Cláudia Trevisan/AE
Cláudia Trevisan/AE

Arte brasileira na China

Colecionadora promove residências entre os dois países

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / PEQUIM

Sarina Tang é dessas pessoas que só podem ser definidas com nomes compostos: colecionadora-mecenas-curadora ou chinesa-brasileira-americana que vive entre NY e Pequim. Também é uma espécie de ativista cultural, com a autoimposta missão de divulgar na China a arte contemporânea brasileira.

Desde 2009, já levou quatro artistas nacionais para residências de um a dois meses no país asiático: Gabriela Maciel, Lia Chaia, Caio Resewitz e Marcos Chaves. A experiência faz parte do projeto Diferenças Compartilhadas, pelo qual mais dois brasileiros vão à China e seis chineses farão residência no Brasil em 2012.

No fim, as criações realizadas durante ou a partir dessa imersão na cultura alheia estarão em uma megaexposição que Sarina pretende realizar na China, na qual deverão ser incluídas obras de outros artistas brasileiros, entre os quais Adriana Varejão e Vik Muniz - autor de dois enormes quadros que decoram a residência da colecionadora em Pequim, onde também há trabalhos de Janaina Tschape.

"A energia da arte contemporânea brasileira é uma das mais interessantes do mundo", disse Sarina ao Estado em seu apartamento na capital chinesa.

O resultado da trajetória de Sarina é um híbrido de chinesa que fala português e brasileira que fala chinês e transita no universo artístico dos dois países. "Os chineses não conhecem as obras dos brasileiros e como tenho dupla nacionalidade quis ampliar o mercado para a arte brasileira."

O projeto de residência é patrocinado pela Currents, uma fundação criada por Sarina nos EUA. No caso de Caio Resewitz, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil bancou a passagem.

Três dos artistas que já estiveram na China ficaram hospedados e trabalharam em um estúdio mantido pela Currents na periferia de Pequim. O espaço fica nas imediações de distritos artísticos da capital, mas está distante o bastante deles para que os artistas mergulhem no mundo local. A região é pobre e desprovida de vizinhos estrangeiros. Ninguém fala nada além de chinês, as placas estão escritas em mandarim e pegar um táxi exige uma caminhada de pelo menos 1 quilômetro. "A ideia é que os artistas tenham uma experiência intensa", ressaltou Sarina.

Resewitz preferiu sair da capital e explorar o universo rural do sul da China. "A forma bruta do meu trabalho é a fotografia e tenho que sair a campo para captar as imagens que estão na minha cabeça", observou ele.

O artista estava lá em outubro de 2010 quando o dissidente Liu Xiaobo ganhou o Nobel da Paz e pôde presenciar a reação enfurecida de Pequim. De volta ao Brasil, relatou por email: "Vi um ritmo de crescimento incrível, disciplina, repressão, ditadura escondida...".

Apesar de a China ter 5.000 anos de história, Sarina lembrou que essa longa ligação com o passado foi interrompida pela Revolução Cultural (1966-1976), que também adiou qualquer tentativa de arte que não fosse politicamente engajada. Isso retardou o desenvolvimento da arte contemporânea no país, que só agora começa a renascer.

Com seus pouco mais de 500 anos, o Brasil possui uma tradição mais sólida que a China no terreno da arte contemporânea, avaliou a curadora. "A Bienal de São Paulo é a segunda do mundo e existe há 60 anos. Não há nada parecido na China."

Preferências

A admiração de Sarina Tang pela arte brasileira fica evidente ao se observar as paredes do seu apartamento em Pequim, que exibem telas de Vik Muniz e de Janaina Tschäpe.

BICICLETA, FOTOS E CRIAÇÃO

Nos quase dois meses de residência em Pequim, o artista plástico carioca Marcos Chaves não usou o Facebook - bloqueado na China - e aderiu totalmente à bicicleta, com a qual saía todos os dias para fotografar cenas das ruas e do cotidiano da cidade. O mandarim era a única língua falada na vizinhança, o que testou a capacidade de improvisação e expressão corporal do brasileiro.

O estranhamento aliado à relativa reclusão estimularam a criatividade de Chaves, que trabalhou de maneira intensa. Na volta ao Rio, levava no computador pelo menos 2.000 imagens.

A bagagem incluiu uma das obras que realizou sob influência da estética milenar do antigo império: uma montagem de fotos de pequenos objetos expostos em mercados de antiguidade, impressas em painel de seda.

O trabalho é uma referência às pinturas tradicionais feitas em seda. Sua produção também foi beneficiada pelo fato de o custo de produção artística na China ser mais baixo e as possibilidades tecnológicas mais diversas que no Brasil.

A amplitude do estúdio o inspirou a realizar obras de grandes proporções. Chaves costuma trabalhar com objetos banais do cotidiano. Na China, ficou fascinado pela onipresença de uma espécie de lona de plástico com listras brancas, vermelhas e azuis que cobre os tapumes dos inúmeros canteiros de obra. Chaves usou o material para criar uma enorme bandeira da China "globalizada",

Gabriela Maciel e Lia Chaia foram as pioneiras do projeto de residência, do qual participaram em 2009. A experiência foi tão intensa e gratificante para a Gabriela que ela decidiu ficar mais nove meses por conta própria. "Foi impactante e abriu as portas para novas fases de criação", disse Gabriela por email, sobre sua passagem pelo país asiático.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.