Alegria em meio ao caos

Ethel Kennedy é tema de filme em que sua filha tenta entender a "menos glamourosa" das mulheres do clã

ALESSANDRA STANLEY , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2012 | 03h10

O filme Ethel é um tributo adorável, tocante e, por vezes, malicioso a Ethel Kennedy, de 84 anos, prestado por sua filha caçula, Rory Kennedy. É apresentado como "um olhar privado do interior de uma vida altamente pública" - e deveria ter sido mantido privado.

Mas Ethel é desafinado e enlouquecedoramente incompleto. Assisti-lo é um pouco como ler um relatório classificado redigido por Dick Cheney - há tanto material censurado que é quase impossível acompanhar.

Rory Kennedy, que nasceu seis meses após o assassinato de seu pai em 1968, certamente estava bem intencionada ao dirigir o holofote para o membro de sua família que era ousado, gostava de diversão e não levava os paparazzi à loucura. Se a mulher de John F. Kennedy, Jacqueline, trouxe refinamento europeu e reserva ao clã, a de Robert F. Kennedy, Ethel, foi a menos glamourosa mulher parideira e laboriosa, que reforçou suas raízes católicas irlandesas.

O documentário, exibido nos EUA, oferece muitos trechos adoráveis de filmes domésticos que mostram Ethel Kennedy como uma criança atlética, animada, e uma extrovertida moleca apaixonada pelo irmão de sua amiga de escola, Bobby. Há muitos vislumbres dela como a infatigável ajudante do marido: elegante, sorridente, em um vestido tubinho sem manga estilo Lilly Pulitzer, sempre ao seu lado durante as campanhas, audiências no Congresso e marchas pelos direitos civis. As imagens dela como jovem viúva, grávida e usando um véu negro no funeral de Robert estão gravadas na história.

Mas a maior parte do filme é um doloroso lembrete de que Camelot terminou com a morte de seu marido. Não se trata apenas da mística da família ter sido destruída por muitos escândalos, exposições e biografias pouco lisonjeiras. Os Kennedys já foram curadores engenhosos de seu mito, mas o filme de Rory Kennedy sugere que as gerações subsequentes estão desmemoriadas de sua própria imagem pública.

Muitos filhos de Ethel Kennedy participam do filme contando casos sobre a sua mãe: foram tantos os secretários do Gabinete empurrados para a piscina durante as festas em Hickory Hill, a casa da família em Virgínia, que o tio Jack (o presidente Kennedy) interveio e disse para a cunhada que adorava pregar peças para parar. Além de filhos e convidados, Ethel Kennedy dava rédea solta a cães, cavalos, bodes e até a uma foca naquela histórica e caótica mansão.

Kerry Kennedy, a ex-mulher do governador Andrew Cuomo, recorda com um sorriso sagaz como sua mãe tinha fama de gostar de dirigir em alta velocidade e ignorar a lei. Essa entrevista foi filmada em 2011, antes de Kerry Kennedy ter sido presa depois de jogar o carro sobre uma jamanta em Westchester County, Estado de Nova York, e fugir.

Esse incidente não poderia ter sido previsto quando o filme foi feito, assim como Robert F. Kennedy Jr., que é mostrado descrevendo jovialmente o casamento feliz de seus pais, não poderia saber que sua mulher separada, Mary Richardson Kennedy, se enforcaria num celeiro de sua herdade em Bedford, Nova York, em maio.

Rory e seus irmãos descrevem a infância da mãe no clã Skakel, uma grande e rica família católica irlandesa muito parecida com os Kennedys - atlética, competitiva, mas sem a disciplina de ferro e o rigor intelectual imposto por Joe e Rose Kennedy, sogro e sogra de Ethel. Há velhos filmes domésticos de jantares da família Skakel interrompidos por fogos de artifício e instantâneos de rapazes musculosos se divertindo. Ethel Kennedy, entrevistada em Hyannis Port, Massachusetts, por Rory, recorda afetuosamente de como seus irmãos endiabrados viajavam de Greenwich, Connecticut, a Nova York, não de trem, mas em cima dele.

"Mamãe é uma Skakel", diz Chris Kennedy alegremente. "E como uma Skakel, herdou um saudável desprezo pela autoridade em todas as suas formas." Infelizmente, muitos espectadores conhecerão melhor o nome Skakel pela associação a Michael C. Skakel, um sobrinho de Ethel que foi condenado em 2002 pelo assassinato em 1975 de uma vizinha de 15 anos, Martha Moxley.

Anteriormente, no filme, alguns filhos se apresentam divertidamente em sua ordem de nascimento, e um deles, Max, o nono, finge zombeteiramente que não se lembra de quantos irmãos ele tinha. Mas essa é uma piada sem graça para espectadores que sabem que dois dos 11 filhos de Ethel Kennedy estão mortos.

Há obviamente um talento para a compartimentação nesta família, o que pode explicar como os filhos de Robert Kennedy falam despreocupadamente de períodos que estão impressos na memória pública como tempos de calamidade e desgraça. O filme não faz nenhum esforço para conciliar a mentalidade dos Kennedys com a do público americano.

Ethel Kennedy, certamente, não expressa nenhum interesse em refletir sobre as mazelas de sua família. Ela é reservada sobre a morte do marido, e mostrou-se desdenhosa quando Rory a pressiona para compartilhar seus sentimentos sobre algumas das causas sociais às quais ele a introduziu. "Toda essa introspecção", diz a cineasta. "Odeio isso." Não há nenhuma introspecção em Ethel e ainda menos autocrítica da parte da diretora. Teria sido um presente mais gentil a Ethel Kennedy respeitar seus instintos e, uma vez ao menos, reservar essa tentativa de interpretar a história a familiares e amigos íntimos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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