Acusado de plagiar Scliar, Yann Martel se defende

Yann Martel, o ganhador do Booker Prize de 2002, autor de Life of Pi, diz que não imaginava o tamanho da confusão em que se meteria depois de ter ganho US$ 75 mil da mais importante premiação literária de língua inglesa. Confessadamente inspirado por um argumento de um livro do brasileiro Moacyr Scliar, Max e os Felinos, o canadense viu sua obra ser questionada por toda esta semana e não apenas pela imprensa brasileira. "Será que haveria o mesmo escândalo se eu dissesse que me inspirei na Arca de Noé?", perguntou ele, em entrevista por e-mail. Hoje, depois de ter lido parte do livro de Martel, Scliar fez alguns elogios à obra e reconheceu que não há texto plagiado, ainda que a idéia seja idêntica - e, inclusive, alguns dos episódios. Mas já está claro que está descartada qualquer medida judicial - e que a polêmica deve agora refluir. Na entrevista abaixo, Martel fala da polêmica e da inspiração para o seu livro. Agência Estado - O sr. disse que leu uma resenha de John Updike sobre o livro de Moacyr Scliar. Mas Updike diz que nunca o leu. Como, então, tomou contato com o tema? Yann Martel - Acho que não foi Updike e também não foi no The New York Times Book Review. Fui traído por minha memória. O certo é que há mais ou menos dez anos li uma resenha num jornal norte-americano sobre o livro de Scliar. O sr. considera correto utilizar uma história contemporânea, de um colega, como assunto para um novo livro? Não utilizei uma história contemporânea como assunto. Eu emprestei a premissa de um livro que não havia lido. Agradeço a Scliar em minha "nota do autor" pela "faísca de vida" e o mencionei em todas as entrevistas que concedi sobre Life of Pi. Meu único encontro com Max e os Felinos foi através da resenha. E isso foi o que ela representou para mim: uma faísca que pôs fogo em minha imaginação e me empurrou para que eu contasse minha história. Depois de toda essa confusão, o sr. já leu Max e os Felinos? Não. Nunca vi o livro. Estou certo de que é muito bom. Nunca tive a intenção de diminuir ou desprezar Scliar ou a literatura brsileira. Fiquei triste e surpreendido que minha homenagem a Scliar tenha sido vista como um ataque contra ele e o Brasil. O sr. escreveu: "Como uma premissa brilhante pôde ser arruinada por um escritor menor." Não acha que foi injusto? Essa frase está fora de contexto. A citação faz parte de um texto disponível no site www.powells.com e é seguida por: "Pior, e se Updike estivesse errado? E se foi uma premissa brilhantemente trabalhada?" Não estava julgando nem o livro nem o autor. Estava descrevendo minha reação a uma premissa maravilhosa. Como o sr. reage às suspeitas de plágio? Seriamente: como se pode plagiar um livro que não se leu? Artistas buscam inspirações em muitas fontes. Um único exemplo: Romeu e Julieta, de Shakespeare, é baseada num episódio do Decameron, de Boccaccio. Não apenas a premissa - garoto encontra garota de família inimiga -, mas quase todos os detalhes da trama. Você vai acusar Shakespeare de plágio? A premissa maravilhosa de Scliar me inspirou a escrever um livro muito diferente do dele. Não é segredo. O texto mencionado está na internet há dois meses. Foi publicado inclusive pelo maior jornal canadense, National Post, e, numa versão menor, pelo Sunday Times, de Londres, uma semana depois de eu ganhar o Booker Prize. Por falar nisso, você viu E la Nave Và, de Fellini? Eu não, mas vi um pôster do filme. Nele, há um homem num barco salva-vidas com um rinoceronte. Será que haveria o mesmo escândalo se eu dissesse que me inspirei nele? Ou se dissesse que me inspirei na Arca de Noé? Artistas emprestam e pegam emprestado. Uma resenha de um livro de Scliar me inspirou. Sinto por ele respeito e admiração. Somos ambos escritores tentando encantar e mudar o mundo com nossas histórias. O que diz Moacyr Scliar - Hoje pela manhã, depois de iniciar a leitura de Life of Pi, de Yann Martel, Moacyr Scliar afirmou: "O livro é bom." O gaúcho é o autor de Max e os Felinos (de 1981), cuja trama inspirou o canadense. "O texto é dele, mas minha idéia está lá." Scliar disse que não tem espírito litigante e que vai relevar o que desconsidera "um certo desleixo" no trato de Martel. "Ele poderia ter me enviado o livro, por exemplo", diz. "Mas há pessoas assim, estouvadas." A repercussão internacional - "Passei o dia de ontem dando entrevistas para rádios e jornais estrangeiros" - não foi ruim para Scliar. Suas obras traduzidas, antes publicadas por editoras universitárias, receberam propostas de três editoras comerciais de língua inglesa. "Meu conselho para os escritores brasileiros é que arranjem um plagiador", brincou. "Life of Pi foi escrito com prazer; não deixou de me emocionar o modo como ele se empolgou com a idéia; no fim, quem triunfa é essa metáfora, do náufrago que tem de conviver com uma fera", completou Scliar.

Agencia Estado,

07 Novembro 2002 | 16h33

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