegamos a tanto, mas é inquietante a frequência com que ouvimos dizer que revistas e jornais foram descontinuados – o que não quer dizer que quem lá trabalhava foi para o olho da rua, e sim que os colaboradores foram “desligados”. Não sei se é isso que acontecerá com o pessoal da Playboy, publicação descontinuada, dias atrás, poucos meses depois de completar 40 anos de presença nas bancas brasileiras. Se fosse apenas ela... Por certo sabem o que fazem os donos da editora, mas quem gosta de revistas de papel não pode senão deplorar uma Abril assim despedaçada.

Não sou eu quem vai contar a história de uma publicação que, no final da década de 1990 – antes, portanto, que o advento de mídias eletrônicas viesse pôr em choque e em xeque, quando não em chilique, a imprensa convencional –, chegou a tirar mais de 1,2 milhão de exemplares. Falo apenas como jornalista que passou ali 8 dos melhores anos de sua vida profissional, e que nunca, antes ou depois, permaneceu por tanto tempo num pouso, mesmo se somadas duas encarnações na redação da Veja, a última delas encerrada, convém esclarecer, há mais de 30 anos.

Cheguei à Playboy em setembro de 1992, como redator-chefe, levado por Juca Kfouri, comandante impecável daquele barco depois do falecimento, no ano anterior, de Mário Escobar de Andrade, diretor da revista desde que ela surgiu, com o título Homem, em 1975. Juca saiu em 1994, e tivemos a partir de então o comando firme e doce de Ricardo Setti, amigo, quase irmão, a cujo lado tive o privilégio de atravessar a maior parte de minha carreira, do Jornal da Tarde à Playboy, passando pela Veja, IstoÉ e Jornal do Brasil, além da revista Visão, da qual, pela mão do Setti, fui colaborador frequente em meus anos de Paris.

Sua saída, no final de 1999, abriu espaço para a desfiguração de um projeto editorial vitorioso. Na busca a qualquer preço de mais e mais leitores, a Playboy não apenas se tornou mais rasa como abdicou de ser uma revista de fantasia, chave do seu sucesso. Deixei a redação em março de 2000, mas continuei a acompanhá-la – até o dia em que, em vez de sonhos, ela serviu aos leitores um “teste do miojo”.

Não foi por falta de alternativas que fiquei por tanto tempo na Playboy. Era feliz ali como poucas vezes fui em qualquer outra redação, e essa felicidade tinha a ver com a companheiragem, ainda hoje vicejante, que lá construímos, fundada também na excelência rara de uma equipe em que o tempo de janela dos cabelos grisalhos e o pique juvenil dos cabelos escuros se complementavam.

Na moldura incontornável de uma publicação congenitamente machista, cuidávamos de dar tratamento digno às mulheres que povoavam nossas páginas e, em última análise, pagavam nossos salários. Ali fizemos, também, bom jornalismo, proporcionando a tantos marmanjos, de quebra, uma desculpa para terem nas mãos, numa delas ao menos, uma revista de mulher pelada.

Sim, jornalismo genuíno. Mesmo sabendo que não existe “entrevista definitiva”, não era menos o que pretendíamos ao bater na porta de um entrevistado. Em condições ideais, entrevista da Playboy não se fazia sem três ou mais rodadas, com intervalos que permitissem avaliar o material já recolhido. Não se saía da redação sem extenso questionário, fruto de muita pesquisa e rico em contribuições nascidas de um mutirão. Assuntos intensivamente tratados na imprensa e em seguida abandonados, qual carcaças de notícias, mereciam retomada em profundidade. Exemplo? Dona Leda Collor, fulminada por um AVC em meio ao furacão que levaria à queda do filho presidente, e depois esquecida pela mídia, por meses, no hospital onde iria morrer.

Não sei se a imprensa em papel vai sobreviver. Estou certo, porém, de que não fará falta se não trouxer o que hoje anda em baixa: informação de primeira ordem muito bem tratada. Apuração implacável e texto caprichado. Aquilo, em suma, que por um bom e saudoso tempo permitiu fazer da Playboy bem mais que uma revista de mulher pelada.

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