'Autor por Autor', um programa para gostar de ler

TV Cultura lança misto de teatro, TV e tecnologia para revelar vida e obra de grandes escritores brasileiros

19 Maio 2010 | 05h00

No 1.º programa, Othon Bastos, Milhem Cortaz e Clarissa Kiste. Foto: Jair Bertolucci/Divulgação

 

Flavia Guerra - O Estado de S. Paulo

 

SÃO PAULO - Há pouco mais de um mês, em dia de gravação do novo programa Autor por Autor, nos estúdios da TV Cultura, em São Paulo, o ator Othon Bastos passeava por um cenário todo azul, ao lado de Milhem Cortaz, e dizia: "Minha família tinha obsessão por livros. Meu pai queria que eu aprendesse a ler aos 4 anos. Quando fiz 6, comprou cartilha, tabuada e caderno e me levou à casa de uma certa dona Gilete. E disse a ela: ‘Aplique as regras. Este rapaz ainda não sabe ler.’"

 

Quem olhasse para o monitor ao lado veria, em vez do fundo azul de estúdio, a cena completa: Bastos caminhando por uma biblioteca de fazer jus à família Mindlin. "Descobri depois que ‘aplicar as regras’ nada mais era do que usar a palmatória para impedir qualquer manifestação minha de falta de empenho ou burrice de aluno, mesmo", dizia.

 

Enquanto isso, o diretor Ricardo Elias dava as dicas aos atores e à equipe no estúdio: "Este plano ficou ótimo assim. Na cena da casa, vamos ter um cenário para compor o quadro. A câmera vai ler não só o que foi criado por computador, mas também objetos reais. Mas nestas da biblioteca ‘virtual’, vocês precisam tomar cuidado para não ‘esbarrar’ nas estantes e no corrimão."

 

O cenário ‘real’, no entanto, não tinha estante. Nem mesmo as memórias que Othon narrava eram suas, mas sim de João Ubaldo Ribeiro. "O Autor por Autor é isso. Mistura de tudo um pouco para compor um romance de formação da vida de um autor como o Ubaldo. Mesclamos entrevistas do próprio escritor com dramatização e, por fim, aplicamos o cenário por computação gráfica", explicava Elias enquanto mostrava ao Estado cenas que ele e sua equipe criaram para ilustrar a vida e a obra do autor de obras como Sargento Getúlio.

 

É este misto de TV, teatro e literatura aplicada que estreia amanhã às 23horas com a missão de vencer, não com palmatória, mas, com criatividade, a difícil e recompensadora tarefa de criar no espectador a vontade de ler (mais) sobre a vida e a obra dos grandes escritores contemporâneos brasileiros.

 

Piloto. Autor por Autor, que nasceu com Lygia por Lygia, de novembro de 2009, foi concebido por Paulo Markun, tem direção geral de Elias e é uma co-produção com a SescTV. O piloto foi criado como uma homenagem à Lygia Fagundes Telles. Diretor premiado de filmes como De Passagem e Os 12 Trabalhos, Ricardo Elias está acostumado a falar ao público jovem. "Para este primeiro, passamos muito tempo concebendo a ideia do programa, que é a de contar como um autor se tornou o escritor que é hoje. O que ele viveu e leu que foi decisivo em sua formação", comenta Elias. "Partindo desta ideia, queremos mesmo dialogar com o jovem que ainda está tomando os primeiros contatos com os grandes: Ubaldo, Ana Miranda, Carlos Heitor Cony... Queremos ser referência para que, ao final deste jogo televisivo, o espectador vá procurar mais sobre a obra."

 

A ideia, ainda que cause um pouco de estranhamento aos atores, foi aprovada pelo elenco. "O texto é ótimo e a ideia também. Confesso, foi estranho no início. Tive de atuar com o nada e caminhar por linhas marcadas no chão. Quando vi a cena real que ia ao ar, levei um choque", conta Othon, para quem a graça de Autor por Autor é a de ‘humanizar’ e chamar novos leitores."

 

Já Leona Cavalli, que vive a autora Ana Miranda, comentou com o Estado no intervalo de gravação: "Sinto como se estivesse em um videogame. Mas não que seja negativo. Tenho a impressão de que no futuro vamos dizer: ‘Lembra quando começamos a usar o blue screen na TV?’"

 

A técnica do blue screen (ou tela azul) não é nova. Mais conhecida por ser usada pelos apresentadores da previsão do tempo e VJs da MTV, ela ganha agora ares mais dramáticos com o uso que equipes como a de Autor por Autor fazem. "A graça não está no fundo azul, mas sim em poder associá-lo a programas como o Erad, que permite que as câmeras que usamos ‘leiam’ o cenário previamente criado por computador como sendo real. É esse ‘virtual real’ que faz a diferença nesta nossa tarefa", diz Elias.

 

Tecnologia. A tarefa se completa na pós-produção, quando cenas reais e virtuais passam pelo último tratamento. "As cores, sombras, nuances finais dos cenários são criados e aplicados com o programa de finalização Scratch. Além disso, criamos também legendas que funcionam como notas de rodapé sobre a vida dos retratados. No final, temos um livro eletrônico bem ilustrado", comenta o diretor, que já trabalha no próximo programa, sobre Carlos Heitor Cony. Desta vez, Tuca Andrada será o autor. Além do elenco, cenários mudam de acordo com a vida e a obra de cada um.

 

Por um ano, todo mês, um escritor brasileiro vai ter sua vida ilustrada na tela da TV Cultura. "Sabemos que há sempre limitações, mas, pense, se de cada 50 mil pessoas que virem o programa, ao menos 10 mil forem procurar os livros, este será um programa vitorioso", aposta Othon.

 

O ator, aliás, não conversou nem sabe o que Ubaldo vai achar do projeto. "Conheci Ubaldo e seu pai quando eu trabalhava no Tribunal de Contas de Salvador. E fiz uso das minhas memórias carinhosas sobre ele para criar não ‘outro Ubaldo’, mas uma espécie de memória personificada dele. Até tentei conversar com ele, mas não consegui. A secretária dele é uma muralha! Esperamos que ele goste do resultado."

 

Quem é João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro nasceu na Ilha de Itaparica (BA) em 1941. Filho do advogado Manuel Ribeiro e de Maria Filipa, formou-se em Direito. Hoje, ele é colunista do Estado, além de membro da Academia Brasileira de Letras

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