Análise: Moralistas podem ser tão nocivos à sociedade quanto os assediadores

Há quem curta cantadas, há quem não. As francesas que assinaram o manifesto curtem. Devemos crucificá-las por isso?

Márcia Tiburi, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2018 | 06h00

O manifesto das francesas é um texto complexo. Talvez precisemos lê-lo com mais atenção. Os ataques entre as mulheres e as feministas servem menos ao feminismo do que ao patriarcado, todas sabemos. É uma estratégia alimentada pelos machistas que, nesse momento, intensificam o escândalo fazendo pesar mais a crítica que têm surgido entre as mulheres americanas e francesas e diminuindo o peso das denúncias tanto de Oprah quanto aquelas que estão em jogo no texto das francesas. Melhor jeito de enfraquecer o que Oprah diz é intensificando o que as francesas disseram, recortando e criando mal entendidos. Então, vamos devagar. 

Além de tudo, para entender o que se passa, bom lembrar que há duas culturas em jogo nesse debate, a francesa, que bancou a ideia de liberdade sexual e quer dar importância a isso, e a americana, que tem uma marca mais sexualmente puritana. 

A meu ver, as francesas estão sendo usadas pela imprensa machista. As francesas escreveram com certo medo do puritanismo americano, com medo de perder uma conquista cultural que é a liberdade do desejo feminino. Mas em nenhum momento disseram que acham bacana o assédio. Elas defendem o jogo de linguagem sexual que envolve a cantada. Isso não diminui o que disse Oprah. 

A luta das feministas está correta quando se dirige aos homens assediadores – afinal, vivemos em uma cultura do assédio, mas está errado dizer que as francesas estejam defendendo o assédio ou qualquer tipo de violência sexual. Elas defendem a liberdade do flerte que, no seu contexto, de classe e idade, lhes agrada de algum modo, tem algum valor. Então, a meu ver, estamos dentro de uma falsa polêmica.

Essa polêmica se alimenta de questões complexas que estão sendo confundidas para gerar a própria polêmica. O que é violência sexual? Que tipo de violência é o assédio? O que é cantada? Qual sua diferença em relação a assédio? A cantada deve ser aceita ou rejeitada como o assédio? Ora, cada uma dessas questões pode ser respondida de um modo racional e ético. 

Há quem curta cantadas, há quem não. As francesas que assinaram o manifesto curtem. Devemos crucificá-las por isso? A meu ver, devemos dialogar mais, impedindo que a crítica da cantada – que eu julgo necessária – burocratize as relações e nos faça perder a poesia possível em nossas relações de cunho sexual. Penso não apenas nas relações de cunho heterossexual. Criar uma legislação para decidir sobre esses aspectos da vida privada não nos tornará sujeitos extremamente moralistas? Não sei. Moralistas podem ser tão nocivos à sociedade quanto assediadores. A maior parte dos assediadores usa uma máscara moralista. Talvez as francesas estivessem preocupadas com isso.

Ao mesmo tempo, talvez as pessoas – homens e mulheres – devam ser mais cuidadosas com a forma com que expressam seus desejos para o outro a quem sentem vontade de expressar algo dessa natureza. Um assediador, no entanto, não expressa um desejo, ele pratica uma violência. 

A diferença entre assédio e cantada, aliás, está aí. Enquanto o assédio é violento, a cantada é uma espécie de comunicação não violenta. Ela tem modulações. O que pode ser violento para uma puritana, pode ser aprazível para uma mulher livre. A cantada é um jogo de linguagem que se dá em contextos. Podemos impedir as pessoas de viverem esse jogo?

Talvez, no entanto, a cantada esteja em extinção, talvez ela já tenha até desaparecido pelo empobrecimento da linguagem que experimentamos no atual cenário. Talvez só reste o assédio. E tudo isso porque a poesia está em baixa. E, com ela, a ética como capacidade de reconhecer o outro e respeitá-lo. 

MÁRCIA TIBURI É FILÓSOFA

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