As memórias de um visionário no Brasil

O cineasta alemão Werner Herzog relata o drama de realizar o épico Fitzcarraldo em plena selva amazônica

O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2012 | 03h10

Garras cravadas na imagem de um grande barco a vapor atravessando uma montanha, puxado por uma roldana morro acima, dentro da selva. É com essa descrição que o cineasta alemão Werner Herzog, hoje com 70 anos, lembra o ponto de partida de seu mais alucinado projeto cinematográfico, Fitzcarraldo (1982), cujo diário de filmagens, Conquista do Inútil, será lançado no fim do próximo mês pela Editora Martins Fontes/Selo Martins. Herzog diz que, por motivos que desconhece, não lhe foi possível reler por 24 anos os diários. Trinta anos depois, esses textos, define o diretor, permanecem como "paisagens internas nascidas do delírio da selva".

Obcecado, Herzog já hipnotizou um elenco inteiro para filmar Coração de Cristal (1976), subiu ao topo de um vulcão de uma ilha prestes a explodir em La Soufrière (1977) e, em Fitzcarraldo (1982), ameaçou matar a tiros o ator Klaus Kinski, intérprete do papel-título, quando este decidiu abandonar as filmagens. Briguento e violento, Kinski causou tumulto entre os índios peruanos contratados para o filme e insultou o cozinheiro da equipe alemã. Herzog, ainda assim, fez cinco filmes com ele, mesmo depois que o ator acertou com uma espada a cabeça de um figurante de Aguirre, a Cólera dos Deuses (1972) - filme, aliás, sobre a barbárie dos conquistadores espanhóis em busca de El Dorado na Amazônia peruana.

Surpreendentemente, Kinski não é o centro das atenções em Conquista do Inútil, diário que começa na casa do diretor e produtor Francis Coppola, em San Francisco, nos EUA, no dia 16 de junho de 1979, e termina em 4 de novembro de 1981, quando Herzog quase morreu esmagado ao acompanhar os movimentos do barco a vapor anteriormente mencionado. Puxado por um Caterpillar, o barco soltou-se, ameaçando emborcar. Herzog correu e, descalço, pisou nos cacos de garrafa deixados pelos índios após uma "fiesta noturna". Foi nesse momento, segundo Herzog, que ele caiu em si, percebendo a inutilidade de empurrar um navio montanha acima quando poderia simplesmente ter resolvido o pesadelo com simples efeitos especiais. Mas seria, então, um filme de Werner Herzog?

As provações não pararam por aí, revela o diretor. Outros dois barcos encalharam em Iquitos e, quando o novo navio chegou, ele ficou tão feliz que deu um mergulho onde não devia. A opacidade da água não o deixou ver vigas imensas. Para piorar, um dos membros da equipe começou a fazer coisas sem sentido. Herzog desconfiou que o homem estava usando drogas. Insano, ele tocou fogo na cabana do cineasta, pintou o rosto de preto para ficar invisível, como os índios do filme, e se dirigiu para a cidade numa moto, vestido apenas com uma toalha e uma machete entre os dentes. Lá, raptou duas funcionárias de uma agência de turismo. Herzog teve de recorrer ao suborno para soltar o homem, temporariamente demente.

A maldição da selva não acaba por aí. Uma mulher campa morreu de repente no acampamento do rio Camisea, seguindo-se o afogamento de um índio recém-casado. Herzog, correndo de um lado para outro para apagar incêndios da filmagem, ainda teve de suportar o gênio do ator Jason Robards (primeira opção para o papel-título), que recusou comer masato (mandioca) com nojo da saliva que fermenta a mistura. Mick Jagger, inicialmente escalado para o elenco de Fitzcarraldo, a exemplo de Robards, também pulou fora do projeto (seu personagem, Wilbur, foi retirado do roteiro). Herzog, cabelos em pé, ainda teve de se horrorizar com a selvageria de crianças em Iquitos, que colocam um gato dentro da lavadora de roupas (o felino sobreviveu, mas deixou de ser sociável).

A primeira entrada do Brasil no diário de Herzog é o dia 21 de julho de 1980. Ele está no Rio, visita Cacá Diegues e, uma semana depois, testemunha em São Paulo desmaios de alguns espectadores na exibição de O Enigma de Kaspar Hauser (citado pelo título original, Cada um por Si e Deus Contra Todos, inspirado por uma frase de Macunaíma). No mês seguinte já se encontra em Manaus para apresentar o projeto de encenar no Teatro Amazonas não apenas fragmentos líricos para Fitzcarraldo, mas uma ópera inteira (o filme fala de um aventureiro que fica rico com o comércio de borracha e sonha implantar uma casa de ópera em plena selva). A ópera, Ernani, quase não sai. O assistente de direção de Herzog, Werner Schroeter, teve de ser diplomático para fazer o barítono cantar, após o cantor se recusar ao saber que dona Elvira seria feita por um travesti francês.

Herzog reserva poucas palavras para os coadjuvantes brasileiros de seu filme - e eles eram atores do porte de José Lewgoy (que representa Don Aquilino, um barão da borracha) e Grande Otelo (no papel de um ferroviário). Do último, registra em seu diário, no dia 18 de maio de 1981: "Este ágil minúsculo, que parece ter filhos em todo lugar, e cuja esposa, segundo I. me disse, matou o filho comum e depois se suicidou, parece-me hoje... como o diabo em um filme no qual Walter Matthau seria Deus".

No diário de Fitzcarraldo, Herzog reserva espaço para o mítico diretor francês Abel Gance, autor do monumental Napoleão. Gance estava com 90 anos e tinha o projeto de filmar a vida de Cristóvão Colombo. Sem energia para levar o projeto adiante, conversou longamente com Herzog em setembro de 1979, tentando convencê-lo a filmar seu roteiro. Os dois beberam vinho na mesma garrafa, mas Gance morreu e o épico não foi feito.

Não foi por falta de disposição. Cinco anos antes, Herzog tinha caminhado mil quilômetros, de Munique a Paris, para encontrar outro mito do cinema, a crítica Lotte Eisner, que morria de câncer. Herzog achava que o sacrifício iria fazer com que sua mentora vivesse. O diário de Fitzcarraldo é também um registro à maneira de Caminhando no Gelo (Von Gehen in Eis), o relato dessa viagem, deixando o leitor à deriva sem saber o que é real e o que se passou de fato. De qualquer modo, é o diário de uma fera do cinema, criador de algumas das mais belas imagens da sua história. / A.G.F.

JESUS DE NAZARÉ

Autor: Carl Theodor Dreyer

Tradução: Cecília

Camargo Bartalotti

Editora: Martins Fontes/Martins

(370 págs., preço a definir)

O SACRIFÍCIO

Autor: Andrei Tarkovski

Tradução: Anastassia

Bytsenko e Adriano

Carvalho Araújo e Souza

Editora: É Realizações

(200 págs., R$ 89)

KITANO POR KITANO

Autor: Takeshi Kitano

e Michel Temman

Editora: Martins Fontes/

Martins (271 págs., R$ 48)

Ele reserva poucas palavras para os atores brasileiros que trabalharam no filme, como Grande Otelo

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