Atrito com a realidade

Em entrevista, Luiz Fernando Carvalho fala de sua minissérie, Suburbia, que traz seu estilo particular em oito capítulos

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2012 | 03h13

Uma garota pobre do interior foge de casa e vai tentar a sorte no Rio de Janeiro. Este, o ponto de partida de Suburbia, minissérie de Luiz Fernando Carvalho, que a Globo começa a apresentar na quinta-feira.

Conceição (Débora Nascimento e depois Erika Januza) vive com a família no interior de Minas e, depois de perder o irmão numa explosão da carvoaria, decide fugir de casa e ir para o Rio. É um peixinho fora d'água e, até decodificar as manhas da metrópole, sofrerá uma série de percalços, inclusive a prisão injusta.

Nessa série, o público encontrará muito do estilo de Luiz Fernando Carvalho, o cineasta festejado de Lavoura Arcaica e responsável por algumas das minisséries mais autorais da TV brasileira como Os Maias, Hoje É Dia de Maria, Capitu e A Pedra do Reino. Apuro visual, técnica refinada nos movimentos de câmera, etc. Mas notará, também, uma pegada realista e documental que não se via em suas obras anteriores.

Encontrará, também, um universo temático um tanto diferente dos habituais de Luiz Fernando Carvalho. Seu leque de interesse tem a cultura brasileira como ponto comum. Não por acaso, a grande maioria de sua obra é inspirada em autores famosos como Machado de Assis, Raduan Nassar e Ariano Suassuna. Em Suburbia, a parceria é com um autor contemporâneo, Paulo Lins, o mesmo de Cidade de Deus.

Paulo Lins, autor do romance que serviu de ponto de partida ao filme homônimo de Fernando Meirelles, um dos grandes sucessos do cinema brasileiro contemporâneo, é homem com vivência das favelas e da zona norte carioca. Local onde boa parte da história de Suburbia se desenrola. Além disso, a trama se inspira em uma vivência pessoal de Luiz Fernando Carvalho, como ele explica na entrevista exclusiva concedida ao Estado.

Primeiro, gostaria de perguntar sobre a formação do elenco. Aparentemente, você quis trabalhar com atores e atrizes menos conhecidos do público de TV. Como chegou a eles e por que fez essa opção?

As minhas anotações que deram origem ao seriado não eram ficção, vinham da realidade. Explico melhor: Betânia era uma mãe preta que tive por mais de 25 anos. Começou a trabalhar aqui em casa como faxineira, mas logo se tornou fundamental na minha vida, pela carga de afeto que nutríamos um pelo outro. Negra, analfabeta, mas cheia de vida e inteligência, vez por outra rememorava seu passado, sua trajetória de vida, fazendo isso com muita riqueza de detalhes, enquanto preparava meu almoço ou arrumava a casa. Eu ali, diante de tantas memórias fascinantes, um dia comecei a anotá-las sem ter a menor noção do que um dia faria com aquilo tudo. Essa premissa em forma de documento me norteou em termos de linguagem narrativa. Achei por bem evitar todo e qualquer artifício que tornasse aquele depoimento original alegórico, falso. Procurei me aproximar do registro documental, de uma narrativa e de uma câmera mais jornalística, dispensando, radicalmente, alguns acessórios de filmagem, todo aquele aparato técnico que a ficção oficial se apropria, como gruas, travelings, lentes especiais, etc. O mesmo foi buscado em relação à linguagem do texto e à escalação do elenco. A partir do momento que encontrei minha Conceição, acabei armando um quebra-cabeças comigo mesmo, no qual foi impossível continuar a pensar a escalação das outras personagens sem a ideia dos "não atores" ou atores desconhecidos.

Depois, gostaria que comentasse um dado da história, propriamente: a saída da menina Conceição do interior para o Rio de Janeiro. O que o atraiu nessa trama? O desejo de registrar uma realidade que é a de boa parte da população pobre brasileira?

Suburbia é um painel muito simples, mas ao mesmo tempo apresenta reflexões que me parecem abandonadas da grande mídia. Através de uma aproximação inspirada nas imagens de fotógrafos como o Walter Firmo, chegamos a uma família negra do subúrbio carioca. Não abordamos a miséria. A miséria está permeando algumas situações, mas não é o tema principal, nem mesmo a violência. A violência moral está muito mais perceptível e latente que os tiros de revólver. Suburbia poderia ser percebida também como uma fábula social, da eterna luta entre opressores e oprimidos. Em como resistir a este mundo repleto de desigualdades sem perder a pureza e os sonhos.

Gostei bastante, também, da maneira como o subúrbio é retratado em Suburbia, com uma visão bastante interessante da zona norte, com suas festas regadas a música e a cerveja, a sensualidade, etc. Antes, do Rio, só víamos a zona sul. Agora o subúrbio está na moda, vide a recém-encerrada novela Avenida Brasil, com o bairro imaginário do Divino, e que tanto sucesso fez. Suburbia entra nessa vertente de valorização de outras faces do Rio e do Brasil?

Suburbia é uma ideia antiga. Faz mais de dez anos que penso no universo. Na verdade, estava trabalhando sobre um outro texto, quando me foi pedido um projeto para entrar no ar ainda este ano. Abri a gaveta e me deparei com as anotações de Betânia. Em relação à novela, não devemos comparar. São histórias e olhares diferentes, são segmentos diferentes. Sim, no fundo, talvez se complementem. Você poderá até se perguntar onde foi parar aquele universo de Suburbia, e quem sabe encontrará algumas respostas em Avenida Brasil. Mas Suburbia é outra coisa, é um universo muito particular, trata-se de uma família de negros, na qual a memória ainda tem um refúgio. Apesar de todas as contradições já presentes naquela década, o subúrbio é como um espaço congelado no tempo, onde as coisas parecem ter uma certa perenidade. A tradição ainda está em seus moradores, em suas atitudes, em seus códigos de conduta, em seu poder único de conviver em meio às diferenças.

a este mundo repleto de desigualdades sem perder a pureza e os sonhos

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