A volta de Galliano, desfiles-espetáculo e a moda que flerta com o estranho surpreendem a semana de Paris

Fashion Week de Paris se encerrou na última quarta-feira, 11

Maria Rita Alonso, O Estado de S. Paulo

15 Março 2015 | 03h00

ENVIADA ESPECIAL / PARIS - Nas últimas temporadas, com o reinado do street style e a volta dos normais na moda (hordas vestidas de tênis, camiseta e moletom batizados de normcores), os desfiles do prêt-à-porter foram colocados na berlinda. Estaria a moda fora de moda? A resposta veio diretamente da Fashion Week de Paris, encerrada na quarta-feira, 11, na qual coleções provocantes, irreverentes e algumas (poucas) espetaculares foram vistas e festejadas - além de uma surpresa hilária, que movimentou o circuito. Na angustiante busca pela diferenciação, muitos criadores deixaram para trás a estética mais básica e próxima ao que se vê nas ruas e caminharam em direção ao... esquisito.

Calças curtas, botas de cano médio, paletós longos, peças variadas (e caricatas) que fizeram sucesso nos anos 1970, e uma cartela de cor difícil baseada em tons de terra e marrom, resumem as principais propostas das grandes marcas francesas. “Depois de uma onda de roupas normaizinhas, algumas grifes flertam agora com o estranho, com o ‘freak’ em busca de autenticidade”, observa a diretora de moda da Vogue Brasil, Daniela Falcão. “Algumas costuras e acabamentos estão expostos, as barras vieram desfeitas. É uma espécie de ode ao feio, ao desabado, impulsionada também pela volta de John Galliano.”

À frente da Maison Margiela, Galliano causou com suas modelos performáticas, uma ou outra andando como corcundas e algumas exibindo maquiagens e perucas bizarras. As criações tentavam manter a linha minimalista da marca, com vestidos simples, ternos andróginos retos, lindos paletós de veludo e estampas de leopardo. Mas o que mais pesou mesmo foi a imagem final. Na moda contemporânea, em que todos os tipos de comprimentos e de modelagens já foram explorados, a principal maneira de inovar está nas combinações de peças, ou seja, no conjunto do look.

Por isso, a alfaiataria de Raf Simons, na Dior, vem sendo encarada como algo moderno. As calças curtas foram complementadas por botas de vinil com salto grosso e bico redondo e ganharam sofisticação com malhas de gola alta e paletós que cobrem os quadris. “Para vida real é uma combinação que não funciona em muitos tipos de corpo”, diz a consultora de moda, Bia Paes de Barros. “Aliás, nesta temporada, estão de volta várias coisas problemáticas. O marrom, por exemplo, fica ótimo em saias e acessórios, mas em blusas e casacos, geralmente, deixa a mulher apagada.”

Na Chanel, looks compostos por jaquetas bomber e saias retas, misturando padronagens de diferentes tipos do xadrez, foram a base do desfile. A combinação de saia usada sobre calça (como fazem os muçulmanos) e o sapato baixo bicolor, aberto na parte de trás (olha, outro perigo!) também marcaram o jogo entre masculino e feminino, uma das grandes heranças deixadas por Coco Chanel. Para o desfile, o suntuoso Grand Palais foi transformado em uma brasserie, com direito a garçons, cafés e croissants. “A brasserie é onde os franceses sentam para conversar. Está na hora de sentarmos para falar sobre o momento atual do país”, disse o diretor criativo da grife Karl Lagerfeld, maior showman da moda, que conhece bem a receita para se tornar campeão de likes e virar assunto nas redes sociais.

Contra as peles. Em tempos em que o mercado mais vaidoso do planeta enlouquece com a evolução do exibicionismo nas redes sociais, a estilista Stella McCartney tenta pregar uma política anti-fur, ou anti-pele, elemento adotado sem dó nem piedade por muitas grifes. Ativista dos direitos dos animais, ela mostrou casacos de peles falsas em preto ou branco, como um item útil para um guarda-roupa de inverno euro+peu, com etiquetas Free Fur, visíveis nas mangas e no colarinho. “Mais de 50 milhões de animais estão sendo mortos por ano em nome da moda, e não concordo com isso”, disse a estilista nos bastidores.

Ela é uma voz solitária. Enquanto os casacos dela eram lindos e pareciam de verdade, curiosamente, alguns estilistas optaram pelo inverso, e criaram casacos de pele verdadeira que pareciam fake. Entre eles, o modelo patchwork de mink da Valentino. Comandada pelos estilistas Maria Grazia Chiuri e Pierpaolo Piccioli, a marca italiana seguiu um caminho diferente do que fez nas últimas temporadas. As rendas e as modelagens fluidas, comuns demais para o momento atual da moda, deram lugar a vestidos em preto e branco, inspirados na Op art, e a tricôs longos usados sobre saias mídi.

No final do desfile da Valentino, veio a surpresa: Derek Zoolander e Hansel, personagens de Ben Stiller e Owen Wilson no filme Zoolander, surgiram fechando o show vestidos com pijamas de seda. A reação da plateia foi hilária, o ar de indiferença das editoras evaporou, as blogueiras alinhadas na primeira fila levantaram-se para aplaudir de pé, os fashionistas riam e cantavam. “Whaaaaaat!”, exclamou a poderosa jornalista inglesa Susy Menkes frente ao inesperado. Foi uma catarse. Em um tempo em que os negócios direcionam criações e a imposição irrefutável do sucesso comercial deixa tudo tão sério e pesado, parece libertador poder rir de si mesmo.

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