A verdade existe!

Num país onde mentir é a norma, a afirmação assusta, muito embora nenhuma verdade possa ser absoluta ou 'verdadeira'

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

27 Maio 2015 | 03h00

Num país onde mentir é a norma, a afirmação assusta, muito embora nenhuma verdade possa ser absoluta ou “verdadeira”. No entanto, sabemos que ela deve ser discutida e tenazmente procurada, como naquela admirável novela de Jorge Amado sobre o Capitão de Longo Curso, o venturoso Vasco Moscoso de Aragão - um dos poucos mortais cujo sonho foi capaz de dobrar a realidade. 

Jorge Amado - cujo espírito literário eu invoco e solicito nesse (con)texto - fabricou esse espantoso personagem no livro Os Velhos Marinheiros, cuja 26.ª edição, publicada em 1970, jaz falante e encantada ao meu lado.

Nada como pegar, sopesar, tirar a poeira e amorosamente reabrir um livro lido na juventude e revisitar suas páginas na velhice, sentindo o mesmo arrebatamento. Nada como recordar os parcos (e, por isso mesmo, definitivos) encontros com seu autor e ter sido mencionado com dignidade em sua autobiografia, Navegação de Cabotagem. Nada como ressuscitar pelo espírito da literatura esses heróis fantásticos na sua pródiga e brasileiríssima ambiguidade. 

O livro abre com uma reflexão sobre a morte e as mortes de Quincas Berro D’Água e prossegue com o brilhante romance biográfico de Vasco Moscoso de Aragão. Nos dois casos, o autor usa uma linguagem cartorial, daquelas que listam fatos com desapaixonada e malandra eficiência. O partido a ser tomado é o da fantasia que, como a verdade, deve prevalecer sobre a calúnia e a mentira - essas irmãs da exploração e do fascismo. 

Nos dois casos, trata-se de evidenciar os fatos, pois os heróis têm duas vidas. Qual seria a verdadeira? Para tanto, como assevera Jorge Amado pela boca de seus narradores que fazem parte da narrativa, é preciso chegar ao fundo do poço, onde se encontra a verdade. 

“A verdade está no fundo de um poço num livro ou num artigo de jornal. Em todo o caso, em letra de fôrma, e como duvidar de uma afirmação impressa? Eu, pelo menos, não costumo discutir, muito menos negar, a literatura e o jornalismo” - completa o narrador, com minha total aprovação. 

Ou, como aprendemos com o Dr. Siqueira, “juiz aposentado, respeitável e probo cidadão, de lustrosa e erudita careca, (...) tratar-se de um lugar-comum”. Mas como esse mesmo entendido em leis, julgamentos, denúncias e mentiras complementa com “voz grave, de inapelável sentença, (...) a verdade está no fundo do um poço, mas lá se encontra inteiramente nua, sem nenhum véu a cobrir-lhe o corpo, nem sequer as partes vergonhosas. No fundo do poço e nua”. Decreta o Dr. Siqueira.

Por isso, descubro eu - antropologista de longa vida, muito trabalho e de pequeno curso, quem não gosta de nudez não aprecia e verdade e dela não gostando, jamais desce ao fundo do poço. Não têm a coragem, pois mesmo na ética mais rústica, há o dever de ouvir o outro lado - de dizer o que o outro, o bandido ou o acusado teria dito. Sem isso, qualquer pecha ou acusação vira morfeia. 

Ou seja: descer ao fundo do poço e, com uma boa lanterna, descobrir a verdade verdadeira, nua e crua, é um dever e uma exigência ética. Sem ela, o que seria dos pobres, dos fracos, dos sem fama e dos que ainda têm vergonha na cara? Mas quem, neste nosso Brasil de hoje, pode se permitir essa viagem para o fundo do poço, a não ser os de petróleo para roubar? 

Acontece, entretanto, que a verdade existe e você a encontra ao lado da boa-fé e da honestidade lá no fundo do poço e nuinha, como diz o livro de Jorge Amado. Querem prova? 

Na semana passada, uma crônica intitulada Ruas Sem Nome, na qual mencionei um personagem com quem convivi na minha vida de antropologista de longo curso. Dono de um bar, era uma figura folclórica e querida. Era conhecido como Caxixê. Fora do bar, foi um chefe de família impecável. Teve filhos e deu aos seus descendentes o nome de um estadista aliado do final da segunda guerra (1939-1945). Havia o Getúlio, o Stalin, o Churchill, o De Gaulle e o Roosevelt, com tive contato porque ele era caixa e gerente do Banco da Amazônia, no qual eu depositava meu cheque de pesquisa, um cheque visado que hoje é - como a verdade - peça de museu. Desse Roosevelt, o velho Caxixê tinha um enorme orgulho. 

A crônica versou sobre isso e sobre o papel dos nomes. Alguém duvidou: minha história era muito boa para ser verdade. Mas eis que hoje, quinta-feira, dia 21, recebo uma mensagem das senhoras Elsa Barroso e filhos; e de Rosiane Barroso, confirmando minha história. Ambas me oferecem residência e conforto em Belém e uma delas é filha do Franklin Roosevelt Braga Barroso, que tanto aplainou minha vida naqueles velhos tempos.

A mensagem confirma a verdade! Foi prova de que ela existe, embora esteja no fundo do poço. Meu velho coração ganhou alento. Nem tudo está perdido. Pelo menos não completamente perdido. 

*

PS: Você pode achar que isso é pouco. Mas para mim é o testemunho que as vidas são feitas de pequenas coisas. Pois nenhuma mentira, por mais eloquente, resiste a um grão de mostarda.

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