Aprender e esquecer

Talleyrand tornou a arte da sobrevivência política algo a fazer inveja aos políticos do Brasil

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2018 | 02h00

Charles Talleyrand (1754-1838) é uma figura única na política francesa. Príncipe-estadista, serviu a governantes distintos, tornando a arte da sobrevivência política algo a fazer inveja aos políticos aqui do Brasil. Seu defeito físico no pé o afastou do serviço militar e o inclinou à carreira eclesiástica. Na Revolução Francesa, vendo que os ventos anticlericais aumentavam, apoiou a Constituição Civil do Clero e foi excomungado. Com a radicalização pós-1789, foi para os Estados Unidos respirar novos ares e manter a cabeça. Na volta, serviu ao Consulado e conseguiu ingressar no novo mundo napoleônico. Ministro dos Negócios Estrangeiros do Imperador, acabou ficando contra o Corso e organizou a oposição ao ex-chefe. Continuou importante no governo dos Bourbons restaurados. Paradoxo aparente da política, o homem que havia estado no início da revolução e apoiado Napoleão era agora o representante francês no Congresso de Viena, cujo objetivo era apagar o fogo da revolução e deletar a obra de Napoleão. No fim, quando os Bourbons foram derrubados, em 1830, o camaleão acusado de cinismo, Talleyrand, estava lá, ao lado do novo governo da casa de Orleans.

O estimado leitor e a querida leitora identificaram na sintética trajetória que esbocei alguma semelhança vaga com nossa política tupiniquim? Talleyrand sempre afirmava que servia à França e não a governos. Tenho a desconfiança de que sempre serviu a ele, ao benefício da sua fortuna (foi acusado de corrupto mais de uma vez) e a seu poder, nunca a governos ou a franceses.

O príncipe que sempre soube sobreviver politicamente era inteligente. Sim, todos precisamos saber que caráter e inteligência não são antípodas necessários. Observando a volta dos Bourbons ao poder em 1814-1815, Talleyrand viu como os irmãos do rei decapitado perseguiam furiosamente quem tinha atacado o Antigo Regime e como ignoravam o novo mundo trazido pelo trio ideal “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Analista preciso da falta de tato político e dos riscos dela (no que estava correto), teria dito que a família reinante “não aprendeu nada, não esqueceu nada”. O “não aprendeu” refere-se à não percepção do novo momento e das emergentes forças sociais e políticas em ação. O “não esqueceu” era uma indicação da falta de cooptação política e de capacidade de certa amnésia que a política implica. Sim, ontem você cortou a cabeça do meu irmão, mas hoje estou no jardim da sua casa apertando sua mão, pois o momento é outro...

Talleyrand tinha razão. Por não aprenderem e não esquecerem o que deveriam, os Bourbons foram derrubados novamente, em 1830. O príncipe claudicante deveria ter pensado nas jornadas revolucionárias daquele ano: “Eu sobrevivi a Luís XVI, sobrevivi a Robespierre, ao Consulado, a Napoleão, a Luís XVIII, a Carlos X e pretendo me aliar aos novos governantes!”. Talleyrand tinha razão: quem não dobra a espinha e se mostra maleável tem pouco futuro na política como a conhecemos até hoje. Ele era prático, porém não estava correto.

O ex-religioso acertou: se o seu objetivo é unicamente sobreviver, vale a mesma regra darwinista básica - quanto mais capaz de se adequar a qualquer ambiente, mais a espécie terá esperanças de ultrapassar barreiras. Se o político pretende quatro mandatos, dois ministérios e oito emendas orçamentárias, cumpre o modelo dos pequenos ratos mamíferos e não dos imponentes dinossauros.

Quando cair o meteoro e o gelo vier, os que estiverem refugiados em tocas e buracos escuros podem atravessar o momento e chegar a uma nova era onde consigam se reproduzir de novo. Talleyrand era um darwinista avant la lettre, um homem que ensina tudo sobre ultrapassar barricadas, revoluções, votações e princípios, um arquetípico maquiavélico.

A tática do príncipe-chanceler funciona e é, inegavelmente, eficaz. Ele se descola de princípios em geral e consagra o “salvar-se” como cláusula pétrea. Não entrarei no mérito do julgamento que a História e Deus possam fazer. Talleyrand deveria ser indiferente ao metafísico da História e à hipótese de Deus.

Li muitas biografias e muitos textos de Talleyrand. Existe uma coisa que sempre pareceu escapar à inteligência dele. Nem sempre é preciso sobreviver no poder. Nem sempre a manutenção de um status quo é boa e adaptar-se a um novo pode não ser o Graal supremo. Sempre faço a pergunta: para quê? Qual o objetivo de estar inserido em um novo momento? Por que manter tal posição? 

História não é uma entidade moral. Posso retirar conclusões opostas daquilo que li em Talleyrand. Porém, não como historiador, mas como indivíduo, sempre acho que nem todo emprego vale a pena ser mantido, nem todo casamento vale a pena a luta pela sua continuidade e nem toda a recompensa financeira justifica certas escolhas.

Sim, os ratos sobrevivem mais do que os dinossauros. De novo, ninguém duvida da eficácia da adaptação. Tenho a sensação hoje de que os grandes partidos brasileiros (e vários médios e pequenos) não aprenderam nada e não esqueceram nada. Continuam a apostar que nós esqueçamos, ao menos. Será que conseguimos aprender alguma coisa? Boa semana para todos nós. 

Mais conteúdo sobre:
Leandro Karnal

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.