Alexandre Gama mostra suas criações em exposição

Em seus trabalhos, publicitário faz uso de elementos do cinema, da fotografia, da literatura e da música

Marina Vaz, O Estado de S. Paulo

19 Março 2014 | 19h33

Palavra, imagem e música – esses três eixos são considerados por Alexandre Gama a base de seu trabalho criativo. É o que o publicitário, de 55 anos, costuma chamar de “santíssima trindade” da comunicação. E, a partir desses conceitos, está estruturada a exposição Ideia e Forma, que tem abertura para convidados nesta quinta, às 19h, no Museu de Arte Brasileira da Faap. 

Em uma área de 1,2 mil m2, estão reunidas peças publicitárias concebidas por ele e pela equipe de criação de sua respeitada agência, a Neogama, ao longo das últimas décadas. Por meio delas, é possível não apenas entender melhor o universo da publicidade como relembrar alguns momentos da história recente do Brasil. 

A mostra segue uma tendência mundial de os museus abrirem cada vez mais espaço para manifestações que vão além das artes plásticas, incorporando à programação mostras de moda e design, por exemplo. “No Brasil, nós somos ainda muito conservadores. Tivemos pouquíssimas experiências de um museu tradicional ter a disponibilidade de mostrar esse mundo da comunicação, da arte aplicada”, observa o curador Rubens Fernandes Junior.

A ideia de arte aplicada está ligada ao fato de a publicidade se apropriar de elementos da linguagem do cinema, da fotografia, da literatura e da música, por exemplo. “Eu não acho que a comunicação seja arte. No meu ponto de vista, ela é a arte de criar percepção, e esse é o objetivo final dessa arte aplicada. Há muita riqueza de recursos artísticos envolvidos na comunicação”, analisa Gama, que se formou em publicidade na própria Faap, em 1981.

Fugindo de uma organização cronológica das campanhas, a exposição reúne anúncios impressos, fotografias, projeções, vídeos, livros e maquetes. “Há peças em que sou 100% autor, em algumas sou coautor, e tem outras em que fiz o papel de dirigir as equipes de criação – mas, na maioria, tive envolvimento nos três níveis”, conta Gama. 

Uma das primeiras peças que poderá ser vista pelo público foi feita para a marca de artigos esportivos Umbro. Nelas, imagens de arquivo ou assinadas por fotógrafos importantes como Arnaldo Pappalardo usam o humor para posicionar a empresa como uma “obcecada”, que vê futebol em qualquer situação do dia a dia. Em uma das fotos da série, um menino aparece, com olhar emburrado, dentro de uma banheira. Acima dele, uma legenda: “Para nós é um lateral que o juiz mandou mais cedo para o chuveiro”.

Entre os projetos que se relacionam com momentos históricos do País, está um criado em 1992, após a visita do Papa João Paulo II. Um seguro teve de ser providenciado para o papamóvel – no caso, feito pela Itaú Seguros. A campanha trazia apenas uma pequena foto do pontífice dentro do veículo blindado. E a graça se concentrava no texto, que dizia que “nem o papa deixa tudo na mão de Deus”. 

Outro exemplo curioso da exposição é uma série de anúncios feitos para veículos 4X4 da fabricante Mitsubishi. Nela, há imagens de pequenas aventuras cotidianas: um bebê se esforçando para subir uma escada; uma senhora chegando em casa carregada de compras; um cachorro nadando nas águas de um rio. Um único slogan – “A vida é 4X4” – acompanhava todas elas. “A forma mais concentrada de significado em comunicação é o conceito. É muito difícil fazer um grande conceito, mas dá para avaliar sua força pela capacidade de ele ser aplicado a uma série de peças, que, de forma natural, imporiam um limite àquela frase”, diz Gama. 

No final do percurso expositivo, uma sala é dedicada a uma das campanhas mais famosas do profissional (que também está no comando criativo global da inglesa BBH, rede multinacional de publicidade). É o filme Gigante, de 2011, feito para a marca de uísque Johnnie Walker. Nele, os contornos montanhosos do Rio de Janeiro ganham vida e se levantam, como um gigante de pedra. No ano passado, um vídeo amador colocado na internet se apropriou de cenas desse comercial para incentivar as manifestações nas ruas. Mais um exemplo de que a publicidade pode não só buscar inspiração em outras áreas – mas também inspirar.

Serviço:

IDEIA E FORMA 

MAB-Faap (R. Alagoas, 903, 3662-7198)

3ª a 6ª, 10 h/20 h; sáb. e dom., 13 h/17 h. 

Grátis. Até 20/4. Abertura nesta quinta, dia 20, para convidados

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