Tiago Querioz/AE
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Alfredo Bosi, um mestre entre a crítica e a utopia

Professor de literatura da USP fala em entrevista exclusiva sobre seu livro 'Ideologia e Contraideologia'

15 Maio 2010 | 05h00

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S. Paulo

 

SÃO PAULO - Logo no início de Ideologia e Contraideologia, Alfredo Bosi, professor titular de literatura da USP, cita o ensaísta francês Montaigne, que, falando dos nativos do Novo Mundo, disse: "Cada um de nós chama barbárie aquilo que não é de seus hábitos." Providencial lembrança. Como Montaigne no passado, Bosi observa apreensivo o recrudescimento do fanatismo e da intolerância no mundo contemporâneo, responsáveis pela erosão dos valores democráticos.

 

link Leia trecho do capítulo 'A Renascença entre a Crítica e a Utopia'

 

Seu livro, um ensaio sobre seis séculos da acidentada civilização ocidental, começa com Montaigne (1533-1592), passa por Locke (1632-1704), Condorcet (1743-1794), Comte (1798-1857), Durkheim (1858-1917) e Gramsci (1891-1937) até chegar ao mais estudado entre os livros de Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que o autor denuncia "a ideologia excludente e preconceituosa do velho liberalismo oligárquico" brasileiro. Sobre Ideologia e Contraideologia, o ensaísta e crítico, membro da Academia Brasileira de Letras, falou ao Sabático, na entrevista a seguir.

 

Atualizando uma questão proposta a Rousseau pela Academia de Dijon, o senhor acha que a ciência - da informática, inclusive - contribui para o aperfeiçoamento dos costumes e da sociedade? A internet está forjando uma ideologia?

Apesar da enorme diferença de contexto que nos separa dos escritos de Rousseau, a questão que lhe foi proposta continua atual, pois ainda está longe de receber uma resposta única e satisfatória. Os acadêmicos de Dijon queriam saber se "o renascimento das ciências e das artes contribuiu para o aperfeiçoamento dos costumes". Já no século das Luzes percebia-se o descompasso entre a civilização material e a ética, instâncias que a maioria dos ilustrados supunha serem irmãs gêmeas. Hoje a perplexidade conhece alvos diferentes. A difusão maciça das técnicas e das ciências aplicadas se faz mediante os recursos da informática. A escala é planetária, o que torna difícil emitir juízos de valor sobre os seus efeitos mentais e morais. Parece mais sensato pensar a questão em termos de fins, ou seja, de motivações dos usuários. O cidadão que procura na internet informações idôneas que respondam a suas dúvidas ou a suas preocupações sociais e éticas se beneficia de dados que poderão ajudá-lo a desmontar as tramas da ideologia corrente. É o seu antídoto possível em relação a informações manipuladas pelo poder do mercado, da mídia alugada ou do Estado. Mas há também o outro lado da moeda, que é real: se os interesses do internauta forem egocêntricos ou agressivos, o mal assumirá proporções inéditas na história da humanidade, na medida em que se reforçam aspectos perversos de determinadas correntes ideológicas: o consumismo irresponsável, a idolatria do capital ou do Estado, os fundamentalismos de todo tipo. Não nos resta senão pensar e agir no sentido de contrastar com os meios disponíveis as perversões ideológicas com o sal da terra que é a contraideologia. Algumas de suas formas merecem ser contempladas: a crítica, os trabalhos da ciência e da arte, a autorreflexividade e algumas vertentes libertadoras da vida espiritual e religiosa.

 

Rousseau permanece um modelo de luta contra uma sociedade assimétrica. Com a globalização, a progressão da desigualdade parece reafirmar o poder de sistemas políticos hierárquicos. Como o senhor vê o homem que está surgindo dessa nova ordem política e econômica? Estaríamos diante de uma mutação antropológica?

A questão foi tratada no Segundo Discurso de Rousseau (1755), que não venceu o concurso da Academia, mas inaugurou uma corrente democrática radical. O Antigo Regime, fundado na sociedade de ordens e estamentos, era iníquo. Alguns anos depois da morte de Rousseau, a Revolução Francesa destruiu o velho sistema e mudou a sua estrutura política. A burguesia passou a ocupar o centro do poder, destronando a nobreza hereditária. As classes médias e o proletariado cresceram consideravelmente e tiveram que empreender uma luta árdua para ter acesso aos bens da nova sociedade industrial e da cidadania liberal. Confira-se o longo percurso das classes subalternas para chegar ao sufrágio universal e às leis trabalhistas. Quanto à globalização capitalista, que vivemos há 40 anos, é evidentemente assimétrica e, não por acaso, sacudida por crises intermitentes. Não me arrisco a afirmar que esses espasmos febris do capital e, por tabela, dos governos, estejam produzindo uma mutação antropológica. Mas o que salta à vista, de todo modo, é a difusão de um sentimento de insegurança que parece transversal, pois penetra em todas as classes. O ‘homo timens’ apoderou-se do homo sapiens, lançando-o em um estado de incerteza de que ele procura fugir imergindo na futilidade do prazer consumista ou nos confortos da técnica vendidos pela civilização de massas. Há também evasões fundamentalistas que exprimem graus de insegurança existencial significativos. O fato de cada um buscar o seu refúgio é uma fatalidade que data, pelo menos, da idade das cavernas. Mas é justo temer o excesso de temor. Esse comportamento é perigoso, pois, como dizia Alain (Émile Chartier, 1868-1951): "Je n’ai peur que des faibles." Só tenho medo dos fracos, ou melhor, dos que se sentem fracos e reagem por meios violentos.

 

O senhor observa que a história mundial paradoxalmente deu razão e desmentiu Condorcet, mostrando que o ser humano pode retroceder ao estado de barbárie, seja pelo nazi-fascismo ou pelas atrocidades do Iraque. Essa onda de irracionalismo espalhada pelo mundo pode ser vista como sinal de uma nova barbárie que vem por aí?

Tenho uma profunda admiração pelo homem Condorcet e pela sua obra. Este "último dos iluministas" foi perseguido pelo Terror, teve Robespierre entre os seus desafetos, mas até a sua hora final acreditou na revolução como passagem para um estágio racional superior da humanidade. Para ele, instrução e progresso deveriam sempre dar-se as mãos. Inspirou outro pensador de fôlego, Auguste Comte, hoje tão maltratado pelos que não o leem e se contentam em realçar alguns traços conservadores ou mesmo caducos do positivismo. Na passagem do livro dedicada a Condorcet reconheço a generosidade do seu pensamento, que inclui todos os bens produzidos pelas ciências, embora seja necessário relativizar a sua crença no progresso. A crença foi, em parte, desmentida pelo uso criminoso que o complexo industrial-militar fez, por exemplo, dos conhecimentos da Física Nuclear e da Química. Novamente, a questão crucial é sempre a do uso dos meios que transgride a ética dos fins.

 

Segundo sua conclusão, o discurso ideológico seria sempre elaborado na chave retórica da persuasão. Como Mannheim, o senhor sugere que se desconfie da ideologia?

O pensamento de Mannheim é rico e diferenciado, não podendo ser reduzido a fórmulas estreitas. Para Mannheim, ideologia não é, necessariamente, produção de ideias por uma determinada classe visando sempre a mistificar o próprio poder sob a máscara de verdades universais. Ao lado dessa concepção fortemente valorativa, que descende de A Ideologia Alemã, de Marx e Engels (e que Mannheim em boa parte acolhe), haveria estilos de pensar vigentes em certos grupos sociais e em certos momentos históricos que moldariam este ou aquele tipo social, sem que se possa acusar neles um caráter intrinsecamente fraudulento e mistificador. Mannheim é um dos criadores da sociologia do conhecimento, mas estava consciente de que, se relativizamos todo o nosso saber condicionando-o à nossa classe, ninguém escapará desse determinismo, a começar pelo próprio sociólogo do conhecimento... Para sair do impasse, Mannheim propõe que o intelectual se dedique à percepção dos limites do seu grupo de origem e se coloque em um ângulo crítico que o livraria dos estereótipos da sua classe. É uma esperança.

 

O termo ideologia, no sentido marxista, seria inadequado para qualificar o discurso de vários pensadores. No entanto, a utopia da igualdade radical renasce das cinzas em todos os momentos de crise. O mundo ainda virá a ser socialista?

Eu teria um enorme prazer se pudesse responder com um alto e sonoro "sim!" a esta pergunta. Entretanto, o olhar que dirijo ao que posso alcançar (certamente pouco) não me autoriza a ir além de uma esperança, que suponho bem fundada, nas potencialidades de um reformismo democrático. Acredito em soluções que deram certo, o Estado-providência, por exemplo. E em propostas que já foram ou estão sendo testadas: o desenvolvimento sustentável, a democracia participativa, o orçamento participativo, a economia solidária. A contraideologia precisa dispor de meios a curto e médio prazo para sustentar-se. Quanto às utopias, há sempre tempo para sonhar.

 

O livro revela certa antipatia pela sociologia - definida como "filha dileta do positivismo" - e simpatia pelo inconformismo dos filósofos. O mundo contemporâneo estaria carente de bons pensadores, sufocado de "ideologias" e tabelas criadas por sociólogos? O senhor tenderia mais para o lado dos utopistas e menos para o dos ideólogos?

Sigo de perto as considerações críticas feitas por Gramsci sobre a sociologia norte-americana que, na sua época, mapeava a "realidade" mediante tabelas estatísticas que tendiam a imobilizar o rosto do processo social. A teoria crítica de Horkheimer e Adorno chegou, com outra linguagem, a igual consciência em relação à sociologia acadêmica ocidental. Gramsci, porém, dava a devida importância ao estudo sociológico que permite detectar algumas tendências de comportamento no interior das classes sociais.

 

Reafirmando as palavras de Albert Camus, o senhor elogia o balanço que Simone Weil faz em L’Enracinement, no qual ela critica o capitalismo ocidental e o estatismo soviético. Como essa herança contraideológica poderá vencer a ideologia da "agressividade" do produtor em tempos de globalização?

Camus compreendeu precocemente a agudeza do pensamento de Simone Weil, cuja obra começou a editar pela Gallimard. Simone Weil analisou lucidamente não só os males do capitalismo industrial como também a opressão que o stalinismo exercia sobre o proletariado russo. Em ambos os sistemas, a produtividade, que parecia beneficiar a todos pelo seu aumento exponencial, na verdade se convertia, com o tempo, em uma força destruidora da natureza e do trabalhador. São memoráveis as discussões de Simone Weil com Trotski em 1933. É preciso ler e reler com atenção o seu extraordinário ensaio Reflexões sobre as Causas da Liberdade e da Opressão Social para acompanhar os passos desse pensamento de resistência contraideológica. O texto é de 1934, mas a sua atualidade é candente.

 

A exemplo de Pasolini, o senhor levanta uma discussão em torno das palavras desenvolvimento e progresso, classificando a primeira como uma ideologia, "talvez a mais prestigiosa ideia-força de nosso tempo". Por que a ideia de progresso empobreceu tanto?

A ideia de progresso foi perdendo prestígio, sobretudo entre os intelectuais dotados de senso crítico, na medida em que se formulava de modo linear segundo um esquema de evolução automática. Duas guerras mundiais, dezenas de milhões de vítimas, bombas atômicas lançadas contra populações civis no Japão, a guerra suja do Vietnã, as ditaduras fascistas e stalinistas, a Guerra Fria e outros tantos atentados à dignidade humana tiraram da palavra a aura mágica que a envolveu durante o século 19 e parte do 20. Em contrapartida, o ideal de um desenvolvimento integrado à natureza e respeitoso do trabalho, tal como o defendia Celso Furtado nos seus últimos livros, veio ocupar com vantagem o lugar do termo "progresso".

 

O senhor evoca Sócrates, os estoicos, o universalismo fraterno dos Evangelhos e os textos budistas como possíveis antídotos a ideologias regressivas. Deve-se concluir que o progresso econômico não significa nada em termos de crescimento cultural?

Não afirmo tanto, porque temo as frases peremptórias. Lembrei apenas que certas correntes filosóficas e religiosas da mais alta espiritualidade ainda nos servem de guias de conduta, ensinando-nos o respeito mútuo e a compaixão. Tudo indica que não dependeram do progresso econômico para aparecerem. Não consigo ver um elo necessário entre fases de ascenso econômico e doutrinas voltadas para o aperfeiçoamento moral desta nossa pobre condição humana.

 

Encontro. Ideologia e Contraideologia (Companhia das Letras, 424 págs., R$ 58) será lançado na quarta-feira, dia 19, das 17h às 21h, na Livraria João Alexandre Barbosa (Rua da Reitoria, 374, térreo, Cidade Universitária; tel. 0--11 3091-4156)

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