Através do espelho

Emma Bovary acaba de ressuscitar, com o nome de Gemma Bovery, num homônimo filme naturalmente inspirado em Flaubert

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

30 Maio 2015 | 03h00

Emma Bovary acaba de ressuscitar, com o nome de Gemma Bovery, num homônimo filme naturalmente inspirado em Flaubert, embora adaptado de um romance gráfico de Posy Simmonds. Inglesa, Gemma vai morar, com o marido Charlie, numa pequena cidade da Normandia, onde conhece e passa a ser paparicada pelo jovem padeiro local, que além de baguetes e brioches entende à beça de Flaubert. 

Sim, você já viu, ou melhor, já leu algo parecido. Num velho conto de Woody Allen, O Episódio Kugelmass, incluído na coletânea Side Effects, um professor nova-iorquino chamado Sidney Kugelmass, infeliz a não mais poder com a segunda mulher e doido para ter um caso amoroso arrebatador, conhece um mágico de Brooklyn que o leva para o interior do romance Madame Bovary, a bordo de uma caixa chinesa miraculosa. Kugelmass não encontra dificuldades em seduzir Emma e até a traz para curtir Manhattan, hospedando-a no hotel Plaza. Importar a perdulária Emma foi sua ruína. E mais não conto. Leia o conto, divertidíssimo. 

Transportar-se a passados não vividos ou a situações intangíveis é desejo difuso na obra escrita e filmada de Woody Allen, haja vista a Cecilia de A Rosa Púrpura do Cairo, Zelig e o deslumbrado escritor de Meia-noite em Paris. Mas não uma peculiaridade exclusiva. Em variados graus de intensidade, todos nós sofremos do que talvez não seja inadequado rotular de síndrome de Kugelmass. Pergunte a um amigo letrado em que romance, conto ou poesia ele gostaria de entrar e a resposta quase sempre implicará uma viagem no tempo e a espaços fora do seu, do nosso, alcance. 

Quando menino, viajei num sem-número de aventuras fabulosas. Estive na Ilha do Tesouro, fui adotado por Tarzã, entrei no espelho de Alice, comi quitutes de Tia Anastácia e virei o quinto mosqueteiro. Athos, Portos, Aramis, D’Artagnan... e eu. Soube agora que Ignácio de Loyola Brandão reivindica o mesmo posto. É dele. Pois depois de crescido, concluí que meu destino era o Alasca de Jack London. Entraria em Caninos Brancos e daria um novo lar, na Serra fluminense, ao seu lupino protagonista. Só depois, então, voltaria a entrar na caixa chinesa do mágico de Brooklyn, portando um exemplar de Paris É Uma Festa

Sondei uma dúzia de escritores e pelo menos quatro deles, dois dos quais cariocas, optaram pelo Rio de antigamente. Não o velho Rio de qualquer um, mas o de Machado de Assis, Fernando Sabino e Rubem Fonseca. Sem entrar em detalhes, a paulistana Lygia Fagundes Telles escolheu Dom Casmurro como a ficção em que mais gostaria de imiscuir-se. Paulo Roberto Pires também cravou Machado, mas o de Esaú e Jacó. Com segundas intenções: “Para andar pela cidade daquela época e saber do meu futuro com a cabocla do Morro do Castelo”. Marcelo Moutinho fecha com O Encontro Marcado e o gaúcho Michel Laub com Abril, no Rio, em 1970, o terceiro conto de Lúcia McCartney. 

Moutinho adoraria fazer parte da corriola à clef de Sabino, ser amigo de Eduardo Marciano, Mauro e Hugo. “Iríamos beber pelos bares do Rio e de Belo Horizonte, conversar sobre livros, filmes, política e, claro, aprontar confusões por aqui e ali.” Laub tem outro objetivo: poder ir até um estádio, no caso, o Maracanã original, pagar o equivalente a uns R$ 10 de ingresso e ver aquela geração encantada que nos trouxe a Copa do México – três anos antes de Laub nascer. Sua segunda opção, pelo mesmo motivo, é O Drible, de Sérgio Rodrigues. 

Sérgio Rodrigues, por sua vez, preferiria entrar na magnum opus de Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha. “Pode ser no início, no meio ou no fim”, salienta, desde que também pudesse perambular pelos cafés parisienses, “fumando Gauloises, no encalço de Maga”. Também pela capital francesa, em outra década, circularia J.P. Cuenca, grudado na patota de Jake Barnes, o hemingwayniano flâneur de O Sol Também se Levanta

Se afinal se decidisse por Paris, Cecília Giannetti se infiltraria na própria cotérie de Hemingway, na Rive Gauche dos anos 20, a de Paris É Uma Festa, tal e qual o personagem de Owen Wilson na comédia de Woody Allen. Mas como receia que a acusem de “fútil, cabotina” e de sentir nostalgia do que não viveu, separou algumas alternativas, como o Borges de Ficções e o Italo Calvino de Cidades Invisíveis; descartou os quiproquós de Roberto Bolaño (por duvidar que deles saísse com vida); desistiu do Salinger de Franny & Zooey (“iam dizer que voltei americanizada”); até descobrir que já vive dentro de Naquele Exato Momento, do italiano Dino Buzzatti. Portanto, cartas ou e-mails para ela, a/c Dino.

Há dois tipos de invasores literários. O passivo se satisfaz com apenas entrar e acompanhar tudo de perto, quiçá de forma invisível, como um fantasma, sem interferir em nada. Tal é o caso de Carola Saavedra, que se imagina na ilha de Caliban, em A Tempestade, de Shakespeare, “assistindo ao momento em que Prospero invoca a tempestade”. O invasor ativo ou incorpora um protagonista (a escritora portuguesa Inês Pedrosa gostaria de “experimentar ser Orlando”, o imortal ambissexual de Virginia Woolf, e Daniel Galera reencarnar-se em Helena de Troia, “só pra ver qual é”), ou inventa para si um personagem abusado o bastante para interferir no curso dos acontecimentos. 

Paulo Scott tentaria sacudir Nazareno Barbosa, o funcionário público de Os Ratos, de Dyonélio Machado, “para fazê-lo sair do labirinto de opressão consentida, da enrascada que se tornou a sua vida, uma vida que está mais para a vida de rato do que para vida de homem”. Se mais jovem, Milton Hatoum entraria em São Bernardo, de Graciliano Ramos, se aproximaria de Madalena com palavras lascivas, para enlouquecer ainda mais o ciumento Paulo Honório, “esse personagem machadiano do agreste”. 

Caso não desse certo sua arriscada experiência como Helena de Troia, Galera acompanharia ao vivo, mas passivamente, a caça a Moby Dick, “esfregando o convés do Pequod e tirando umas fotos escondidas com o celular”. Selfie com a baleia ao fundo, nem pensar. 

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