Autocrítica, eu?

Collor nunca se desculpou por arruinar a economia e instaurar um plano econômico insano

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2017 | 02h00

A culpa sempre é dos outros. Muitos criticam a esquerda por não fazer autocrítica. Mas alguma corrente ideológica ou partido já fez? 

Numa jogada de marketing espetacular, o PSDB resolveu fazê-la por meio da propaganda a ser exibida em rádio e TV. “O PSDB acertou quando criou o Plano Real, mas agora errou”, é o slogan criado pelo marqueteiro Einhart Jacome. 

Errou no quê? “Agora” quando? Tem a ver com Aécio, com a PM de Alckmin, com o superfaturamento de trens e metrô, do Rodoanel? Errou no mensalão mineiro, no uso de caixa 2?

FHC vai se desculpar por ter mantido o câmbio artificialmente congelado, que arruinou parte da indústria e gerou desemprego, até uma reeleição que não havia na Constituição e foi conquistada com compra de deputados? Vai falar da privatização duvidosa, às pressas?

O partido anuncia que se diferencia dos outros e faz autocrítica. A peça publicitária atinge em cheio seu alvo: a incapacidade histórica do PT de fazê-la. Mas é marketing. A autocrítica não faz parte da prática política.

Getulistas não fizeram autocrítica por instaurar uma ditadura populista e perseguir opositores com mão de ferro. Udenistas não fizeram autocrítica por desestabilizar várias vezes a normalidade democrática e mobilizar rebeliões. Carlos Lacerda fez autocrítica por apoiar militares a fim de implantar uma ditadura que, ironia, o cassou?

Jânio Quadros nunca fez autocrítica por renunciar e mergulhar o País numa crise institucional. João Goulart fez por se aliar a forças radicais, num Brasil dividido, não ser duro com motins militares, o que deu no Golpe de 1964 (militar tolera quase tudo, quebra de hierarquia jamais)?

Os militares? Bem, caso à parte, esses não pedem perdão pelo estado de terror, tortura e desaparecimento, censura, holocausto indígena, ocupação desordenada da Amazônia, programa nuclear obsoleto, por birra contra a “intromissão” de Carter, dívida externa monstruosa, inflação galopante, excesso de estatização, que deu no fim do nosso parque ferroviário, e pela grande fraude, a de que o golpe, ou revolução, como preferiam, era para debelar um levante comunista iminente e acabar com a corrupção. 

Continuam e continuarão a bater os coturnos na máxima “dever cumprido”.

Collor nunca se desculpou por arruinar a economia e instaurar um plano econômico insano, bolado por uma equipe econômica inexperiente e incapaz, que retirou o dinheiro de circulação, levou milhares à falência e muitos ao suicídio. 

Romeu Tuma nunca se desculpou por chefiar a censura federal e proibir a execução de músicas da Blitz, Leo Jaime, Lobão, Ultraje, Legião, Capital, Inocentes e tantas outras.

E Lula? Aguardamos o pedido de desculpas por manter na Petrobrás uma quadrilha a fim de financiar três partidos, PT, PMDB e PP, manter ligações espúrias com empreiteiros, fazer uma copa do mundo com estádios desnecessários, incentivar a política estúpida do BNDES de apostar nas “campeãs nacionais”, sob uma rede de corrupção jamais vista. 

Sem contar que traiu a essência petista, ao se aliar ao que havia de mais estranho à esquerda, de Delfim Netto, que nunca se desculpou por assinar o AI-5, a Paulo Maluf, que insiste que não tem contas no exterior. 

Dilma? É cedo, mas... Sua teimosia, falta de tato e visão, de que a marolinha de 2008 viraria um tsunami e despencaria o preço das commodities, arrasaria a economia brasileira e aumentaria o desemprego, não nos preveniram do desastre. 

Não desconfiou, apesar de alertada, de que a política de combate à inflação congelando gasolina e eletricidade quebraria o sistema. Demorou para fechar a torneira do incentivo fiscal e se livrar daqueles diretores da sua Petrobrás, que raspavam os cofres até o tacho. E para que meter a mão nos extratos de bancos públicos para combater o déficit do tesouro?

A maneira como fazemos política merece autocrítica. A maneira como exploramos o Brasil, devastamos suas florestas, poluímos seus rios, produzimos riqueza não para o bem comum, mas pessoal físico e jurídico, administramos um Estado gigante, perdulário, ineficiente, não produzimos ciência relevante, tecnologia de ponta, merece autocrítica. 

A maneira como lidamos com a Educação Fundamental e a Previdência, e alimentamos um déficit que quebra o País e não nos dá possibilidade de investimentos em infraestrutura, merece autocrítica. 

Atravessamos décadas com uma bomba à frente, em vez de apagarmos o pavio, colocamos mais pólvora nele. Em oito anos de governo tucano, 14 anos petista, com maioria no Congresso e governabilidade estabelecida, não se tocou na maior injustiça social da nossa história: a rede de recolhimento sobre o salário, que resulta numa distribuição legal, injusta e imoral. 

É a maior transferência de renda de que se tem notícia: trabalhadores, classe média, profissionais liberais e aposentados do serviço privado financiam aposentadorias muito superiores de promotores, juízes, militares e seus familiares, funcionários públicos, membros do Estado, que se julgam com mais direitos do que todo o resto da população, a que trabalha sem vínculo público.

O que a esquerda propõe? Sindicatos e centrais estão atreladas ao funcionalismo público. Negam a necessidade de uma reforma. Boicotam toda a iniciativa que pede mudanças. 

Criamos um Estado para gerir os membros do Estado e dar a eles e familiares uma vida com mais conforto do que de todos os outros brasileiros, num descalabro constitucional. Assim, iremos gerir escombros.

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