Cristiano Marcaro/Divulgação
Cristiano Marcaro/Divulgação

As histórias do Teatro Municipal

Livro que será lançado nesta sexta-feira detalha aventuras de um símbolo de São Paulo

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

01 Dezembro 2011 | 22h00

O projeto começou em 1994, quando o editor Luciano Cerri apresentou a Carlos Eduardo Martins Macedo, hoje diretor da Dado Macedo Produções, um livro ambicioso, todo confeccionado à mão - tratava-se de uma obra sobre o Teatro Municipal de São Paulo, contando sua história e casos mais pitorescos. "O texto era todo batido à máquina, as imagens fotocopiadas, coloridas manualmente, recortadas e coladas, os títulos escritos à mão com fontes especiais, as páginas costuradas compondo uma pequena obra de arte", observa Macedo, recordando-se daquele que seria o ponto de partida para Theatro Mvnicipal (escrito à moda antiga mesmo) de São Paulo - Palco e Plateia da Sociedade Paulistana, livro que será lançado nesta sexta-feira, 2, na Livraria Cultura, ainda na comemoração do centenário do teatro.

Com texto de Marcia Camargos e ensaio fotográfico de Cristiano Mascaro, o volume traz ainda preciosas imagens históricas, que mostram o processo de construção e manutenção do principal teatro de São Paulo, inaugurado em setembro de 1911. Finalmente realizada, o obra também homenageia Cerri que, em 1973, então funcionário da editora que lançava os programas dos espetáculos, salvou um precioso acervo, condenado à destruição depois da falência da editora. Foi a partir desse material que Cerri, morto em 1998, idealizou o projeto, só agora viabilizado por conta de patrocínio.

Considerado o teatro símbolo de São Paulo, o Municipal foi palco de importantes manifestações culturais, como apresentações de Maria Callas, Villa-Lobos, Enrico Caruso, Arturo Toscanini, Arthur Rubinstein, Ana Pavlova, Nijinsky, Isadora Duncan, Nureyev, Margot Fonteyn, Mikhail Baryshnikov, Duke Ellington, Miles Davis, Ella Fitzgerald, Astor Piazzolla, entre outros. Também abrigou a Semana de Arte Moderna de 1922, que consolidou a chegada do modernismo ao Brasil.

Em seu texto, Marcia Camargos traz tanto as minúcias da construção do teatro (o arquiteto Ramos de Azevedo, por exemplo, instalou-se em um escritório improvisado ao lado da obra para acompanhar os trabalhadores) como traça um retrato da sociedade paulistana do início do século passado. As fotos antigas revelam uma cidade ainda livre de arranha-céus - a região do Municipal, hoje tomada por prédios e trânsito pesado, era circundada por plantações de café e, onde hoje está o shopping Light, funcionava o Teatro São José, aberto em 1909 para "apresentar trupes europeias, emblemas da modernidade almejada pela elite paulistana", escreve Marcia.

Segundo ela, esse era o motivo que justificava a construção do Municipal, obra levantada depois de oito anos de trabalhos ininterruptos: dotar São Paulo de equipamentos culturais condizentes com sua vocação de metrópole emergente. Enquanto os políticos e arquitetos cuidavam do custo do projeto (em valores atuais, a construção consumiu R$ 45 milhões), alguns locais eram cogitados para receber o prédio, como a Praça João Mendes (atrás da Catedral da Sé), a Praça da República e o Largo São Francisco.

Por fim, foi escolhido o terreno próximo ao Viaduto do Chá, onde o teatro aproveitou as características do espaço, com a frente para a Rua Barão de Itapetininga e a lateral para a esplanada, que já prenunciava os ajardinamentos previstos pelo paisagista francês Joseph Bouvard.

Depois de pronto, o Municipal (que consumiu 4,5 milhões de tijolos e 750 toneladas de ferro) iniciou, logo em sua estreia, uma coleção de fatos folclóricos. Primeiro, a data de estreia: inicialmente prevista para 11 de setembro, acabou ficando para o dia seguinte, pois os cenários, que vinham da Argentina, atrasaram. A chegada do material em carroças provocou o primeiro congestionamento da história da cidade.

Para marcar a abertura, foi escolhida a ópera Hamlet, na versão do francês Ambroise Thomas. A medida despertou críticas, especialmente dos nacionalistas. O impasse foi resolvido com um solução improvisada: antes da ópera, foram executadas as notas de O Guarani, de Carlos Gomes. Com isso, o espetáculo só pode começar às 22 h e foi interrompido três horas depois, pois já estava muito tarde. Assim, a plateia foi embora sem assistir ao epílogo. Na verdade, observa Marcia Camargos, não houve reclamação, pois várias festas estavam programadas. E todos queriam mesmo era conhecer o Municipal.

Theatro Mvnicipal de São Paulo - Palco e Plateia da Sociedade Paulistana: Livraria Cultura. Av. Paulista, 2073, tel. 3170-4033. Sexta-feira, 2, 19h

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