A poesia do Brasil - antes do Brasil

PARIS - O Brasil ainda não existia, mas sua poesia sim. É preciso partir desse pressuposto, o de que a produção intelectual de autores do período colonial também marcam a nossa história, para compreender a verdadeira amplitude da produção poética brasileira. Essa constatação, hoje bem aceita, mas no passado um tanto iconoclasta, está no cerne de La Poésie du Brésil. Anthologie Bilingue du XVIe au XXe Siècle (A Poesia do Brasil - Antologia do Século XVI ao XX, Éditions Chandeigne), trabalho coordenado pelo poeta e tradutor Max de Carvalho Wyjuz, com a colaboração estreita Magalie de Carvalho e de Françoise Beaucamp.

Andrei Netto, Correspondente,

22 Fevereiro 2013 | 22h00

Max de Carvalho é uma autoridade nesse gênero literário, um dos fundadores da revista La Treizième, criada em 1985 e especializada em poesia. Autor franco-brasileiro nascido no Rio de Janeiro em 1961, mas criado na Europa, entre Luxemburgo e França, Max ainda traz consigo vínculos estreitos com seu Brasil natal, estabelecidos em uma memória já arcaica, algo melancólica, mas que nunca conseguiu - e nem quis - superar. O Brasil, diz ele, representa na sua vida "a proximidade de algo que está muito longe, ou o exílio do que é próximo". Esse olhar, ao mesmo tempo distante e íntimo, se reflete em A Poesia do Brasil.

Trata-se de um compêndio de 1,5 mil páginas que aborda, em duas línguas, o trabalho de 134 poetas, dos "imemoriais" quinhentistas aos modernos. É um panorama crítico e ilustrado, tecido com o objetivo de ir além do usual no que diz respeito à antologia poética do Brasil, até aqui limitada na França a recortes por períodos ou estilos, ou então reclusa às bibliotecas - como o caso de Anthologie de la Poésie Brésilienne, publicada em 1998 pelo mesmo editor, Chandeigne, e esgotada há vários anos.

A nova obra aborda desde as primeiras produções poéticas de membros da Companhia de Jesus, no século 16, até os anos 1930, auge do movimento modernista no Brasil - todos os poemas republicados estão em domínio público. "A poesia brasileira me parece de uma riqueza singular, que pede para ser explorada e destacada em todo o seu valor. Ela é digna de ser explorada desde as raízes", explicou Max ao Sabático, referindo-se às razões de uma abordagem cronológica e tão extensa. "Muito se diz que a poesia brasileira é tardia, que ela é ligada a sua emancipação intelectual. Mas eu não queria condenar as primeiras manifestações da poesia do Brasil", justificou.

Para Max, essa escolha se baseia no fato de que o Brasil poético já demonstrava certa independência da Metrópole antes mesmo da liberação política do país, ainda que suas manifestações literárias de fato tivessem como raízes o classicismo português, por sua vez alimentado pelo renascimento europeu. "A força própria dessas manifestações poéticas escapava ao postulado de que, para ser expressiva, essa poesia deveria ser consciente dela mesma e separada da fase colonial", sustentou o organizador. "Havia uma poesia do Brasil anterior à tomada de consciência da enorme vitalidade cultural e artística do país."

Embora tenha realizado um trabalho amplo, Max não se furtou a fazer escolhas - e muitas das quais difíceis. Na sua antologia estão, é claro, nomes como José de Anchieta, Gregório de Matos, Antônio José da Silva, elencados nas "Origens", até modernos como Manuel Bandeira, Mário e Oswald de Andrade, Adélia Prado, Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Haroldo de Campos, Ferreira Gullar ou Hilda Hirst. Estão ainda nomes menos conhecidos mas também - e aí está a dificuldade da escolha - poemas menos conhecidos de autores célebres. "Quis fazer uma antologia que seja o mais representativa possível, mas não são necessariamente os poemas que em geral figuram nas antologias. Há poemas que eu não escolhi porque me interessavam menos do que outros", adverte Max, assumindo a liberdade que se atribuiu na seleção dos textos que seriam traduzidos. A justificativa para tal é simples: "Eu quis amar o que eu fiz", disse ele.

Ao que tudo indica, amar a poesia brasileira não é um problema para Max de Carvalho. A tal ponto que o poeta e tradutor não entende o público exíguo que seus autores têm no exterior. "Temos universalidade, expressada por regionalismos muito poderosos, temos riqueza, temos originalidade... Tenho dificuldade de explicar porque isso acontece", reconheceu. Uma das hipóteses plausíveis, na sua opinião, é a de que na França há uma certa resistência à exuberância barroca de nossa expressão. "Aqui há uma certa tendência hermética, contida, cerebral. Mas, ao mesmo tempo, vejo isso em João Cabral de Melo Netto. Não tenho a resposta. Talvez a antologia seja a minha forma de me perguntar sobre o assunto."

Mais do que um questionamento pessoal, a obra é um instrumento para romper o desconhecimento que paira em torno dos autores brasileiros. Se Vinícius, Bandeira ou Cecília Meireles já foram traduzidos e publicados na França e têm relativa penetração e simpatia entre intelectuais parisienses, a maioria segue obscura para o leitor europeu. "Talvez seja uma maldição que não vamos jamais conseguir superar", brincou Max.

O certo é que seu trabalho já contribui para quebrar um pouco da barreira da ignorância no que diz respeito à poesia brasileira na França. Desde seu lançamento, A Poesia do Brasil recebeu críticas bastante positivas em veículos especializados. Em uma extensa reportagem que anuncia a realização de um programa especial dedicado ao livro, a ser veiculado em neste domingo, 24 de fevereiro, a rádio France Culture, uma das mais influentes da França, se questionou: "Como pudemos até aqui ignorar uma tal poesia além-Atlântico?"

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