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As artes plásticas contra a ditadura militar

Exposição que abre hoje no CCBB do Rio recupera obras criadas em presídios durante os anos de chumbo

Roberta Pennafort/ RIO, O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2014 | 02h11

A reação à ditadura militar por parte da música e do teatro brasileiros enobrece o currículo de nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Geraldo Vandré e José Celso Martinez Correa. Mas pouco se fala dos artistas plásticos que verteram para suas obras a angústia e o desalento impostos pelo regime, e que sofreram as consequências disso, sendo censurados ou mesmo presos e torturados.

Militante, Sérgio Ferro, pintor e desenhista, ficou um ano encarcerado. Pintor, fotógrafo e líder estudantil, Antonio Benetazzo sofreu torturas e agressões tão intensas que a justificativa dada para sua morte foi atropelamento por um caminhão. Entre outros, os dois estão representados na exposição Resistir É Preciso..., organizada pelo Instituto Vladimir Herzog e em cartaz a partir de hoje no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio.

"Os artistas não se calaram, protestaram à sua maneira. Mas não tiveram a mesma repercussão. A pintura é algo muito mais complexo do que uma canção popular", avalia Ferro.

No presídio Tiradentes, ele conviveu com artistas que também foram incluídos na mostra, como Alípio Freire e Sérgio Sister. Ferro homenageou Carlos Lamarca fazendo dele um São Sebastião, um mártir da liberdade. Freire usou materiais do dia a dia na prisão, como um pedaço de espelho e uma escova de dentes numa colagem; Sister criou superposições. Artistas fundamentais da arte contemporânea, como Cildo Meireles, Ivan Serpa, Antonio Dias, Hélio Oiticica e Carlos Vergara, participam com obras igualmente contestadoras.

A Morte No Sábado, de Antonio Henrique Amaral, representa o assassinato de Herzog, em 1975. A impressionante série de gravuras Natureza Morta, de Alex Flemming, com cenas de torturas - pés acorrentados, mamilos cortados com gilete, um rosto asfixiado com plástico - é de 1978.

A mostra tem fotos representativas do período, vídeos e entrevistas, reproduções que mostram a atuação da imprensa alternativa e uma linha do tempo de 1960 até a eleição de Tancredo Neves, em 1985. A configuração tem forte apelo junto ao público jovem. "O jovem não conhece essa história. Aprende na escola de maneira superficial e lhe parece algo tão distante quanto a Guerra do Contestado", diz o curador, Fábio Magalhães.

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