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Aves que aqui gorjeiam

Humberto Werneck

Quando, na remota juventude, eu desovava um conto na imprensa de Belo Horizonte, havia sempre quem viesse me cobrar: “E um romance, quando sai?”. Não acontecia só comigo, é claro, e nem seria hoje diferente: para muita gente, contista não passa de aprendiz de romancista. Eis um terreno em que, como naquele outro, a qualidade do desempenho parece contar menos que o tamanho.

Agora veja como são as coisas: cronista no ramo há muitos anos, volta e meia me aparece alguém querendo saber “quando é que vem um conto”.

Não estou aqui para me lamuriar, em nome próprio ou de meus pares, mas o fato é que a crônica segue sendo vista como um gênero literário subalterno, vira-lata. Acha que estou exagerando? Repare que nos concursos ela nem sequer merece uma categoria à parte: nos Jabutis da vida, a crônica, quando incluída, vai de pingente na categoria conto. É uma espécie de etc.

Ninguém se escandaliza, aliás, com o fato de que o maior de nossos cronistas, o insuperável Rubem Braga, tenha atravessado a vida sem abiscoitar (eu ainda acabaria usando esta palavra horrenda...) um único prêmio literário. Quando, já próximo do fim, lhe acenaram com o da Academia Brasileira de Letras, o Urso de Ipanema fez saber que não aceitaria, para não ter que se engravatar e discursar no Petit Trianon.

Com bem raras exceções, entre elas Davi Arrigucci Jr., Décio de Almeida Prado e Antonio Candido – autor do que de melhor já se escreveu sobre a crônica, o ensaio A Vida ao Rés do Chão –, críticos e estudiosos da literatura passam batido por esse mestre da prosa brasileira, na suposição equivocada, haja obtusidade, de que o que ele escrevia, por sair em jornais e revistas, era jornalismo, não literatura.

Como se o caráter subjetivo e pessoal da boa crônica, gente, não constituísse uma exata contramão do território da objetividade e da impessoalidade pelas quais pretendem se pautar as revistas e jornais. Como se tantos textos de Rubem Braga, embora produzidos na agonia da busca de assunto e no sufoco dos deadlines jornalísticos, já não tivessem se mostrado resistentes à passagem do tempo – bem mais, diga-se, que uma quantidade de romances torturadamente elaborados ao longo de anos e desde sempre esquecíveis.

Na avaliação de uma obra, de fato, o que às vezes parece contar não é a qualidade, mas a carga horária, ou a ambição do autor. Um romance, qualquer romance, mereceria dos críticos e estudiosos mais atenção do que um palmo de prosa publicado na imprensa – mesmo se esse palmo de prosa, insisto, de saída se mostrasse capaz de atravessar os tempos e de seguir falando até para o leitor que ainda vai nascer, sem que o passar dos anos possa cavar nele a menor ruga. E se essa prosa é mais tarde reunida em livro, corre o risco de ser ignorada pelos resenhistas, com o argumento de que já foi publicada. Não há limites para a insânia, diria o Geraldo Mayrink, que tanta falta faz. Até parece que o leitor não apenas já leu todas aquelas crônicas, naquela ordem, com aquela edição, como guardou cada recorte.

Escrita para o jornal ou a revista, a crônica, há quem ache, não pode pretender sobrevivência para além do dia, da semana, do mês; teria sido feita para ali morrer. Quem disse tamanha bobagem? Ninguém menos que Alceu Amoroso Lima, durante décadas um acatado farol na crítica literária nacional. “Uma crônica, num livro”, decretou ele, “é como um passarinho afogado”. Meus sais! Será que para o Dr. Alceu as coletâneas de crônicas de Machado, Bilac, Bandeira, Drummond, Braga, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, para citar apenas alguns mestres do gênero, não passariam de gaiolas cheias de aves que, ali afogadas, aqui já não gorjeiam?

Este meu papo de testa franzida, bem pouco cronical, admito, no qual você talvez veja um travo de ressentimento (crônico?), estendeu-se um pouco além do programado – e, mesmo assim, devo informar, ainda não chegou aos finalmentes. Peço licença e paciência para espichar, dessa vez em tom menos enfezado, prometo, uma conversa que, um tanto depenada, no parecer do Dr. Alceu talvez seja passarinho merecedor de sumária estilingada.

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