Artificialidade para falar de coisas verdadeiras

É a própria Ana Carolina quem diz - seu novo filme, Primeira Missa, é filhote da primeira ficção, Mar de Rosas. O que a história de um casal que avança pela estrada com a filha tem a ver com a de um diretor que tenta concluir seu longa sobre a Primeira Missa? Ana Carolina conta a reação de um espectador na sessão para convidados em Brasília - "Mas eu não sabia que a gente tem de tomar as coisas a peito." O diretor enfrenta um trio de burocratas que irrompe no set de filmagem. Representam o Estado. Vieram controlar a produção. Discutem se o filme é viável, economicamente, para o mercado. E discutem alternativas para torná-lo mais atraente para o público.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2014 | 02h07

Uma delas é contratar atores gringos. Ou então incrementar o sexo. A burocrata, que se chama Juciara Tamoyo, é uma austera senhora que se veste de cinza. Numa cena, topa com o índio nu - e encara a genitália dele. Além de desnudo, o intérprete do silvícola está fumando seu baseado. Joga a fumaça na cara dela. O set inteiro parece à beira de um ataque de nervos. Só ele está zen.

Ana Carolina fez o filme mais desconcertante da atual safra da produção brasileiro. Na entrevista acima, ela conta que se deu conta, depois, de que o filme virou uma espécie de novo Manifesto Pau-brasil. O País explode em reivindicações - elas estão no filme, no complicado processo que é fazer cinema no País. Crítica, humor, escracho. Tudo isso pode produzir estranhamento, mas os 15 minutos finais de Primeira Missa são deslumbrantes. Viscerais.

O mercado está o tempo todo em pauta. A economia do cinema. O diretor do filme dentro do filme proclama que é preciso ser muito macho para resistir à intervenção branca que está ocorrendo no set. Um dos atores portugueses lhe brada que resista - até o fim. Nada de realismo cênico. É tudo assumidamente artificial, numa floresta construída em estúdio, numa praia pintada. É preciso toda essa artificialidade para que Ana Carolina, fiel a si mesma, diga coisas verdadeiras sobre o que é ou como é fazer cinema no País.

Talvez, de todos os filmes brasileiros recentes, Primeira Missa, com toda a sua originalidade, tenha parentesco com Sagrado Segredo, que um egresso do cinema marginal realizou em 2009. Ambos buscam o sagrado, o mítico. André Luiz de Oliveira constrói sua ficção em torno de um documentário sobre a Paixão de Cristo encenada na periferia da Capital Federal. Ana Carolina remonta às origens do Brasil, à Primeira Missa. Não discute só se o cinema brasileiro é viável. Discute se o Brasil é viável. Descontinuidade, desequilíbrio. Muita beleza visual. E tudo converge para o desfecho de deixar cinéfilo chapado. Ana Carolina conta na entrevista como foi difícil fazer o filme. Como foi preciso ser macho. Não é só com Mar de Rosas que Primeira Missa reata. Todo o cinema de Ana Carolina pulsa nessa ficção ensandecida.

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