Ansiedade cultural

A ansiedade cultural pode ter tido um peso maior do que a ansiedade econômica

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

15 Maio 2017 | 02h00

A semana mais extraordinária da democracia americana em pelo menos quatro décadas teve várias frentes de conflito. Mas a abrupta demissão do diretor do FBI James Comey expôs de novo uma ferida: o peso da carta desastrosa de Comey do dia 28 de outubro passado comunicando ao Senado a descoberta de novos e-mails no computador de uma assessora de Hillary Clinton. A carta foi logo vazada por um deputado republicano. Os e-mails não eram novos e não havia motivo para reabrir a investigação sobre a estúpida ideia de manter um servidor privado quando Hillary era secretária de Estado. Quando Comey deixou isto claro, às vésperas da votação, era tarde demais, segundo pelo menos um respeitado analista de pesquisas. Hillary perdeu o Colégio Eleitoral por menos de 80 mil votos em três estados decisivos e a oscilação das pesquisas a partir da carta sugere Comey como um fator na derrota.

Na terça-feira, Hillary foi direta: “Se a eleição fosse no dia 27 de outubro eu seria a presidente.” O comentário enfurece até democratas que a consideravam uma candidata com excesso de bagagem.

Mas não há um só motivo para a derrota que surpreendeu até o vencedor, hoje infeliz no emprego que não esperava conseguir, gravando várias horas diárias de programas de jornalismo no cabo que jura não assistir mas cita em detalhes.

Outro motivo favorito de conservadores e imitadores da Fox News ao sul do Equador foi a insensibilidade de elitistas liberais (a esquerda nos EUA) com o sofrimento da classe trabalhadora branca que votou em peso no atual presidente. Os brancos americanos elegeram Trump mas há uma diferença: entre os que têm curso universitário, a vantagem do presidente foi de 4%. Já entre brancos sem diploma superior, duas vezes mais eleitores votaram nele do que em Hillary.

O mea culpa inicial entre os democratas se concentrou na “ansiedade econômica” entre trabalhadores brancos e o estereótipo preferido eram mineiros de carvão, desempregados pelo declínio desta fonte de energia que Trump prometeu trazer de volta. Acusados de só cobrir as grandes cidades e ignorar o país entre as costas leste e oeste, equipes de mídia aterrissaram equipadas de sentimento de culpa em zonas rurais e pequenas cidades, entrevistando as chamadas vítimas da globalização.

O problema desta narrativa piedosa é que ela ignora outro fator, cada vez mais claro nas pesquisas que continuam a examinar o resultado de novembro. A ansiedade cultural pode ter tido um peso maior do que a ansiedade econômica.

O matemático Spencer Greenberg opera um website de consultoria de decisões corporativas e políticas e concluiu que o maior previsor de voto em Trump era a rejeição ao politicamente correto. Os eleitores de Trump se sentem vítimas como minoria de uma cultura da qual discordam – direitos de reprodução das mulheres, de gays, diversidade racial. É uma direita que se sente derrotada e patrulhada pelo que considera esquerdismo nas escolas, nas instituições sociais. Sim, há intolerância esquerdista de sobra hoje em dia. Não é à toa que a esmagadora maioria dos evangélicos brancos preferiu um adúltero casado três vezes, surpreendido numa gravação se gabando de assédio sexual, o famoso “agarro pela vagina.” 

A ansiedade cultural se manifesta intensamente na questão da imigração. Entre trabalhadores brancos, 68% dizem que é preciso proteger o país de “influência estrangeira.” Quem ridiculariza os democratas por elitismo na “política de identidade liberal” ignora que a exploração demagógica do conservadorismo cultural plantou o homem na Casa Branca.

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