A torre

Ter opinião sobre o impasse no Oriente Médio expõe mesmo os mais sensatos a incompreensões e ataques

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2017 | 03h00

O crítico e ensaísta Edward W. Said escreveu muito sobre o “estilo tardio”, um interesse que (assim como a expressão) ele pegou emprestado do Theodor Adorno. O termo descreve a produção de artistas que, aproximando-se do seu fim e do fim da sua obra, desenvolvem um estilo anacrônico, ou anômalo, em relação a tudo o que fizeram antes. Não é o caso das últimas coisas de Sófocles ou do Shakespeare de A Tempestade, com seu tom de serena recapitulação da vida e da obra, mas sim de guinadas finais surpreendentes, quase sempre incompreendidas, de espírito, cujos exemplos mais notórios são os últimos quartetos do Beethoven, que ao mesmo tempo revoltaram seus contemporâneos e inauguraram a música moderna.

Um livro póstumo de Said, que morreu em 2003, chamado On Late Style, traz diversos textos sobre o fenômeno na literatura, na música e na arte de gente como Richard Strauss, Thomas Mann, Jean Genet, Luchino Visconti, Gramsci, o pianista Glenn Gould e outros, e nos quais o autor desenvolve sua tese de que o estilo tardio é uma espécie de exílio, ou uma retirada deliberada do artista do seu meio, do seu tempo e da expectativa dos seus pares e do seu público. Said não diz iss, mas é como se no fim da vida o artista se desse o direito à solidão, a se mudar sem desculpas para a tal torre de marfim metafórico e lá levar sua arte à conclusão irreconhecível que bem entendesse.

Said morreu com 67 anos. Não se sabe como seria o seu próprio estilo tardio, mas é pouco provável que o exercesse numa torre acima do mundo. Foi um intelectual engajado. Como palestino, envolveu-se na controvérsia sem fim do Oriente Médio, mas seu engajamento mais conhecido e inspirador foi com o maestro israelense Daniel Barenboim em projetos de aproximação de jovens judeus e palestinos através da música – ele que também era um ótimo pianista. 

Apesar de óbvias discordâncias, Said convivia bem com intelectuais judeus em Nova York e tinha ligações com movimentos pacifistas e moderados árabes e dentro de Israel. Tinha um lado na questão, mas era o lado do bom senso e da conciliação. E eu me pergunto se, dada a virulência do debate que continua no Oriente Médio entre apopléticos e furiosos dos dois lados, em que qualquer ideia de paz parece impossível, até ele não aspiraria à paz da torre, à suprema paz de não precisar ter opinião.

Ter opinião sobre o impasse no Oriente Médio expõe mesmo os mais sensatos a incompreensões e ataques. E recolher-se à torre é uma tentação cada vez maior. 

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