Águas de Marte

Fechando o verão do hemisfério norte, a revelação oficial de que água é o que não falta no planeta Marte. Salgada, mas H²O de verdade. Não correndo por aqueles canais descobertos por Giovanni Schiaparelli em 1878, mas entranhada nos rochosos recônditos daquele planeta e eventualmente acima do volume morto. 

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

03 Outubro 2015 | 02h00

O cineasta Ridley Scott soube disso com alguma antecedência, mas não quis mexer no roteiro de seu novo filme, Perdido em Marte (The Martian), contando uma aventura de resgate que só na semana passada se revelou anacrônica do ponto de visto astronômico. Pelo que li, o marciano do título é um astronauta da Terra que sua um bocado, literalmente, para obter a água de que necessita para sobreviver na aridez de Marte por mais de um ano. Como um MacGyver da Nasa, o Robinson Crusoe intergaláctico encarnado por Matt Damon extrai líquido potável de sua transpiração, não apenas para matar a sede, mas também para regar as batatas que lhe amenizam a fome. 

Scott preferiu ser mais fiel à ficção científica e sua mitologia do que às últimas descobertas científicas. No folclore que se criou em torno de Marte, água lá não brota ou há milênios desapareceu. Sua escassez, aliás, foi o motivo da invasão da Terra pelos marcianos no romance A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, sete vezes adaptado ao cinema, mais recentemente por Steven Spielberg, e ao rádio por Orson Welles, em 1938, sua mais controversa reencarnação. Se ainda fosse vivo, Wells, que escreveu o romance no final do século 19 para evocar o então recente massacre dos aborígines da Tasmânia por imigrantes europeus, não se furtaria a comparar a água de ontem ao petróleo de hoje e seus aguerridos marcianos aos poderosos da Terra que transformaram a vida no Oriente Médio num inferno. 

A presença de Marte no imaginário popular só não é maior que a da Lua. Em 1896, dois anos antes da invasão da Terra pelos marcianos de Wells, Percival Lowel deduziu, com a ajuda de um potentíssimo telescópio, que, apesar do solo estorricado e do frio intenso, Marte parecia um planeta habitável. No ano seguinte, o alemão Kurd Lasswitz vendeu aos montes um romance (Dois Planetas) em que Marte era retratado como uma utopia tecnológica. Sua leitura marcou para sempre o menino Wernher von Braun, futuro pai dos foguetes interplanetários.

Aí teve início a febre de narrativas marcianas, com o planeta vermelho et pour cause retratado quase sempre como um hábitat de criaturas belicosas, mas de inteligência ou sensibilidade superior, vivendo em adiantado estado de progresso social e tecnológico. Natural que de lá viessem gurus espirituais (como o de Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein) e nela se implantassem civilizações idealizadas, socialmente igualitárias e harmônicas, como a de Estrela Vermelha, pioneiro romance utópico do russo Aleksandr Bogdanov, que em 1908 desencadeou uma onda de clubes e debates entre os cientistas de Moscou e São Petersburgo. 

Mais que um simples planeta, Marte impôs-se como uma metáfora. Metáfora até do Velho Oeste americano, como na saga em 11 volumes que o inventor de Tarzã, Edgar Rice Burroughs, dedicou ao caubói espacial John Carter, a partir de 1912; do confronto entre criacionismo e darwinismo sublimado por C.S. Lewis em Out of the Silent Planet; e das paranoias da Guerra Fria, cujo exemplo mais notório é o filme Planeta Vermelho, que Harry Horner dirigiu no auge do macarthismo. 

Desde o pioneiro romance do gaúcho Albino José Ferreira Coutinho, A Liga dos Planetas, editado em 1921, que o imaginário brasileiro frequenta Marte e, por tabela, o espaço sideral. Seu herói é um carioca qualquer a quem o então presidente Epitácio Pessoa delega a missão de estabelecer contato com seres extraterrestres e formar uma espécie de Liga das Nações interplanetária. Custeado pelo erário, nosso embaixador intergaláctico constrói um foguete (ou, a bem dizer, um aeroplano à base de alumínio) e se manda para o espaço, visitando a Lua, Vênus e Marte, onde uma guerra entre planetas o convence de que a Via Láctea tampouco estava preparada para a paz. Tudo não passara de um sonho.

Sonho de verdade. O enviado espacial sonhara com aquelas peripécias enquanto roncava numa modesta pensão do bairro do Catete, próxima ao palácio do governo. Um velho truque literário, com qual topei pela primeira vez ou lendo Washington Irving (A Lenda de Rip Van Winckle) ou Mark Twain (Um Ianque na Corte do Rei Arthur). 

Só em sonho também Carlos e Jorge, dois mecânicos chutados de uma fábrica, conseguiram viajar além da estratosfera, a bordo de um disco voador. Pitorescos personagens de uma história em quadrinhos de Max Yantok, intitulada Do Rio a Marte e publicada na revista O Capitão Z, em outubro de 1959, os dois se deslumbravam com a exuberância civilizada de seus anfitriões e, em sinal de gratidão, os introduzia ao samba, pois em samba somos uma Nasa. Na chanchada Carnaval em Marte, dirigida por Watson Macedo em 1954, Violeta Ferraz levava um jarro na cabeça, perdia os sentidos e sonhava que era a rainha do carnaval naquele planeta. 

No começo dos anos 1920, Marconi, o inventor do telégrafo sem fio, anunciou ter recebido sinais em código que suspeitou vindos de Marte. No primeiro alinhamento mais favorável do planeta com a Terra, o governo americano pediu a todas as emissoras de rádio do país que fizessem silêncio por certo tempo para captar qualquer contato vindo do espaço e pôs em alerta os transmissores da Marinha, no Pacífico, durante três dias. Nem sinal dos marcianos. 

Na década seguinte, telescópios infinitamente mais possantes que o de Percival Lowel revelaram que a atmosfera em Marte era rarefeita, sem oxigênio nem água. Mas autores de primeira linha como Ray Bradbury (é dele a melhor ficção do gênero, Crônicas Marcianas), Arthur C. Clarke e Philip K. Dick não se abalaram com a constatação de que Marte não é um planeta habitável e colonizável. Não é ou não era?

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