Alemã Herta Müller surpreende e ganha o Nobel de Literatura

Escritora romena radicada em Berlim não era tida como favorita pelos especialistas, que apostavam em Amós Oz

estadao.com.br,

08 Outubro 2009 | 08h06

A escritora romena naturalizada alemã Herta Müller foi a ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura 2009, segundo comunicou a academia sueca nesta quinta-feira, 8. A escritora não fazia parte do hall de apostas dos especialistas, que tinham como favorito o israelense Amós Oz, seguido da argelina Assia Djebar e da americana Joyce Carol Oates. Segundo a academia, Herta, "com a concentração da poesia e a franqueza da prosa, pinta o panorama dos despossuídos". No Brasil, há apenas um livro seu em português: O Compromisso, que narra a história de uma ex-operária da indústria têxtil perseguida pela polícia secreta da Romênia. Como prêmio, a alemã receberá um cheque no valor de US$ 1,4 milhão, que será entregue no dia 10 de dezembro em Estocolmo, capital da Suécia. 

 

Ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura 2009, Herta Müller. Foto: Jens Meyer/AP 

 

A escritora, que vive em Berlim desde 1987, nasceu em Nitzkydorf (Romênia) em 1953, dentro de uma família da minoria alemã nesse país - à qual pertenceram outros escritores emblemáticos alemães, como

Oskar Pastior - e desde muito cedo tentou colocar pontes entre as duas culturas às quais pertencia.

 

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Seu primeiro livro, Niederungen, ficou quatro anos na editora antes que finalmente pudesse ser publicado, em 1982, com cortes impostos pela censura romena. Dois anos mais tarde, lançou Drückender Tango (1984), ainda na Romênia. Nestas duas obras, Herta retrata a corrupção, a intolerância e a opressão dentro de um pequeno povoado de língua alemã. Após a publicação, sofreu críticas da imprensa nacional, mas teve uma acolhida muito positiva dos meios de comunicação de fala alemã no exterior.

 

Ao fazer duras críticas à ditadura romena, foi proibida de publicar livros no seu país. Em 1987, mudou-se, junto com o marido, o escritor Richard Wagner, para a Alemanha. A partir daí intensificou sua produção. As novelas Der Fuchs war damals schon der Jäger (1992), Herztier (1994) e Heute wär ich mir lieber nicht begegnet (1997), segundo a academia, "proporcionaram, com seus trabalhados detalhes, uma imagem da vida cotidiana da ditadura". 

 

Na juventude, a escritora estudou filologia alemã e romena simultaneamente, tentando aprofundar os conhecimentos das duas literaturas às quais sentia que pertencia. Ao entrar em conflito com a Romênia do ditador Nicolae Ceaucescu, perdeu seu primeiro trabalho, como tradutora em uma fábrica de máquinas, por se negar a colaborar com o serviço secreto da Romênia comunista.

 

'Ainda não consigo acreditar', diz Herta

 

"Estou muito surpresa e ainda não consigo acreditar. Por enquanto não posso dizer mais que isso", disse Herta, em uma primeira reação divulgada pela editora alemã "Hanser". Quando recebeu a notícia, por meio do secretário permanente da Real Academia Sueca, Peter Englund, a escritora disse ter ficado

muda, mas prometeu que recuperaria a fala até o dia 10 de dezembro, data da entrega do prêmio.

O diretor da editora Hanser, o editor, ensaísta e poeta Michael Krüger, disse que com o prêmio, Herta, uma autora que "20 anos depois do fim da Guerra Fria, insiste em manter a lembrança do lado desumano do comunismo".

"Seu grande trabalho de luto literário é um exemplo impressionante de uma literatura europeia comprometida que, com agudeza analítica e precisão poética, faz presente nossa história", acrescentou Krüger. "Não posso acreditar, não mereço. Estou transbordando", declarou Herta nesta quinta, à televisão pública sueca SVT, após o anúncio de que ela tinha sido contemplada com o prêmio. Herta é a 12ª mulher a receber o Nobel de Literatura.

 

Desde 2003, esta é a primeira vez que o Nobel de Literatura vai para uma autora de língua alemã, após o recebido pela austríaca Elfriede Jelinek, naquele ano, enquanto o último alemão que ganhou o prêmio foi Günter Grass, em 1999. Em 2008, o prêmio foi para o francês Jean-Marie Gustave Le Clézio.

 

A chanceler alemã, Angela Merkel, elogiou o trabalho de Müller, qualificando-o como "literatura excelente" derivada da experiência de vida sob uma ditadura.

 

"É maravilhoso que hoje, 20 anos após a queda do muro, um exemplo de literatura de alta qualidade sobre experiência de vida seja honrada com o prêmio Nobel de Literatura", disse ela. "Estamos  naturalmente contentes que Herta Müller tenha encontrado um lar na Alemanha".

 

Além disso, Müller é a 12ª mulher a ganhar o Nobel de Literatura. Entre as vencedoras recentes estão a austríaca Elfriede Jelinek, em 2004, e a britânica Doris Lessing, em 2007. É a primeira vez que quatro mulheres ganham um Nobel no mesmo ano. As cientistas Elizabeth Blackburn e Carol Greider estavam entre os premiados em Medicina , enquanto a israelense Ada Yonath foi lembrada no Nobel de Química.

 

O pai da escritora serviu nas tropas nazistas durante a Segunda Guerra. "Eu acho que há uma força incrível no que ela escreve, tem um estilo muito, muito único", disse Peter Englund, secretário permanente da Academia Sueca. "Você lê meia página e já sabe que é Herta Müller."

 

Englund lembrou ainda o importante conteúdo da obra da autora, refletindo sobre a perseguição aos dissidentes na Romênia, mas também sobre a condição de pertencer a uma minoria e se sentir estranha em seu próprio país. O secretário disse que a premiação não foi dada para coincidir com os 20 anos da queda do Muro de Berlim, mas muitas pessoas do mercado editorial notaram a relação.

 

"Ao dar o prêmio a Herta Müller, que cresceu em uma minoria falante de alemão na Romênia, (o comitê) reconheceu um autor que se recusa a deixar o lado desumano da vida sob o comunismo ser esquecido, 20 anos após o fim do conflito Leste-Oeste", avaliou Michael Krueger, o diretor da editora da premiada, a Hanser Verlag.

 

"Ela é uma escritora muito sincera e escreveu sobre o que aconteceu consigo e isso é algo que deve ter impressionado os jurados", disse o ator romeno Ion Caramitru, um anticomunista hoje diretor do Teatro Nacional da Romênia. "Esse prêmio é um reconhecimento internacional da operação que ocorreu na Romênia e no Leste Europeu."

 

Semana dos prêmios Nobel

 

Depois do anúncio do Nobel Literatura, será concedido na sexta-feira, 9, o da Paz, divulgado em Oslo. O anúncio dos Nobel começou na segunda-feira, com o de Medicina, que foi para os americanos Elizabeth H. Blackburn, Carol Greider e Jack W. Szostak. Na terça-feira, houve o anúncio do de Física, para o

britânico-americano Charles Kuen Kao e os americanos Willard Sterling Boyle e Georges Elwood Smith, enquanto na quarta-feira foi concedido o de Química aos americanos Venkatraman Ramakrishnan e Thomas A.Steitz, e à israelense Ada E. Yonath. A rodada fechará na segunda-feira da próxima semana, com o Nobel de Economia.

 

Texto atualizado às 16h25

 

(com Efe e Associated Press)

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