Agora é a saudade que dá uma parada na 'Estação Melodia'

Com sambas dos anos 30, 40 e 50, Luiz Melodia estréia na gravadora Biscoito Fino

Márcia Vieira ,

27 Julho 2007 | 15h09

Luiz Melodia acalentou a idéia durante mais de um ano. Um CD só com sambas dos anos 30, 40 e 50 para homenagear uma geração de ouro. Bambas como Cartola, Ismael Silva, Geraldo Pereira, Wilson Batista. Estação Melodia, que a gravadora Biscoito Fino envia hoje para as lojas, traz mais do que belos sambas. O CD comprova que Luiz Melodia, autor de sucessos como Pérola Negra, é também um grande intérprete. 'Eu queria cantar o melhor possível. Eu faço isso bem', diz, cheio de confiança aos 35 anos de carreira e 56 de idade. Melodia, criado no Morro de São Carlos, favela do Estácio, no centro do Rio, privilegiou os sambistas do bairro, como Ismael Silva e Geraldo Pereira, e resgatou duas músicas do seu pai, o sambista Oswaldo Melodia. Estão lá Não me Quebro à Toa e Linda Tereza, que fecha o disco. 'Meu pai tinha a voz muito bonita, mas nunca viveu da música. Foi estivador no Porto do Rio e depois virou funcionário público. Ele tinha o timbre parecido com o meu. Só que cantava mais bonito.'   Volta no tempo   O CD não deixa de ser uma volta no tempo. Melodia gravou os sambas com a simplicidade da época em que foram lançados e que ele ouvia sem parar nas rádios quando menino. 'Fui buscando as músicas nas minhas lembranças. Quis usar os andamentos daquele tempo com um toquezinho de modernidade. Queria a malemolência dos sambistas de antigamente. Esses sambas que a gente ouve hoje em dia parecem frevos. Tudo tem cara de axé music', reclama. Convidou o músico e arranjador Humberto Araújo para cuidar da produção. 'Falei que queria cantar do jeito que eu ouvia quando era moleque. Ele, que nasceu na Tijuca (zona norte do Rio), entendeu o recado.' Para completar o time, convocou músicos jovens indicados pelo trompetista Silvério Pontes. O disco já começa com uma pérola: Tive Sim, de Cartola. Há momentos especiais, como nas músicas de Geraldo Pereira, Chegou a Bonitona (em parceria com José Batista) e Cabritada Mal-Sucedida. Nas duas faixas, o clima é de gafieira. Em Eu agora Sou Feliz, de Jamelão, sambista da Mangueira, e Mestre Galo, predomina o espírito dos bailes carnavalescos. A tal malemolência está em Contrastes (Ismael Silva) e em O Neguinho e a Senhorita, de Noel Rosa de Oliveira, sambista do Salgueiro, e Abelardo Silva. 'Para gravar este CD eu ouvi muito o Noite Ilustrada (apelido do sambista Mário de Souza Marques Filho). Eu peguei dele a malandragem. O cara tinha um charme, uma simplicidade que eu queria passar neste CD.'   Repertório   Duas músicas fogem deste clima de antigamente. Uma é o chorinho Choro de Passarinho, de Renato Piau, Euclides Amaral e Rubens Cardoso. A outra é Nós Dois, música composta por Melodia em parceria com Renato Piau. 'Achei que elas combinavam. Me deu vontade de incluir.' Durante o mês inteiro em que se trancou no estúdio da Biscoito Fino, na zona sul do Rio, Melodia pensou várias vezes em mudar o repertório original. 'Queria ter colocado também Café Society (de Miguel Gustavo, grande sucesso na voz de Jorge Veiga) e outras que tocavam lá em casa sem parar. Mas acabei fechando nestas 14 músicas.' Sobrou repertório para um segundo disco, uma espécie de Estação Melodia, volume II. Mas com poucas chances de sair. Pelo menos a curto prazo. Melodia agora quer compor. Já fez umas músicas e começa a desenhar na cabeça o formato do próximo CD. Este é o seu primeiro disco pela Biscoito Fino, gravadora que lançou o último CD de Chico Buarque e Maria Bethânia. Por enquanto está em lua-de-mel. Melodia nem sempre se entendeu com as gravadoras. 'Elas sempre tiveram uma relação muito pequena com a minha música. Diziam que a minha música era maravilhosa e tal, mas era uma relação pequena diante da grandiosidade do que eu faço.' Não importava se eram gravadoras grandes, como a EMI-Odeon, ou menores, como a Indie. 'Eu estou presente no cenário musical até hoje pela precaução que eu sempre tive. Quando não estava dando certo, eu mudava. Acho que todas elas são parecidas.' Com a Biscoito Fino, o contrato vale apenas para este Estação Melodia.   Volta ao morro   Além do CD, que levou Melodia a revisitar, na memória, sua infância e adolescência no Morro de São Carlos, ele voltou à favela há poucos dias para gravar cenas de um documentário sobre a sua carreira. Levou um susto. 'Sempre é bom voltar ao São Carlos. É ótimo rever os amigos. Alguns estão adoentados. Outros desdentados. Muitos se deram bem. Mas o que mais pega é o tráfico de drogas. Isso é muito triste', lamenta. Melodia trocou a favela pela chique zona sul nos anos 70 quando ficou famoso depois que Gal Costa gravou Pérola Negra. Era uma época em que as favelas cariocas não tinham virado áreas dominadas pelo tráfico de drogas. 'A favela ainda tinha glamour. Era aquela coisa da vizinha gritar pedindo uma xícara de farinha emprestada para fazer um bolo. Hoje não. É uma tristeza ver esta garotada armada mandando nos moradores.' O episódio que abalou Melodia aconteceu quando filmava um depoimento para o documentário numa das vielas do morro. Primeiro, teve de pedir autorização ao chefe do tráfico para filmar na favela. Achou um absurdo. 'Imagina só. Eu, cria do São Carlos, pedindo autorização...' Não foi só. Quando já estava lá filmando foi cercado por um adolescente armado com uma submetralhadora mandando parar tudo. Melodia teve de negociar, argumentar que já tinha autorização do chefe do tráfico. 'Pode isso? Um cara ter o comando de uma comunidade. É uma doideira.' Melodia nunca conseguiu tirar os pais da favela. A mãe, dona Eurídice, queria muito, mas morreu, vítima de um câncer fulminante, antes de realizar o sonho. O pai, Oswaldo, não queria sair dali de jeito nenhum. Morreu antes de o filho conseguir convencê-lo a se mudar.   Wally, Torquato e Oiticica   Além do pai, Melodia também dedica o CD ao poeta Wally Salomão. Fascinado pela poesia de Melodia, Wally passou a freqüentar o São Carlos no início dos anos 70, carregando junto o também poeta Torquato Neto e o performático Hélio Oiticica. 'Eles iam lá no morro e ficavam batendo papo, dando palpite no que eu escrevia. Nesta época, o Torquato tinha a coluna Geléia Geral, num jornal. Ele dizia que eu era um negrinho maravilhoso, que escrevia coisas ótimas.' Wally fez mais do que elogiar. Levou para Gal Costa a fita com Pérola Negra. A música foi um sucesso e Melodia virou celebridade. Aliás, o nome Pérola Negra foi uma idéia de Wally. O refrão era My black, meu negro/te amo/ te amo/ meu amor... 'Mas o Wally se encantou com o apelido de um amigo nosso lá no morro, o Adilson. Todo mundo chamava ele de Pérola. Aí pronto, mudei o refrão e o apelido virou título da música', lembra. Foi nessa época que Oswaldo Melodia se convenceu que o filho não ia ser enfermeiro, como ele esperava. Nem sambista, como o pai. Melodia estava mais para Jovem Guarda do que para Ismael Silva. 'Meu pai, se estivesse vivo, iria delirar com este CD. Está do jeito que ele gostava.'

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