1. Usuário
Assine o Estadão
assine


A pouco conhecida história dos cisnes

Helena Katz - O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2011 | 00h 00

'Cisne Negro', de Aronofsky, tem origem numa fracassada estreia

No Brasil, a estreia está anunciada para 11 de fevereiro. Cisne Negro (Black Swan), o novo sucesso de Darren Aronofsky (O Lutador, Réquiem por Um Sonho), abriu oficialmente o 67.º Festival de Veneza, dois anos depois desse diretor conquistar lá o Leão de Ouro com O Lutador, filme com o qual guarda semelhança. Classificado como "dance thriller", Cisne Negro, que estreou em dezembro nos Estados Unidos, passa-se no mundo do balé nova-iorquino. Teve pré-estreia patrocinada pela Christian Dior e no YouTube, seu trailer oficial contabiliza mais de 7 milhões de acessos (http://www.youtube.com/watch?v=5jaI1XOB-bs).

Natalie Portman venceu o Globo de Ouro por seu papel como Nina, uma bailarina perfeccionista e retraída, que mora com a mãe (situação improvável na vida real de uma bailarina profissional com mais de 20 anos, em Nova York). Sua mãe (Erica/Barbara Hershey), bailarina aposentada/frustrada, incentiva a ambição profissional da filha que, finalmente, ganha a chance de ser a solista de O Lago dos Cisnes.

Nesse balé, a solista tem um papel duplo: seu desafio é dançar bem tanto o doce Cisne Branco-Odete quanto o sensual Cisne Negro-Odile. Quem inaugurou esse papel duplo foi Pierina Legnani, em 1895, na primeira versão completa do Lago dos Cisnes, criada por Lev Ivanov e Marius Petipa em quatro atos, em São Petersburgo, para a companhia que hoje se chama Kirov Ballet.

A dupla Petipa-Ivanov transformou o fracasso da estreia, que havia sido coreografada por Julius Reisinger no Ballet Bolshoi, em 1877, no mais popular dentre os clássicos da história da dança. A estupenda música de Tchaikovsky colabora, mas o roteiro também ajuda bastante. Balanchine dizia que, de todas as heroínas dos balés de repertório (A Bela Adormecida, Gisele, Copélia), essa é a que não guarda traços do mundo real. Odete-Odile não é princesa nem camponesa: é um cisne, uma criatura da imaginação.

Embora muito popular, O Lago dos Cisnes tem uma história pouco conhecida. Primeiro, a iniciativa em rever o fracasso da montagem incompleta foi de Ivanov, e não de Petipa, a quem, geralmente, se atribui essa produção. Na ocasião, Ivanov era assistente de Petipa que, entusiasmado com o sucesso da sua revisão, decidiu assiná-la como coreógrafo (embora não tivesse sido), colocando o seu nome antes do de Ivanov. E, depois, dedicar-se à produção integral da partitura.

Tchaikovsky havia morrido de cólera em 6 de novembro de 1893. Petipa encomendou uma "faxina" na partitura originalmente composta para o Bolshoi a Richard Drigo, compositor que regia a orquestra do Teatro Maryinsky, o mesmo onde dançava a sua companhia. Drigo decidiu eliminar vários trechos, e substituiu alguns deles por pedaços de outras peças de Tchaikovsky (Op. 72 n.º 11, 12 e 15, além de um outro, de autor desconhecido, que muitos atribuem ser do próprio Drigo).

Como se vê, um certo clima de tensões acompanha o Lago desde o seu nascimento. E como o filme escolheu para título o Cisne Negro (Black Swan), já revela no que vai se centrar. A imagem escolhida para apresentar o filme é a da bailarina de cabelo preso com uma coroa, e uma maquiagem que "macula" essa imagem diáfana, em uma alusão ao roteiro do filme.

Thomas Leroy/Vitor Cassel decide substituir a primeira bailarina da companhia que dirige e escolhe Natalie Portman/Nina. Considera-a perfeita para o papel do Cisne Branco-Odete, mas incapaz de satisfazê-lo no de Cisne Negro-Odile. Surge uma concorrente, a novata Lily/Mila Kunis (capa da revista Nylon de dezembro). Os ensaios estressantes, a pressão da mãe dominadora e do diretor, a inveja das outras bailarinas - tudo se junta para instaurar um processo alucinatório em Natalie Portman/Nina, que atinge o clímax na noite de estreia. Antes, disso, as duas rivais no balé acabam na cama, em cena que está dando o que falar.

Natalie Portman estudou balé quando era pequena. Convidada por Aronofsky em 2002, durante os três meses anteriores à rodagem, ela voltou a fazer aulas seriamente, praticando cinco horas por dia. Curiosamente, Vitor Cassel também dançou balé quando criança, e confessou que o papel acabou sendo mais difícil do que pensara. Aronofsky fez a sua lição de casa: foi ao Ballet Bolshoi assistir a uma montagem de O Lago dos Cisnes. Natalie Portman não foi, mas contou que se sentiu próxima da sua personagem por conta de suas origens. "Minha avó era russa, eu conheço esse senso dramático", declarou, na coletiva, em Veneza. Bailarinos canadenses que assistiram e criticam firmemente a imagem estereotipada e falseadora do balé que o filme constrói dizem que a dança está bem-feita e que os braços de Natalie Portman dão conta do recado (www.cbc.ca/arts/film/story/2010/12/26/blackswan-reaction-ballet-stereotypes.html).

Foi ela quem apresentou a dupla Kate e Laura Mulleavy, responsável pela Rodarte, a Aronofsky, que as contratou para criar os 40 figurinos de balé do filme, que combinam com a maquiagem dramática, com foco nos olhos, criada por Judy Chin, maquiadora pessoal de Sarah Jessica Parker em diversos longas. Para quem se interessar, há vários tutoriais na internet ensinando o passo a passo da maquiagem.

Vale lembrar que Vanessa Redgrave, que ganhou como melhor atriz em Cannes pelo papel, também havia sido indicada para o Oscar quando fez Isadora (1968). E que o outro lado de Cisne Negro é The Company (2003), que também trata do dia a dia de uma companhia de balé, mas com um roteiro mais verossímil.

Cisne Negro é um filme sobre dança. Mas existem filmes de dança. A diferença é que no primeiro a dança aparece somente como o assunto e, no outro, a dança passa a ser uma linguagem do cinema. Exemplos do primeiro tipo: The Red Shoes, White Nights, Billy Eliot, The Turning Point, Flashdance, etc.

Coprodução. Em outubro de 2001, um exemplo de filme de dança circulou somente em São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Chama-se As Cinzas de Deus, uma coprodução entre a inglesa Maverick Motion e a tevê suíça DRS, com direção de Andre Semenza, edição de Simon Sikes, e fotografia do inglês Marcus Whaterloo. No elenco, cinco bailarinos de primeira linha: Tuca Pinheiro, Jacqueline Gimenes, Ricardo de Paula, Marise Diniz e Heloísa Pinheiro Dominguez.

Foram 73 minutos filmados nas ruínas de uma estação de trem do século 18, em Ribeirão Vermelho, no sul de Minas Gerais. Paredes carcomidas, muita poeira, rastros de inundações do Rio Grande, misturados com restos de telhas francesas, vitrais espetaculares e ferro fundido importado de Glasgow, Inglaterra. Espectros disso tudo inscritos na forma de uma degradação física que atraiu Fernanda Lippi, a coreógrafa e roteirista do filme. Ela desejava criar um cruzamento de texturas capaz de realizar visualmente o poema Metamorfoses, de Ovídio, no qual baseou a sua composição. A câmera de Semenza transformou-se em um diretor "grotowskiano", e o resultado se aproximou de uma espécie de "teatro filmado". Um acabamento impecável e uma iniciativa louvável que, infelizmente, não foi continuada.

Quem sabe, seja o momento de revisitar esse longa de dança que foi aqui realizado.

OUTRAS SAPATILHAS NO CINEMA

Billy Eliot

(2000). No drama de Stephen Daldry, Billy Eliot (Jamie Bell) é um menino do interior da Inglaterra obrigado pelo pai a treinar boxe. Mas fica fascinado com a magia do balé e terá

de lutar por ele.

As Cinzas de Deus

(2001). Coprodução inglesa e suíça dirigida por Andre Semenza, coreografia e roteiro de Fernanda Lippi, inspirada no poema clássico de Ovídio, Metamorfose. No elenco, cinco bailarinos de primeira linha: Tuca Pinheiro, Jacqueline Gimenes, Ricardo de Paula, Marise Diniz e Heloísa Pinheiro Dominguez

Os Sapatinhos Vermelhos

(1948). Versão de conto de Christian Andersen dirigida por Emeric Pressburger e Michael Powell, sobre bailarina que se apaixona por maestro.

  • Tags: