A vida não é curta

Por vezes me assombro com o tempo que passa pelas nossa costas, sorrateiro e sem aviso

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2017 | 03h00

Ouve-se frequentemente que a vida é curta. E, de fato, por vezes me assombro com o tempo que passa pelas nossas costas, sorrateiro e sem aviso, adiantando-se sem qualquer permissão para tanto. Há momentos em que estamos num belo dia de janeiro e na semana seguinte novembro já se aproxima com luzes natalinas e propagandas de panetone. Mas trata-se de algo realmente estranho, porque, na verdade, a vida nem sempre parece curta. Às vezes, a vida parece absolutamente interminável. Na fila do banco. Na espera da chegada das férias. Na espera do fim das férias das crianças. Nos 30 minutos que as pessoas com hipotireoidismo têm que esperar todo dia entre tomar o remédio e poder tomar o café da manhã.

No fundo, acho que a vida não é propriamente curta. Mas percebi que acho que os intervalos são excessivamente breves. Explico-me. Tenho 29 anos, mas já sinto que o tempo virou. Sinto que a vida indelicadamente já me jogou para um tal de “outro lado” em dezenas de situações. E foi muito, muito curto o intervalo entre estar de um lado e ser arrastada para o outro.

Foi excessivamente breve o tempo que transcorreu entre eu deixar todas as luzes da casa acesas, ouvindo broncas dos meus pais e eu passar a chamar a atenção da minha enteada pela mesmíssima razão. Meu marido faz igual. E eu penso com estranheza que até outro dia eu era a filha das luzes acesas e de repente já sou essa figura híbrida, que por vezes reclama com a miúda por causa disso e por vezes surpreende-se com o fato de já ser casada com um homem que discursa exatamente como meu pai.

Foi muito curto o intervalo entre eu achar minha tia chata por abaixar o volume do rádio do carro dela, quando eu entrava colocando a Christina Aguilera para berrar nos 4 alto falantes, e eu, tão pouco tempo depois, me flagrar abaixando o volume do rádio do meu carro quando minha sobrinha adolescente coloca a Taylor Swift para fazer o mesmo. E o pior: foi breve o intervalo entre minha tia perder a paciência e substituir a Christina Aguilera no volume 38 pelo Elton John no volume 26 e eu substituir a Taylor Swift no volume 38 pelo Michael Bublé no volume 26. 

Foi breve o intervalo entre ter uma certa pena dos meus pais, quando os via ficar em casa no sábado à noite, sem nenhum programa noturno, e ser tomada pela deliciosa sensação de ficar em casa nas mesmas condições, sem absolutamente nenhum jantar, festa de aniversário ou balada começando à meia-noite. Foi muito rápido o tempo que transcorreu entre enxergar felicidade nas noites estendidas até as 5 da manhã com vodca e Fanta laranja e, logo depois, num spaghetti com vinho tinto às 21, seguido de sofá às 22.

Foi curto, realmente curtíssimo, o intervalo entre julgar os pais que deixam suas crianças mexerem em seus celulares em mesas de restaurante e me ver pedindo socorro ao YouTube, ao aplicativo da Barbie, ao aplicativo do sapo ou a qualquer outro artifício tecnológico que nos permita acabar de comer o prato que já esfriou e poder trocar de seis a oito frases entre o casal sem interrupções.

Foi breve o período que passou entre condenar os “sapatos confortáveis” que minha mãe comprava e o dia em que procurei um mocassim clássico e confortável para trabalhar, para o horror da minha sobrinha mais velha que dizia “Tia Ruth, leva pelo menos esse que é baixinho, mas não é tão feio”, apontando para um mocassim jovem no qual letras douradas diziam HEY num pé e LOVE no outro. Não, Rita, quero esse mesmo, bege, simples, sem graça.

Foram intervalos assim: eu pisquei e eles passaram. Talvez por isso, às vezes eu me julgue velha antes dos 30, já tenha algum medo do tempo e seja assombrada pela ideia de que a vida parece curta. Curta não é. Dura o quanto tem que durar. Mas os intervalos, esses, de fato, são curtos demais.

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