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A poesia como saída de emergência

Primeiro título da parceria entre a Cosac Naify e a Fondo de Cultura, 'O Arco e a Lira', do mexicano Octavio Paz, considerado por Julio Cortázar o melhor ensaio sobre poética, ganha nova tradução

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2012 | 18h55

A poesia e a revolução representavam para o poeta, ensaísta, diplomata e Nobel mexicano Octavio Paz (1914-1998) tentativas de destruir o tempo da história para instaurar um outro tempo. Mas o tempo da poesia, dizia, não é o da revolução. Em outras palavras, não é o da razão crítica, mas o tempo mítico, sagrado. Foi por acreditar que os poetas são como magos rebeldes, sempre dispostos a apontar uma saída de emergência num mundo em crise, que Paz escreveu O Arco e a Lira, classificado por Julio Cortázar, mestre da literatura argentina, como o melhor ensaio sobre poética já escrito na América. É de Cortázar, aliás, a carta escrita em Paris, em julho de 1956, que abre o livro, fora de catálogo há muitos anos no Brasil e primeiro título da parceria entre a Cosac Naify e a Fondo de Cultura Económica, editora criada pelo governo mexicano, em 1934, que tem em catálogo 9 mil obras.

O livro será lançado na quarta-feira, às 19 horas, no auditório do Instituto Cervantes de São Paulo (Avenida Paulista, 2.439, telefone 3897-9609) com debate que reunirá Celso Lafer, da Academia Brasileira de Letras, Danubio Torres Fierro, editor da Fondo de Cultura Económica no Brasil, e Laura Greenhalgh, editora executiva do Estado. E há muito o que discutir, escreve o antropólogo colombiano Carlos Granés na página ao lado, especialmente a crítica da razão totalitária feita por Paz e sua crença numa das ideias fundamentais de Ortega y Gasset, a de que o ser humano não tem natureza, mas história. O homem, segundo Paz, se criou ao criar a linguagem, tornando-se uma metáfora de si mesmo ao separar-se do mundo natural.

Granés evoca as teorias de psicólogos cognitivos - como as do canadense Steven Pinker - que não entram em sintonia com as ideias do poeta mexicano. Como Octavio Paz reagiria a essas teorias? Seria interessante saber se o poeta faria ou não uma revisão de O Arco e a Lira à luz das novas teorias genéticas e neurológicas. Paz, afinal, lembra Granés, renunciou à ortodoxia marxista. Esse desencanto com a utopia o teria forçado a mudar - e ele o fez na época da segunda edição do livro (1967), marcado profundamente pela filosofia de Heidegger, em particular no último capítulo, quando fala do papel da técnica como destruidora de uma imagem do mundo e da aceleração do tempo histórico que desarticula a relação entre a poesia e o sagrado.

A idade moderna, justificou Paz, fez a crítica das mitologias e expulsou os deuses da terra, que deixou de ser santa. Agora, o problema é nosso: como conviver com a técnica, essa “filha da ideia do progresso”, num mundo dominado pela ânsia de consumo (que é a mesma de ser consumido)? Como viver quando o tempo concebido como história chega ao fim?

Há 22 anos, no dia em que recebeu o Nobel de Literatura, Octavio Paz disse ao editor Danubio Torres Fierro que a desintegração das ideologias conduziria esse mundo à explosão do individualismo, do nacionalismo e do fundamentalismo desenfreado. Foi o que aconteceu. Na mesma entrevista, o poeta diz que a história ensinou-o a ficar do lado dos vencidos, “agredidos permanentemente pela barbárie do progresso”.

Sobre o tema, Paz escreve o texto Os Signos em Rotação no epílogo de O Arco e a Lira. Nele, defende que não há poesia sem sociedade, mas que a maneira de ser social da poesia “é contraditória”. Não há igualmente sociedade sem poesia, “mas a sociedade nunca pode se realizar como poesia, nunca é poética”. A história da poesia moderna, conclui, “é a história de uma desmedida”. Esse posfácio foi publicado pela primeira vez em 1965, nove anos após a primeira edição de O Arco e a Lira, sendo então incorporado definitivamente ao livro.

Sociedade e poesia parecem a cada dia mais distantes, conclui o poeta, mas renunciar a esta “é renunciar a ser o que o homem moderno quis ser, renunciar a ser”, reflete, à maneira de Heidegger. O filósofo alemão dizia que “chegamos tarde demais para os deuses e cedo demais para o ser”. E Paz é, antes de tudo, um poeta moderno, um homem “inacabado”, que por isso faz poemas e sente-se exilado numa terra que não os aceita. No entanto, sente que nossa situação histórica, caracterizada pelo “tarde demais”, exige uma poesia crítica como a concebida por Mallarmé, “a única possibilidade de identificação da linguagem com o absoluto”, de acordo com ele. Paz, então, escreve ensaios pensando como poeta, seguindo a trilha aberta por Paul Valéry e Ezra Pound.

Foi com o mesmo título do posfácio de O Arco e a Lira, Signos em Rotação (1972), coletânea de ensaios traduzidos por Sebastião Uchoa Leite e organizados por Celso Lafer e Haroldo de Campos, que o nome de Octavio Paz começou a ser discutido no Brasil. Logo depois seriam traduzidos Os Filhos do Barro (em 1974) - livro que será relançado em 2013 pela parceria Cosac Naify/Fundo de Cultura -, O Labirinto da Solidão e Post-Scriptum (1976) e O Arco e a Lira (1982), além de Blanco, transcriado por Haroldo de Campos como Transblanco (1986). Desde então foram inúmeros os estudos publicados aqui sobre sua obra, entre eles As Raízes e o Labirinto da América Latina, escrito por Silviano Santiago, colunista do Sabático, sobre seu O Labirinto da Solidão e Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, um dos livros brasileiros que a Fondo de Cultura Económica lançou no México.

A editora também publicou a obra completa de Octavio Paz. Entre seus livros, O Labirinto da Solidão, escrito em 1950, é um dos mais conhecidos. Paz usa a metáfora do minotauro no labirinto e conduz o leitor pelo fio que leva à reflexão sobre a identidade do povo mexicano, ao examinar a vida dos “pachucos”, que não aceitam as origens nem o modo de vida americano, errando num purgatório/labirinto entre as tradições religiosas do México (os deuses, os demônios, os espíritos) e a modernidade laica dos EUA.

O engajamento literário de Paz era antigo. Remonta à fundação da revista estudantil Barandal em 1931, que traduzia a ambição de seu editor e trazia em suas páginas ensaios sobre Alberti e Joyce. O poeta tinha 17 anos quando começou a publicar em jornais como El Nacional, recorrendo a alegorias para disfarçar o conteúdo erótico de alguns poemas, dedicados a associar formas femininas às curvas do mundo (a exemplo do que Oscar Niemeyer, morto na quarta-feira, fez em sua arquitetura).

Como os anos 1930 foram marcados pelo espírito revolucionário no México, Paz não se manteve neutro, até mesmo por ser amigo de rebeldes ativistas como o pintor Rufino Tamayo, opositor da estética dos muralistas mexicanos, e o fotógrafo Manuel Álvarez Bravo, autor da foto desta página, que, rejeitando o pitoresco dominante na arte mexicana, aproximou-se de André Breton e dos surrealistas, exercendo grande influência sobre o poeta amigo.

Atraído pela luta dos revolucionários, aos 23 anos, Paz abandonou o curso de Direito e foi para Yucatán fundar uma escola e ensinar os filhos dos camponeses. Também passou pela Espanha no mesmo ano, participando de um congresso de escritores a convite do poeta chileno Pablo Neruda, voltando à terra natal para continuar a luta política como editor de poetas espanhóis exilados no México, em 1938. Um ano depois, desiludido com a esquerda, após o pacto entre Hitler e Stalin, afastou-se do jornal El Popular, afirmando sua independência ideológica e rompendo com amigos (Neruda, inclusive).

Cosmopolita, Paz seguiu para os EUA, nos anos 1940, para estudar a poesia das Américas. Nomeado secretário da embaixada mexicana em Paris no pós-guerra, conheceu escritores e dramaturgos como Beckett e Camus. O Labirinto da Solidão foi concebido nessa época. Nos anos 1950, sua proximidade com Carlos Fuentes, um dos editores da Revista Mexicana de Literatura, levou-o a um diálogo próximo com escritores como Cortázar e Bioy Casares. Os anos 1960 foram decisivos para que Octavio Paz encontrasse a própria voz, dialogando com as antigas tradições religiosas e culturais (ele passou seis anos na Índia). Após abdicar do cargo de embaixador, em 1968, por causa do massacre de Tlatelolco, Paz dedicou-se ao ensino universitário e fundou revistas como Plural e Vuelta.

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