A velha e o gato

Sigo arrependida por nunca ter ouvido os conselhos dos meus pais acerca dos palavrões

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2017 | 02h00

Me lembro bem dos meus pais dizendo “Ruth, se você não parar de falar palavrão, vai perder o controle e não vai conseguir evitá-los quando for preciso”. Eu dizia que era exagero, achava que era drama. Até porque eu nunca falei muitos palavrões e a meia dúzia que eu tenho o hábito de dizer costuma ser apenas com a finalidade de intensificar narrativas, jamais para agredir ou para ofender alguém. Por isso, qualifiquei-os como “palavrões do bem”, na tentativa de me convencer que era uma boa ideia. Mas devo dizer que, para variar um pouco, meus pais tinham razão.

Mudando drasticamente de assunto, como já mencionei em outras ocasiões, uma das coisas que eu mais adoro em Lisboa é o fato de que tem muito, mas muito velhinho na rua. E cumprimentá-los é uma das minhas atividades favoritas por aqui. Bom dia, boa tarde, boa noite. Falo com todos os que passam por mim e dentro da minha complexa cabeça sempre imagino que eles pensem “que maravilha, que moça tão simpática e educada, parece que estou nos velhos tempos” e não “que miúda mais louca, nunca vi tal pessoa na vida, ela não deve regular bem das ideias coitadinha”.

Muito bem. Eu estava voltando do trabalho para casa num fresco fim de tarde de quarta-feira, passando ao lado de um jardim meio abandonado em frente à Praça José Santana, quando vi uma velhinha vindo, com seus cabelos prateados, bengala, sapatinho de salto baixo e tudo mais que compõe uma idosa nos padrões ideais. Pensei “olha só que coisa boa, lá vem uma velhinha para eu dar meu tradicional e simpático oi”, fui ensaiando meu sorriso, certa de que seria mais um caso de sucesso nessa arte de manejar a diplomacia da juventude brasileira perante os anciões lusitanos.

Ocorre que bem na hora que nos cruzamos, eu e Dona Coisinha, surgiu um vulto preto no canto do meu olho esquerdo. Não sei bem o que eu pensei que poderia ser. Terrorista, Batman, alma penada. Não sei. O fato é que era só um gato mas não deu tempo de perceber e eu tomei um susto como poucos ao longo da vida. E ao invés de dizer “boa tarde” sorrindo eu gritei um PUTA QUE PARIU involuntário e inevitável que poderia ser ouvido em Odivelas e, ao mesmo tempo, pulei para o lado, esbarrando com tudo na velhinha de bengala, que foi perdendo o equilíbrio em câmera lenta. 

A cena que aconteceu na sequência foi mais a menos a seguinte: eu, muito nervosa com o susto, com a pancada e com a possibilidade da velhinha enfartar ou se machucar gravemente, fui me reequilibrar, enquanto agarrava a senhora pela cintura, tentando que ela não caísse no chão, e ao mesmo tempo balbuciava baixinho um “ai caralho” de pânico, pensando que no constaria no atestado de óbito da idosa (causa mortis: esbarrão de brasileira incauta), bem como me perguntando se minha conduta configurava imprudência, negligência ou imperícia, fazendo com que eu respondesse por homicídio culposo.

Entre eu agarrar no vestido da velhinha, a velhinha se segurar no meu braço e a bengala se fixar no chão, conseguimos que não acontecesse nenhuma desgraça. Ela não caiu, nem deslocou nenhum osso, nem nada pior. Passei alguns muitos segundos tentando me desculpar e explicando que a culpa era do gato, que eu achei que era uma assombração, mas a coitada da velhinha só dizia “está bem, está bem” (lê-se shtabáinshtabáin) tentando se livrar de mim o quanto antes, com toda razão. 

Num sopro final de esperança da minha amizade com a velhinha, ainda ofereci para acompanhá-la até sua casa. Ela, obviamente, negou. Acho que eu também negaria no lugar dela. Mas eu não me deixei abalar. Sigo cumprimentando todos os velhinhos lisboetas, sorridente e segura de que as coisas vão melhorar para o meu lado. E sigo arrependida por nunca ter ouvido os conselhos dos meus pais acerca dos palavrões. 

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